“A opressão que as pessoas sofrem por viver às margens da sociedade é pavorosa."
Rahul Dhankani for HuffPost
“A opressão que as pessoas sofrem por viver às margens da sociedade é pavorosa."
LGBT
17/06/2019 00:00 -03

A jornada de Sintu Bagui

De trabalhadora de chão de fábrica a ativista por direitos de pessoas trans.

Fotos por Rahul Dhankani

KOLKATA, Bengala Ocidental, Indía — Sintu Bagui tinha 14 anos quando abandonou a escola e começou a trabalhar em uma fábrica de compensado de madeira. Por uma diária de US$1, em turnos exaustivos de 12 horas cada, ela carregava chapas pesadas e fazia trabalhos de limpeza. Ao final de cada dia suas mãos estavam cheias de cortes e bolhas. Mesmo machucada, ela julgava ser melhor trabalhar na fábrica do que enfrentar a escola todos os dias. 

“Cada vez que eu entrava na escola, me sentia morrendo um pouquinho”, recorda Bagui, que se identifica como mulher transexual, ao HuffPost Índia. “Eu não queria usar o banheiro dos meninos, não queria usar o uniforme dos meninos e estava farta de ser alvo de bullying dos garotos e dos professores, tentando me pressionar a ser menos feminina.”

A mãe de Bagui, garota de programa que vivia em um bairro de prostituição de sua cidade, ficou arrasada. Não tinha sido fácil encontrar uma vaga.

“A escola pediu a assinatura de meu pai e queria que fosse ele a fazer a matrícula”, conta. “Deviam desconfiar que minha mãe era profissional do sexo. Provavelmente queriam que desistíssemos da ideia. Mas alguns dos pais dos alunos protestaram e obrigaram a escola a me aceitar.”

Assim, quando Bagui abandonou a escola, a mãe dela, exausta após uma vida dura de marginalização interminável e sofrimento constante, reagiu com críticas violentas. A mãe morreu em 2012, quando Bagui tinha 20 anos. Ela não chegou a aceitar a expressão de gênero de sua filha.

Apenas após a morte de sua mãe é que Bagui foi usar um sári e bijuterias pela primeira vez. 

“Minha mãe vivia me falando: ‘Seja como um homem’”, diz. “Por isso eu nunca me animava a me vestir do jeito que queria quando estava perto dela.” Após a morte de sua mãe, a família de Bagui tentou pressioná-la a se casar com uma mulher, para ‘curar seu problema’. “Eu estava ali de sári e cheia de pulseiras, e eles tentando encontrar uma noiva para mim”, conta.

Em 2018 a Suprema Corte da Índia finalmente revogou a lei da era colonial conhecida como Seção 377 (o nome se deve à seção 377 do código penal do país), que criminalizava o sexo entre pessoas do mesmo sexo. A decisão bem-vinda concedeu igualdade de direitos aos cidadãos LGBT. Mas pessoas transgênero, como Bagui, especialmente as de famílias de trabalhadores, ainda são vítimas de violência e estigmatização social.

Hoje, com 27 anos, Bagui é uma ativista que defende os direitos dos transexuais. Ela atua na ONG Anandam, que trabalha com algumas das comunidades mais marginalizadas do país, em pequenos povoados e vilas onde as pessoas LGBTQ+ têm dificuldade em encontrar grupos de apoio, organizações da sociedade civil e advogados que defendam seus direitos.

Bagui prefere utilizar o termo LGBTKH, porque os termos tradicionais indianos “kothi” e “hijira” (nomes pelos quais são chamados os travestis, transexuais e eunucos no subcontinente) retratam sua experiência de vida com mais precisão que a palavra “queer”. Ela ainda vive no lugar onde passou sua infância, Gorabagan, o bairro da prostituição da pequena cidade de Seoraphuli, situada a uma hora de carro de Kolkata, no leste da Índia.

“Imagine o que acontece nas cidades pequenas, onde não há apoio por perto e a polícia e os moradores são hostis”, pontua Bagui, ao descrever dificuldades enfrentadas pelas pessoas transgênero no interior da Índia. “Transgêneros geralmente são pobres, têm baixo grau de instrução e foram rejeitados pelas famílias. Não estão a par das decisões importantes da Justiça.”

Da fábrica ao ativismo

Quando Bangui lembra de seu tempo na fábrica, traumas ainda vêm à tona.

“Eu era tão jovem na época, estava tão desesperada, que mal tinha consciência de quanto estava sendo abusada”, diz. “Eu tolerava quando homens punham a mão no meu peito, beliscavam minha bunda e me davam cutucões, sorrindo e fazendo piadinhas.”

Ela continuou no emprego porque precisava do dinheiro. Os anos que sua mãe trabalhou como prostituta tinham enfraquecido sua saúde, o que a impediu de trabalhar. Com frequência, sua família só tinha um pouco de arroz e bolinhos de legumes para comer.

Um ano depois de começar a trabalhar na fábrica, Bagui encontrou emprego em uma papelaria perto de sua casa, e foi ali que ela teve seu primeiro contato com um grupo de transgêneros. Um dia, sob o pretexto de ir fazer uma entrevista para outro emprego, Bagui seguiu o grupo que entrou em uma casa decrépita onde viviam mulheres transexuais e pessoas intersexo.

