ENTRETENIMENTO
23/09/2020 05:00 -03

Documentário mostra ascensão, queda e redenção de Sidney Magal

Filme sobre o "cigano de araque", símbolo dos anos 70, estreia em Gramado com transmissão no Canal Brasil nesta quarta (23), às 20h30.

Em 1977, quem imaginaria que aquele Elvis latino de 1,90 metro de pura sensualidade cantando com uma voz rouca e poderosa: “se te agarro com outro, te mato, te mando algumas flores e depois escapo” era um verdadeiro filhinho da mamãe? “Sou filho único de uma mãe apaixonada, que cantava maravilhosamente bem e que transferiu o sonho de ser cantora para mim. Eu fazia tudo o que a mamãe e o papai queriam”, conta Sidney Magal 43 anos depois do lançamento do hit de seu primeiro disco.

Essa e muitas outras curiosidades vão surpreender muitas pessoas que acham que conhecem o homem que foi um dos grandes fenômenos do pop nacional. Essas histórias estão reunidas no documentário Me Chama Que eu Vou, filme que faz parte da mostra competitiva da 48ª edição do Festival de Gramado e que será exibido no Canal Brasil nesta quarta (23), às 20h30.

“Me divertia muito toda vez que saia para tomar uma cerveja com o Magal e ele contava suas histórias. Eu sabia o quão saborosas elas eram, só não sabia se seria capaz de transportar esse sentimento para a tela. Quero passar para o público a sensação de se estar sentado com ele debaixo de um cajueiro enquanto ele dividia essa vivência”, explica a diretora Joana Mariani.

Joana conheceu Sidney Magalhães, ou melhor, seu alter-ego artístico Sidney Magal, no começo da década de 2000, nas filmagens do clipe da música Tenho. Um período de renascimento do artista, que, depois do auge na metade final dos anos 1970 até 1981, experimentou um nível de fama e sucesso absurdo, mas que foi caindo no esquecimento nos anos seguintes, muito por conta do grande preconceito que sofria por ser considerado “brega”, “popularesco” e o pior de tudo, uma invenção do produtor musical argentino Roberto Livi. 

Enquanto milhões de fãs (em sua grande maioria mulheres) esperneavam e faziam juras de amor loucas em suas apaixonadas performances, Magal era bombardeado pela imprensa especializada e até por colegas do meio musical. Rita Lee chegou até a chamá-lo de “cigano de araque, fabricado” na letra da música Arrombou A festa II, de 1979.

“Juro que não fico chateado com nada e com ninguém. Não sei se foi mais ou menos na mesma época, mas na revista do Jornal do Brasil também me comparou ao John Travolta me ridicularizando. Nunca liguei para isso. Mesmo que estivessem falando mal de mim, eu estava na capa do Jornal do Brasil. Eu vibrei por estar numa capa com o John Travolta”, diz sempre diplomático Magal em entrevista exclusiva ao HuffPost.

Para quem é mais jovem e pode não entender o nível de achincalhamento que Magal foi alvo por parte dessa “alta cultura” nacional mesmo fazendo um sucesso estrondoso nas rádios, se começasse sua carreira hoje, ele bem poderia ser uma estrela do funk, gênero desprezado pelo elitismo da sociedade brasileira. 

“Se eu estivesse nascendo artisticamente hoje, talvez estivesse até ligado ao funk. Adoro a batida do funk. Sou contra muitas letras do funk que levam a lugares que eu não gosto, mas há várias que não são assim. Acho que seria bem possível eu entrando no funk se estivesse começando agora. Tudo que atinge o público de cara, eu gosto. Eu adoro ver o povo pular, gritar, dançar. Quero fazer as pessoas felizes. Sempre fiz tudo sem pudor. Nunca tive a preocupação de que aquilo pudesse agredir alguém porque eu sempre fui muito respeitoso com as pessoas.”

Reprodução/Montagem
Cigano de araque? Produto de marketing? Magal nunca se importou com rótulos e surfou na onda do sucesso com a encarnação do amante latino.

É verdade que de cigano esse típico carioca da zona sul nascido em 1950 não tinha nada. A origem romani foi invenção de ninguém menos que Paulo Coelho. Hoje conhecido como um dos escritores mais lidos do mundo, Coelho foi autor de alguns dos primeiros sucessos de Magal. Mas ele nunca escondeu que cigano era seu alter-ego dos palcos, não Sidney Magalhães, filho único de um gráfico e uma dona de casa que não conseguiu emplacar como cantora, mesmo após uma breve carreira na Rádio Nacional.

