MULHERES
23/02/2020 18:20 -03 | Atualizado 24/02/2020 08:13 -03

'Me vi vulnerável', diz Simony após apalpada ao vivo de Dudu Camargo no Carnaval

Caso de assédio sexual aconteceu ao vivo, enquanto o apresentador do SBT era entrevistado no "Bastidores do Carnaval", da RedeTV.

“Por mais ‘permissiva’ e brincalhona que possa sugerir ser uma transmissão de bastidores do carnaval, me senti mal, me vi vulnerável em uma situação desagradável”, escreveu a cantora Simony, 43, em seu perfil no Instagram, após ser assediada sexualmente pelo apresentador Dudu Camargo, 21.

Caso aconteceu ao vivo, na madrugada do último sábado (22), enquanto o apresentador do SBT era entrevistado no programa “Bastidores do Carnaval”, da RedeTV. O programa é apresentado por Simony e Nelson Rubens. 

Na tarde deste domingo (23), em entrevista à revista Quem, Simony disse que pretende processar o apresentador. Desde 2018, a lei de importunação sexual pune atos libidinosos sem consentimento com penas de 1 a 5 anos de prisão 

“Providências serão tomadas. Vou falar com minha família e com meus filhos. Tenho um filho de 18 anos [Ryan, com o rapper Afro-X], que acha que devo seguir em frente e tomar as medidas cabíveis assim que o Carnaval acabar, na terça-feira. Todos da família se sentiram constrangidos”, disse à publicação.

Reprodução/Rede TV
Cena em que Dudu Camargo, ao ser entrevistado durante o programa "Bastidores do Carnaval", apalpa os seios da cantora Simony.

Durante transmissão, Dudu começou a passar as mãos pelo corpo de Simony e chegou a apalpar seu seio. A apresentadora respondeu surpresa à atitude: “Sai daqui! Que abusado esse Dudu!”, disse. Em seguida, o jovem abraçou a cantora, que o afastou: “Não aperta muito, não to acostumada”, disse. 

O jornalista pediu, ainda, um “selinho” para Simony e propôs que os dois tivessem um filho. “Eu te acompanho já há muito tempo, desde criança. Você está solteira e eu também estou. Temos o mesmo tamanho. Eu to querendo fazer um filho, procriar”, sugeriu o apresentador do “Primeiro Impacto”.

A cantora, então, respondeu que já tem quatro filhos e não quer mais um, e que é, inclusive, operada para não engravidar. Por fim, Simony deu um selinho em Camargo e reclamou: “Era só um selinho e ele fica segurando o pescoço da gente”.

O caso gerou repercussão negativa nas redes sociais. Alguns usuários do Twitter não ficaram surpresos com a atitude de Dudu Camargo, que é conhecido por se envolver em polêmicas; outros, o acusaram de assédio e lembraram que o corpo das mulheres não é público com ou sem Carnaval.

Ainda em seu Instagram, a cantora disse que se sentiu mal por não poder dizer o que pensava da cena no momento em que ela aconteceu. “Eu poderia achar que o que Dudu Camargo fez foi apenas ‘brincadeirinha’, mas sinceramente me senti mal em não poder dizer ali o que eu achei da cena”, escreveu.

“Ele passa a mão em mim como se estivesse apalpando um pedaço de carne, me puxa o pescoço e fala que está querendo “procriar”, oi?”, questionou a cantora que acredita que o jovem queria ‘se mostrar como macho’.

