POLÍTICA
05/02/2019 17:06 -02 | Atualizado 05/02/2019 17:07 -02

Simone Tebet: 'Vou até o último suspiro dentro do MDB para resgatar história do partido'

Para senadora, que perdeu disputa interna para Renan Calheiros e se aliou a Alcolumbre, grupo de Renan "está baqueado". "Parece que só agora caiu a ficha."

Pedro França/Agência Senado
“Eles estão baqueados. Parece que só agora caiu a ficha”, disse sobre grupo de Renan Calheiros.

Uma da protagonistas na disputa pela presidência do Senado Federal, Simone Tebet (MDB-MS) diz que quer continuar no MDB, único partido ao qual já foi filiada, mesmo com a divisão provocada pelas articulações de Renan Calheiros (MDB-AL). 

Em cargos públicos desde 2003, a parlamentar acredita que o MDB precisa ser renovado. “Estou recebendo manifestação do Brasil inteiro de filiados, de pessoas da base. Querem um MDB diferente, com uma outra cara, um novo programa, novas ideias. Não vou largar no meio do caminho isso. Vou até o último suspiro dentro do MDB para tentar resgatar a história do partido”, afirmou em entrevista exclusiva ao HuffPost Brasil, em seu gabinete no Senado, nesta terça-feira (5).

A conversa ocorreu antes da reunião de líderes no Senado, cuja pauta era a distribuição de postos na Mesa Diretora e no comando das comissões temáticas.

De acordo com Tebet, o presidente da legenda, Romero Jucá, apesar de aliado de Renan, admitiu a necessidade de mudança. O ex-senador recuou na disputa na bancada no Senado que resultou na escolha do alagoano como candidato para o comando do Senado. Se vencesse, seria a quinta vez que Renan ocuparia o posto.

Uma articulação que incluiu a defesa do voto aberto e contou com o apoio da emedebista, contudo, levou o veterano a desistir da disputa, ao perceber que não sairia vitorioso. Ganhou Davi Alcolumbre (DEM-AP), aliado do ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni.

Na avaliação da senadora, o grupo de Renan, que inclui o líder Eduardo Braga (MDB-AM), demorou a perceber a derrota. “Eles estão baqueados. Parece que só agora caiu a ficha”, disse. 

Nessa reconstrução da legenda, ela acredita que um aceno dos seus adversários de bancada para aceitar um acordo que a levaria à presidência da CCJ (Comissão de Constituição e Justiça), seria fundamental para realinhar MDB, DEM e PSDB e facilitar os trabalhos legislativos.

Acho que o Renan se inviabilizou totalmente depois do episódio lamentável. Dentro da bancada, não se fala mais do nome dele para presidência da CCJ

Na composição que tem sido negociada nos bastidores, o PSDB abriria mão da CCJ, principal colegiado da Casa, desde que o MDB indicasse Tebet. Os tucanos ganharam espaço por decisão de Alcolumbre, a fim de acomodar aliados em funções de comando.

Crítica da interferência de Onyx Lorenzoni na eleição do Senado, a senadora afirmou que o governo agora “vai ter que aprender a fazer política”.

 

Confira a íntegra da entrevista:

 

HuffPost Brasil: O MDB errou ao apoiar um candidato que vai contra a onda de renovação expressa pelas urnas?

Simone Tebet: Eu fui adversária, fui a única que tive coragem de ir para o embate pregando isso. Até falei “busquem uma terceira via”. Só fui candidata à presidência porque era contra Renan Calheiros. Se fosse qualquer outro companheiro, eu não era candidata. Não era um fim em si mesmo.

Foi uma derrota da bancada que depois, no plenário, eu me senti vitoriosa, mesmo sem ter sido eleita presidente

Foi uma derrota da bancada que depois, no plenário, eu me senti vitoriosa, mesmo sem ter sido eleita presidente. Acho que estou mais feliz do que se tivesse sido eleita presidente por ter respondido aos anseios da sociedade. Não acho que sempre a sociedade tem razão, mas nesse caso, quem pode contestar isso?

 

A senhora já defendeu uma necessidade de renovação do MDB. Como a bancada recebeu os últimos acontecimentos? Que mudanças precisam acontecer?

Eles estão baqueados. Parece que só agora caiu a ficha.

 

O Romero Jucá também?

O Jucá sempre entendeu o processo. Ele foi um que percebeu. Falou “Simone, você é candidata. Acho que o partido precisa de renovação”. A gente sabe que ele é amigo do Renan. Ele nunca negou isso. Não estou dizendo que ele era meu cabo eleitoral. Mas ele nunca interferiu contrário a mim dentro da bancada. Eu nenhum momento ele assediou um senador. Ao contrário… quando um senador vinha falar que o voto era da Simone, ele falava que podia votar.

 

A senhora sairá do MDB? Quando? Recebeu convite de outros partidos? 

Recebi vários convites, mas acho que a gente não pode largar a luta no meio do caminho. Fomos vitoriosos. Estou recebendo manifestação do Brasil inteiro de filiados, de pessoas da base. Querem um MDB diferente, com uma outra cara, um novo programa, novos ideias. Não vou largar no meio do caminho isso. Vou até o último suspiro dentro do MDB para tentar resgatar a história do partido.

Se eu não conseguir, posso sim [mudar de sigla]. Mas não vou deixar o partido porque fui a preterida na presidência ou na CCJ. Eu vou até mais dois, três, seis meses ou até um ano - se acontecer alguma coisa a mais eu me desligo - para tentar agora, em memória a todos que fizeram tanto pelo partido.

E pelas pessoas que estão comigo. Tenho três deputados estaduais, prefeitos. Não posso tomar nenhum posicionamento sabendo que esses companheiros provavelmente me acompanhariam, e isso é uma responsabilidade grande.