“O Paulo Coelho fez várias letras para músicas de discos meus, escreveu o roteiro do meu filme, Amante Latino, e trabalhava com vários outros artistas que não eram rotulados de ‘brega’. Esse negócio de ‘cigano de araque’ sempre foi uma brincadeira para mim. Em uma entrevista perguntado sobre o que achava de mim, o Caetano Veloso disse: ‘não me diz nada’. Alguns anos depois me perguntaram o que eu achava do Caetano e eu respondi: ‘ao contrário do que ele falou a meu respeito, ele me diz tudo. Eu sou apaixonado pelo trabalho do Caetano’. A vida é isso, levar com bom humor e aceitar a opinião das pessoas, sendo elas brincadeiras ou não. Esse tipo de coisa poderia ter derrubado a minha carreira, mas, na verdade, me ajudou”, acrescentou.

Das churrascarias à Galinha Pintadinha 

Reprodução
Magal no clipe de seu maior sucesso, "Sandra Rosa Madalena".

Repleto de imagens de arquivos de televisão e do próprio Magal, Me Chama Que eu Vou explora muito essa dualidade entre os “Sidneys”. O amante latino passional dos palcos e o cara família que não conseguia dormir com a luz do dia. Um artista que viveu intensamente os loucos anos 1970 e mesmo assim conseguiu conciliar uma vida particular das mais pacatas.

“Eu sempre fui chamado pelos meus músicos como o careta mais doidão que eles conheciam. Apesar de eu ter vivido intensamente os anos 1960 e 70, sempre fui muito comportadinho. Trabalhei na noite muitos anos, com 17, 18 anos e eu era praticamente o único que não bebia, não fumava, e não fumava mesmo, nem outras coisas, eu sempre fui muito medroso, confesso. Sempre fui muito expansivo, divertido e alegre. Nunca precisei de nada para me estimular”, entrega Magal.

“Eu tinha problema para dormir com a luz do dia. Não consigo dormir de dia. Eu nunca varava a madrugada com o pessoal no Beco das Garrafas. Voltava pra casa para poder dormir. Eu parecia muito mais louco do que eu realmente era. Nunca fui doidão, sempre fui um cara família. Eu amo muito o dia, mas como artista tinha de viver a noite. Consegui um equilíbrio legal entre essas duas vidas.”

Desde seus primeiros passos, passando por uma exótica - e libertadora - excursão pela Europa com um grupo “folclórico” de dançarinos, sua temporada por churrascarias em que era anunciado “não percam, picanha, maminha, alcatra e Sidney Magal”, o auge como amante latino nas muitas aparições no programa do Chacrinha, em que fãs literalmente tinham orgasmos só de encostar nele, até o renascimento com a lambada e a consolidação como ídolo cult já nos anos 2000, o documentário é uma verdadeira aula de história dos rincões do pop brasileiro. 

“Tivemos amplo acesso ao Acervo Globo, apoio de outras emissoras que nos cederam imagens que encontramos com pesquisadores, e, também, tivemos duas profissionais na casa do Magal por um mês digitalizando mais de 10 mil documentos históricos de sua carreira. A digitalização deste material foi não somente um presente para o filme, como para o Magal, que agora tem tudo organizado, datado e armazenado”, conta Joana.   

E mesmo hoje, aos 70 anos, Magal ainda vê seu legado influenciar gerações bem distantes da sua. Ou você imaginaria um dia ver a Galinha Pintadinha cantando Meu Sangue Ferve Por você?


“Quando eu subo no palco, mesmo hoje, eu entro com a mesma energia que tinha nos anos 70. Quando eu subo no palco, eu boto pra quebrar, nem que seja a última vez que eu subo em um. Sempre vou sentir falta, não do glamour, mas da energia maravilhosa que tem o palco e do carinho que você recebe. Agora até a Galinha Pintadinha está cantando Meu Sangue Ferve por Você! Isso não é para qualquer um [risos]. Eu já encontrei a felicidade, sendo no palco ou fora dele. Só não espalho muito que já estou realizado porque aí ninguém me contrata mais para show nenhum [risos]”, conclui.

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