“Pela primeira vez na vida, senti que estava no meu lugar. As pessoas estavam usando roupas de mulher, estavam falando palavrões, dando risada”, conta.

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“Cada vez que eu entrava na escola, me sentia morrendo um pouquinho."

Daquele dia em diante, Bagui passou a sair do trabalho com frequência e ir àquela casa, onde finalmente encontrou o que chama de “uma comunidade”. Ao mesmo tempo, com a ajuda de outra mulher transexual do grupo, ela se matriculou em um curso de dança. “Naqueles momentos eu conseguia respirar”, lembra. Mas sua sorte não demorou a acabar.

Um dia, uma vizinha a quem ela fizera confidências, disse à sua mãe que Bagui estava andando com “pessoas transgênero”. Entre choros e gritos, a mãe de Bagui a espancou até deixar a adolescente sem conseguir se mexer.

Bagui disse que essas experiências a levaram a viver em segredo como ativista. “O que acontece quando uma pessoa como eu, em um povoado pequeno do interior, se vê nessa situação social? A quem a pessoa vai recorrer? Como vai buscar ajuda? Não nenhum lugar aonde ela possa ir.”

Com 18 anos, Bagui começou a trabalhar como assistente de saúde em uma entidade de assistência a profissionais do sexo, em Kolkata. “Eu já tinha vivido o suficiente para entender como o mundo funciona”, comenta. Ela atuava em campo, promovendo a conscientização de pessoas da comunidade de HSH (homens que fazem sexo com homens) sobre a importância do uso da camisinha, o perigo da aids e lugares onde fazer exames de HIV.

“A opressão que as pessoas sofrem por viver às margens da sociedade é pavorosa”, diz. “Eu vi em primeira mão o tipo de maus-tratos que minha mãe sofria. As mulheres trans que são profissionais do sexo enfrentam tortura duas vezes pior, com pessoas que se recusam a pagar, se recusam a usar camisinha, que as estupram e espancam.”

Em 2014 a Suprema Corte indiana reconheceu formalmente os transgêneros como pessoas de um “terceiro gênero”. A decisão judicial teve repercussões importantes para os direitos civis, direitos de herança e define que governos estaduais devem reservar empregos no setor público para pessoas da comunidade transgênero. Contudo, poucas pessoas entendem a decisão judicial em sua totalidade. Por isso, Bagui começou a traduzir a decisão do Supremo para o idioma bengali para torná-la mais acessível.

“O próximo passo será distribuir as traduções e educar as pessoas sobre a importância da decisão do Supremo”, afirma. “Desse modo, se alguém tentar assediar ou molestar pessoas transgênero, elas poderão recorrer ao documento e contestar a violação de seus direitos.”

Cinema e política

Em 2018, estudantes da Universidade da Pensilvânia viajaram a Bengala Ocidental para fazer um filme sobre a comunidade trans nessa região. Bagui trabalhou na direção do filme ao lado de outras quatro outras pessoas trans. Quando foi lançado, ela viajou por 40 dias pelos Estados Unidos ― quando o filme foi exibido em universidades norte-americanas.

“Percebi que o tipo de violência que a comunidade trans sofre é a mesma em todo o mundo. Conheci mulheres transexuais que abandonaram suas famílias depois de sofrer violência emocional e física e viviam na rua; pessoas que sofrem maus-tratos por parte das famílias de seus companheiros. Ouvi relatos sobre mulheres atacadas e mortas”, conta. Mas ficou satisfeita com a presença de banheiros para todos os gêneros em vários locais que visitou. 

“Precisamos muito disso na Índia. Já que não há, somos insultados e expulsos dos banheiros tanto femininos quanto masculinos”, comentou. Bagui ainda é identificada como homem em seu passaporte. Ela ainda não procurou atualizar seus dados, porque teme sofrer violência durante o processo judicial.

“Já ajudei outras pessoas a conseguir seus documentos, e às vezes é uma coisa que me enfurece. Uma vez um juiz de um tribunal local em Kolkata perguntou como poderia simplesmente declarar que uma pessoa é transgênero. ‘E se amanhã você resolver voltar a ser homem?’, ele falou. É irritante.”

Por isso, quando Bagui fez escala no aeroporto de Heathrow, em Londres, no Reino Unido, ela teve que usar o banheiro dos homens. “Tentei ficar com a aparência mais masculina possível. Usei uma camiseta grande, solta, calças largas e não fiz as sobrancelhas por uma semana”, contou. Mas a segurança perto do banheiro a barrou quando notou restos de esmalte em suas unhas compridas e uma “bolsa de mulher” que estava carregando. “Ela não sabia para onde me enviar.” 

Este ano Bagui foi selecionada para ser juíza num tribunal Lok Adalat em Seoraphuli, sua cidade natal. O Lok Adalat é um tribunal local que é montado ocasionalmente por autoridades judiciais de distritos indianos para buscar a resolução amigável de disputas que ainda não chegaram à etapa litigiosa. Os Lok Adalats geralmente são compostos por ex-juízes, um funcionário do governo e um assistente social. Bagui foi a segunda pessoa transgênero selecionada para comandar os procedimentos do Lok Adalat.

“É importante conseguir essa visibilidade, para poder conscientizar o público dos problemas de nossa comunidade”, pontua.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost Índia e traduzido do inglês.