OPINIÃO
23/07/2019 18:18 -03 | Atualizado 23/07/2019 18:18 -03

Sandy e Junior: Uma história de amor que atravessa gerações

Como a energia da minha mãe no show em Brasília surpreendeu todos à nossa volta — inclusive eu mesma.

Montagem/Arquivo Pessoal/Instagram
A mãe da jornalista Débora Álvares vibrou com show de Sandy & Junior.

“A senhora também gosta?”, olhavam para ela, sorridentes, inúmeros fãs de Sandy e Junior muito mais jovens, a maioria da minha idade, na casa dos 30, talvez um pouco mais novos ou mais velhos. Estavam espantados por ver uma senhora de 65 anos subindo e descendo escadas do Estádio Nacional Mané Garrincha, em Brasília, em busca do melhor lugar pra ver os dois irmãos mais badalados do País na noite do último sábado (20).

“Claro! Sei cantar todas as músicas”, ela respondia para todos, simpática e orgulhosa de estar ali.

Marildes Esmeralda Álvares não deixou que a artrose, as dores nos pés nem os bicos de papagaio nas costas a impedissem de curtir o show de Sandy e Junior.

(Aliás, a primeira medida ao voltar para casa, por volta de 1h da madrugada de domingo, foi colocá-los de molho em água quente, junto com um relaxante muscular. “Quem nunca?!”, justificou.)

Sentou-se por alguns momentos nas incríveis duas horas e meia de show, mas não ficou nos bancos das cadeiras inferiores Turu-Turu, bem na primeira fileira, na lateral esquerda do palco. “Que lugar bom a gente arrumou, filha!”, repetia sorrindo — por mais de quatro músicas. Aliás, não passou uma música inteira sentada.

Dançou! Pulou! Cantou! Cantou muito! E tirou fotos. Muitas. “Mas filha, me manda suas fotos. As minhas ficaram péssimas. Não sei fazer isso direito.”

Ao descer do Uber, na chegada, ela foi a primeira a dizer: “Quero uma faixa!”. E logo amarrou na testa letras brilhantes escritas Sandy e Junior. Pagou R$ 10. Mais na frente o adereço estava a R$ 8, e reclamou, claro — aos 65, aprendeu a economizar sempre.

Quando eu era criança, ela comprava para mim todas as revistas em que Sandy e Junior apareciam. Me ajudava a rasgar páginas e as esconder quando encontrávamos uma foto da dupla, por exemplo, numa revista em um consultório médico.

Foi ela quem comprou todos os CDs deles — guardados como troféus — e os cinco fichários em que tenho guardadas todas essas imagens cuidadosamente acumuladas. Anos de uma paixão inexplicável, que ela nunca minimizou, e não deixou que ninguém o fizesse — nem mesmo meu irmão 13 anos mais velho...

Com o mesmo cuidado com que recortava e colava comigo cada foto da dupla para ser guardada — a dinâmica era recortar, colar na folha branca ou colorida (e se colorida, revezar as cores - sou virginiana), esperar secar, e então colocar no plástico, para só então encaixar no fichário —, dona Marildes teve o cuidado de escolher a roupa certa para ir ao show. “Vai estar frio, tenho que aguentar ficar muito tempo em pé.” E assim me ajudava na missão de checar e rechecar se os convites estavam impressos, confirmar e reconfirmar se estava tudo combinado direitinho com as meninas, as nossas companheiras daquela noite especial.

E bota especial! Milhares de efeitos, os 765 triângulos no palco, os vídeos caseiros com os pequenos cantando, os vídeos gravados para a turnê, um repertório escolhido a dedo com as músicas mais famosas. O estádio lotado e um coro de arrepiar. “Uma parede de gente”, como disse a esposa do Junior, a modelo Monica Benin, em um story em seu Instagram na noite de sábado.

De tão incrível que foi aquele dia, até o pequeno Otto, filho do casal, quis participar. Tocou bateria na passagem de som no fim da tarde. Ficou no palco depois com uma mini-guitarra na mão enquanto o pai tocava e a tia cantava. O ensaio atrasou, o que refletiu na noite. Marcado para 20h30, o show começou uma hora depois. Mas não desanimou ninguém.

A prova de amor pela dupla estava em todo canto. Nas vozes. Nos choros. Nos gritos. Nos aplausos. Do nosso lado. Uma galera de Goiânia tinha chegado para o show e voltaria para a cidade vizinha a Brasília ainda naquela noite — uma viagem de quase 400 km.

“Aprendi a gostar com ela”, explicou Marildes no dia seguinte em uma festa de família, apontando para mim. “Foi melhor que Roberto Carlos”, completou para espanto de todos, falando do ídolo da adolescência.

E ainda continuou: “Que coisa mais linda! Nunca vi nada tão maravilhoso! Imagina se a gente ganha a promoção e vai pro último show! Eu quero mais!”.

Minha mãe me surpreendeu mais que a mim mesma. Porque eu, como a maioria de quem ali estava... Chorar, cantar, pular... De mim eu já esperava tudo isso. Dela, não.

Foi mesmo uma noite muito especial.

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