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O meu carnaval mal começou e hoje, ao chegar em casa , me deparei com o descontentamento do meu filho e de boa parcela do público que se mostrou indignado com o fato de um homem ter passado a mão no meu peito em cadeia nacional. Eu estava ao Vivo na Rede Tv, realizando meu trabalho ao lado de colegas da profissão e por mais “permissiva” e brincalhona que possa sugerir ser uma transmissão de bastidores do carnaval, me senti mal, me vi vulnerável em uma situação desagradável que eu gostaria de dividir com vocês como mulher e mãe. Aqui não falo somente por mim mas por outras mulheres que não somente nesse período mas todos os dias se deparam com episódios em que um homem se vê no direito de passar a mão, fazer “brincadeiras” de mal gosto e em ultimo grau forçá-las a algo que não querem. Eu poderia achar que o que Dudu Camargo fez foi apenas “brincadeirinha” mas sinceramente me senti mal em não poder dizer ali o que eu achei da cena. Ele passa a mão em mim como se estivesse apalpando um pedaço de carne, me puxa o pescoço e fala que está querendo “procriar”, oi?. Ali estava claro que a “brincadeira”de Dudu era sexualizada, queria mostrar-se como “macho” afim de satisfazer sua vontade sem pedir, sem perguntar, sem pensar que além dele existia ali a minha vontade. Com todo o respeito ao Nelson Rubens, pessoa que admiro, também não gostei de ser “disponibilizada” por estar solteira como se estivesse a espera de alguém a qualquer momento. A mulher é e está como e com quem ela bem entender, o fato de usar um decote e uma roupa curta e decotada não quer dizer que quer ser possuída ou agarrada por um homem, chegamos a um tempo em que é necessário evoluir e entender de uma vez por todas que o direito a vontade de um acaba onde começa o do outro. Mulheres não existem para procriarem ou serem assediadas por homens e agarradas ao bel prazer. A cada carnaval o assunto do assédio deve ser levado mais a sério, o “não é não” precisa ser entendido como um código a ser respeitado, as delegacias de mulheres precisam estar por toda parte. Se continuarmos achando normal esse tipo de coisa não precisaríamos ter vagões de metrô só para mulheres. CONTINUA EM OUTRO POST

Uma publicação compartilhada por Simony (@simonycantora) em

“Estava claro que a ‘brincadeira’ de Dudu era sexualizada, queria mostrar-se como ’macho’afim de satisfazer sua vontade sem pedir, sem perguntar, sem pensar que além dele existia ali a minha vontade”, escreveu na rede social.

Para a apresentadora “chegamos a um tempo em que é necessário evoluir e entender de uma vez por todas que o direito a vontade de um acaba onde começa o do outro” e “mulheres não existem para procriarem ou serem assediadas por homens e agarradas ao bel prazer”. 

Ainda em seu texto, Simony pediu respeito a todas as mulheres e disse que quer dar exemplo para seus dois filhos homens. A apresentador também afirmou que Dudu ainda é jovem e pode mudar seu comportamento.

Dudu Camargo, por sua vez, negou as acusações. Questionado pelo UOL se cometeu assédio, ele desviou do assunto: “Tudo o que viram é verdade, o que não viram não é verdade”, disse ao site

Desde 2018, assédio sexual é considerado crime no Brasil

ASSOCIATED PRESS
Desde 2017, campanha do "Não é Não" distribui adesivos para difundir a ideia de que o corpo da mulher não é público.

Investidas sem consentimento durante a folia no tumulto dos blocos é sinônimo de assédio sexual, uma prática que não deve ser encarada com naturalidade. O Carnaval 2020 é o segundo em que a Lei de Importunação Sexual está em vigor e que o crime de assédio foi tipificado. As penas para este tipo de contravenção é de 1 a 5 anos de prisão para o agressor.

“Acho que agora, neste Carnaval, nós estamos falando muito mais sobre todas essas formas de violência sexual. E isso é muito importante porque apesar de a gente ter uma lei, ela é recente e ainda é preciso que ela chegue às pessoas. Muita gente ainda não sabe da existência dela e nem identificar assédio”, aponta Paula Machado, defensora pública de São Paulo, ao HuffPost Brasil.

A nova lei define a importunação sexual como a prática de ato libidinoso contra alguém sem o seu consentimento “com o objetivo de satisfazer a própria lascívia ou a de terceiro”.

“Os próprios exemplos do que se caracteriza uma importunação sexual é algo que ainda está em um momento de construção”, diz a defensora. “Existem entendimentos que vão abranger a passada de mão, a masturbação, beijo roubado; mas, de todo modo, independentemente se for uma conduta mais grave ou menos grave, é importante que, caso a vítima sinta necessidade, procure um atendimento adequado tanto de saúde quanto da segurança pública.”

A recomendação é que a vítima e as pessoas que presenciarem qualquer ato de assédio durante a folia tentem identificar o assediador, gravando suas características físicas e suas vestimentas.

Se for possível, segundo a defensora, é recomendado tentar fotografar ou filmá-lo, desde que isso não coloque a vítima em risco. Ela também aconselha reunir informações de possíveis testemunhas, como nome e telefone, e levar esses dados para a delegacia de polícia.

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