Querem um MDB diferente, com uma outra cara, um novo programa, novos ideias. Não vou largar no meio do caminho isso. Vou até o último suspiro dentro do MDB para tentar resgatar a história do partido.
Edilson Rodrigues/Agência Senado
"O governo agora vai ter que aprender a fazer política. Vai ter que conhecer a Casa e dialogar", disse Simone Tebet sobre interferências dos ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni.

Há a possibilidade de a bancada do MDB conquistar lugares na Mesa dependendo das indicações. O grupo do Renan Calheiros e do líder Eduardo Braga saiu derrotado da eleição da presidência. Eles deveriam compor com Alcolumbre agora?  

Eu estou do outro lado do MDB, daquele que acha que erramos desde o começo. Na reunião da bancada [na última segunda-feira, 4], alguns colegas defenderam essa ideia de que o MDB perdeu. Por mais que existisse a proporcionalidade [do tamanho da bancada na distribuição de cargos], dessa vez ela ficou rompida.

Para que o presidente se elegesse, ele precisava acenar para os maiores partidos que o ajudaram a virar presidente, especialmente o PSDB e o PSD, com espaços maiores. Cada um ficou com os dois maiores espaços na Mesa e as maiores comissões. Nós estamos numa tratativa de tentar ainda assegurar a CCJ para o MDB, mas na Mesa perdemos os maiores espaços.

Provavelmente ficaremos com a Segunda Secretaria e com a suplência na Mesa (...) Têm uma saída mais fácil e, de novo, eles estão reticentes em relação a isso, que seria garantir a mim a presidência da CCJ, mas como eu não sou do grupo [do Renan], haveria uma resistência.

Acho que o Renan se inviabilizou totalmente depois do episódio lamentável. Dentro da bancada, não se fala mais do nome dele para presidência da CCJ. Creio que ele não teria nem mais apoio dos aliados para isso. Existem 2 outros senadores que a princípio pleiteariam, mas não vejo dificuldade de conversar com eles. É que a até ontem eles não tinham percebido, talvez não tivessem diluído o processo de perceber que agora nós temos que recomeçar. O partido têm que recomeçar do zero dentro e fora da Casa.

 

A senhora como presidente da CCJ seria uma forma de reduzir essa divisão entre Alcolumbre e o grupo do Renan?

É. E uma coisa que ficou clara é a bancada [do MDB] rachada, literalmente no meio porque temos dois senadores que sinalizaram que não fazem mais parte daquele outro processo.

O governo não vai depender necessariamente do líder da bancada para aprovar nada aqui. Os senadores terão uma independência maior porque o MDB hoje está rachado não em relação ao governo - que todos pregam a independência - mas em relação às propostas.

Na reforma da Previdência, o líder não vai ter o condão de falar “todos vão votar”. Isso vai depender de como a reforma vai vir e do posicionamento pessoal de cada senador. Na nossa bancada hoje, ser líder vai ser um grande desafio.

Jefferson Rudy/Agência Senado
" Até ontem eles não tinham percebido, talvez não tivessem diluído o processo de perceber que agora nós temos que recomeçar. O partido têm que recomeçar do zero dentro e fora da Casa", disse Simone Tebet sobre grupo de Renan Calheiros.

Antes da eleição da presidência do Senado, a senhora criticou a interferência do ministro Onyx Lorenzoni na disputa e afirmou que isso poderia prejudicar a governabilidade. Qual a expectativa para a presidência do DEM no Senado?  A senhora fará parte desse conselho consultivo?

Ele não precisa que eu faça parte [desse conselho] para dar conselhos a ele, se ele precisar. O Davi é meu amigo. Deixo a vaga para outros. Tudo vai depender do governo. O governo agora vai ter que aprender a fazer política. Vai ter que conhecer a Casa e dialogar.

Já trocou o emissário. O [ex-senador] Paulo Bauer [escolhido como secretário especial da Casa Civil para o Senado Federal] é de uma amabilidade que começa a abrir espaços. Acho que isso é muito importante. Ele é paciente, sabe ouvir. Tem vontade de contribuir. Não sei se vai ser o único. Acredito que um só não dê conta. E vai depender muito da sinalização do chefe da Casa Civil com os senadores em um projeto de governabilidade.

 

O presidente Alcolumbre prometeu criar comissões especiais para acompanhar, na Câmara dos Deputados, a tramitação da reforma da Previdência e da Lei Anticrime de Sérgio Moro. A senhora concorda?

Tudo contribui. Óbvio que esses senadores vão ter dificuldades de ficar passando as informações para outros colegas, mas só de ter três, quatro, cinco falando a mesma língua e passando para o presidente e para o líder o que está acontecendo, não acho ruim. Essa comissão não vai dar aumento de despesa. Só mais trabalho para os senadores. Senador tem que trabalhar mesmo.

 

A senhora tem uma avaliação sobre as propostas do ministro Sérgio Moro, especialmente sobre a questão de mortes cometidas por policiais em serviço?

A exclusão de ilicitude pode causar algo que precise de uma adequação, mas não dá mais para tratar o policial em serviço de forma diferente do cidadão comum, no que se refere à violência. Também não dá para estender e sair matando.

 

Qual a real necessidade dessa alteração legal?

Veio um sentimento na época do PT de que o bandido tem de ter toda a proteção. Quando você estica demais a corda de um lado, você cria uma resistência do outro. Agora é preciso um meio termo. É preciso reconhecer e valorizar o bom policial. Quando ele mata em serviço, é preciso ver a ficha, se foi a primeira vez, e se for o caso, dar a exclusão de ilicitude. Agora, tem ficha de policial que é um bandido dentro da corporação. Tem de fazer esses diferenciais. Acho que o que o projeto quis foi garantir o bom trabalho desse bom policial.