OPINIÃO
08/08/2019 14:19 -03 | Atualizado 08/08/2019 14:19 -03

'Simonal' é mais uma chance de redenção a um dos maiores artistas brasileiros

Cinebiografia de Wilson Simonal mostra a importância do artista para a música brasileira sem passar pano.

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Fabrício Boliveira é Wilson Simonal de Castro.

Biografias no cinema normalmente seguem um padrão chapa branca de nunca ou quase nunca expor os pontos mais “polêmicos” de seu biografado. Como o que aconteceu com Freddie Mercury e o Queen em Bohemian Rhapsody, por exemplo. 

O filme sequer falou do controverso show da banda na África do Sul em pleno regime do apartheid, algo que foi muito mal recebido até por seus fãs mais fervorosos. Um capítulo triste na história do grupo que foi simplesmente ignorado no filme vencedor de quatro estatuetas do Oscar em 2019.

Pelo menos desse mal, Simonal, que chega aos cinemas nesta quinta (8), não sofre. 

Porém, a vida e a carreira de um dos cantores mais populares do Brasil na década de 1960 já foi retratada com exaustão.

A ascensão e queda de Wilson Simonal de Castro já rendeu dois livros: Quem Não Tem Swing Morre Com a Boca Cheia de Formigas: Simonal e os Limites de uma Memória Tropical, de Gustavo Alonso (2017), e Nem Vem que Não Tem – A Vida e o Veneno de Wilson Simonal, de Ricardo Alexandre (2019); um documentário: Simonal – Ninguém Sabe o Duro que Dei (2009), de Cláudio Manoel, Micael Langer e Calvito Leal; e dois os musicais: S’imbora, o Musical (20015) e Show em Simonal (2016).

Aí fica a pergunta: O que mais falta falar sobre o cantor que dominava multidões com hits Balanço Zona Sul, Lobo Bobo, Mamãe Passou Açúcar em Mim, Meu Limão Meu LimoeiroNem Vem Que não Tem, Vesti Azul, e País Tropical

Nada. Mas talvez ele merecesse mesmo essa insistência, já que teve sua brilhante carreira destruída pelo rótulo de “dedo duro” que ganhou depois de fazer a grande besteira de, em 1971, recorrer a um agente do DOPS (Departamento de Ordem Política e Social), órgão de repressão da ditadura militar, para resolver um problema que tinha com seu ex-contador.

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Leandro Hassum é o produtor musical e pilantra de plantão Carlos Imperial, que "descobriu" Simonal.

E mesmo que não aponte nenhuma novidade sobre a história do artista em si, ganha alguns bons pontos pela forma que conta essa história. Como na ótima sequência de abertura - um pouco inspirada demais na cena em que Henry Hill (Ray Liotta) vai ao Copacabana em Os Bons companheiros (1990), é verdade. Ou na cena que mostra Simonal (Fabrício Boliveira) deixa sua plateia tão hipnotizada que dá uma saidinha do palco para tomar um trago no boteco ao lado do teatro, bem ao seu estilo “pilantragem”.

Outra boa sacada foi optar por usar cenas reais de Simonal, que se fossem encenadas, perderiam sua força, pois mostram a verdadeira magnitude da fama do cantor. Ele tinha um talento para cantar proporcional a seu carisma magnético. 

A Fabrício Boliveira, que se sai muito bem no papel, resta mostrar o lado mais “humano” do personagem. Um artista que tinha total noção de seus poderes de sedução e por conta disso acabava soando arrogante. Uma atitude que incomodava muita gente, principalmente por Simonal ser negro e casado com uma mulher branca, Tereza Pugliesi (vivida no filme por Isis Valverde).

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Isis Valverde é a esposa de Wilson Simonal, Tereza Pugliesi.

No filme, a questão racial é o maior dos fatores que culminaram no absoluto esquecimento do artista por parte do público, mas não o único. E isso é um grande acerto. É verdade que Simonal cometeu muitos erros, mas o perdão foi totalmente negado a ele, um negro que ascendeu socialmente e não tinha vergonha disso. Para uma sociedade racista como a brasileira, uma figura como a de Simonal não merecia uma segunda chance. 

Infelizmente, o cantor, que morreu em 2000 doente e mendigando por qualquer chance para cantar, não pode ver que essa segunda - ou mesmo uma terceira, quarta ou quinta - chance é possível. E o filme de Leonardo Domingues é uma delas.