OPINIÃO
22/06/2019 02:00 -03 | Atualizado 22/06/2019 02:00 -03

Sexo verbal (não?) faz meu estilo

Das cartas picantes de D. Pedro a Marquesa de Santos ao sexting das redes sociais, um passeio pela intimidade ao longo do tempo.

A troca de correspondências maliciosas é uma constante entre apaixonados ao longo dos séculos. Entre papéis e penas ou telas e toques, a distância nunca foi um problema para a intimidade dos casais, por mais que suas carências tenham aumentado.

Se no passado, palavras e gravuras eram suficientes para atender as necessidades carnais, hoje em dia fotos e vídeos tentam dar conta do recado. No celular ou no papel, não importa – o sexo sempre atiçou nosso imaginário (êba!).

Aqui mesmo, em terras tupiniquins, um famoso casal da realeza já usava das cartas eróticas para incrementar o relacionamento: nada menos de que Dom Pedro I e sua amante Marquesa de Santos. Dentro dos envelopes valia quase tudo, de desenhos das partes íntimas (apelidadas afetuosamente por ele de “máquina triforme” e “tua coisa”) até pelos e ejaculações. Sim, esses detalhes faziam toda a diferença na preparação do Imperador para o encontro noturno, quando segundo ele “conversaremos, e nos apalparemos por dentro e por fora”.

Montagem/Reprodução
Marquesa de Santos, Dom Pedro e Maria Leopoldina: triângulo amoroso famoso da História brasileira.

O fato é que Pedro de Alcântara e Domitila de Castro sempre foram criticados por formarem um par muito sexual para a época, mas que com o passar dos séculos ganhou certa simpatia dos brasileiros. Segundo o historiador Paulo Rezzutti, autor do livro Titília e Demonhão, a publicação, em 1896, de parte da correspondência tinha fins políticos, principalmente o de prejudicar a imagem da monarquia na opinião pública. Porém, Rezzutti afirma que após a publicação da sua obra, que leva como título o codinome usado pelo casal, muitos leitores foram cativados: “Teve gente que se encantou como D. Pedro tratava a amante e as menções que ele fazia aos filhos. A figura dele acabou sendo humanizada.”

A intimidade e a parceria que transparecem no conteúdo desses textos é outro ponto de atenção. Fogo foguinho (outro apelido do Imperador) chegou a enviar um colar de ametistas com sua própria figura talhada para a amante.

Porém, nem sempre tão romântico, descrevia uma possível doença que atingia seu pênis, sem depois se esquecer de tranquilizar Titília: “não tem nada que nos impossibilite de fazermos amor, não importa que o tempo e cautela há de pôr boa e serei”.

Montagem/Reprodução
Cartas destinadas a Titília, assinadas pelo Imperador.

Mas o tempo passou, o Império foi abolido e as cartas viraram práticas obsoletas, abrindo espaço para um novo jeito de trocar mensagens que tem tudo a ver com o estilo de vida moderno: o sexting. O termo estrangeiro trata da troca de conteúdo erótico que ocorre em aplicativos virtuais, não só por escrito, mas também por fotos e vídeos.

A prática é bem mais frequente entre os jovens e reflete muito o dia a dia desse grupo: é rápido, explícito e fica dentro do celular. Entre as plataformas mais usadas estão o Instagram, na opção direct, e o Snapchat, com a função de fotos temporárias que somem após um tempo determinado, o já tradicional WhatsApp e o Signal, que além da expiração das imagens bloqueia a função de printscreen.

Além de estar online, a única coisa necessária para se iniciar no sexting é de um parceiro ou parceira que se jogue nessa jornada.

Claro, há riscos envolvidos (que você lê a seguir), mas também algumas notícias boas: segundo um estudo de 2015 da Universidade de Drexel, uma grande troca de mensagens eróticas está relacionada com uma satisfação sexual maior, melhorando o desempenho do casal na cama.

Assim, o clima picante não fica restrito às telas dos smartphones. A estudante de Ciências Sociais Carolina Dutra, 21, conta que o envolvimento virtual tem impacto real nos relacionamentos. “Eu me sentia muito mais próxima dos meus companheiros, criamos um nível de intimidade que talvez não fosse alcançado tão rapidamente sem o uso da tecnologia”, afirma.

As conversas íntimas online não têm regras claras; o que impera é a vontade e o desejo de cada um. A frequência tampouco apresenta um padrão, e isso se confirma no tipo de relação nutrida pelos envolvidos.

Desde namorados até ficantes e amigos, é tudo uma questão de atração, os rótulos ficam de lado. Contudo, o interesse precisa partir de ambos os lados. “É importante ser respeitoso sempre e, se houver alguma dúvida, não tem problema nenhum em perguntar para a pessoa se ela está a fim”, destaca Carolina.

Apesar de tantos pontos positivos em relação a aproximar cada vez mais as pessoas, o sexting, por ser uma prática realizada na internet, precisa ser acompanhado de certas precauções. A sensação de liberdade e o largo alcance promovido pelo universo digital facilitam o compartilhamento indevido de imagens íntimas, o que é legalmente condenável.

A violação da intimidade da mulher é considerada crime de importunação sexual, com pena prevista de um a cinco anos de cadeia. Esse tempo pode ser ainda maior dependendo dos motivos e da forma como as fotos foram adquiridas (Lei 11.340/06).

A existência da lei, no entanto, não impede que centenas de casos dessa espécie aconteçam. Rafaela Carvalho*, 22, conta que um modo de diminuir o receio em relação a esse crime é ter essas conversas com pessoas que você conhece e em que pode confiar. “Eu não tenho tanto medo, pois conheço as pessoas com quem eu converso”, diz Rafaela. Ao menos em tese, isso reduz os riscos de exposição.

Como comprovado pelas cartas do Imperador, a busca por prazer por meio de troca de mensagens não é uma novidade; apenas foi reconfigurada. Mesmo depois de séculos, o sexo continua sendo um tabu, algo que deve ser mantido entre quatro paredes e de preferência protegido por uma porta trancada.

A popularização do sexting, por conta das redes sociais, não foi suficiente para mudar esse cenário preenchido por pré-concepções. Além disso, no caso das mulheres o julgamento social persiste. Carolina pensa que o gênero da pessoa que realiza o sexting ajuda a definir como ela será vista pelos outros. “Mulheres empoderadas que têm autossuficiência e liberdade em relação a sua sexualidade são julgadas negativamente, constantemente, por se conhecerem e priorizarem seu prazer, o que são atitudes entendidas como masculinas.”

Separados por quase dois séculos, as cartas e o sexting com certeza apresentam diferenças entre si. Na linguagem, o “mecê” virou “vc” e a famosa “tua coisa” de D. Pedro ganhou inúmeros apelidos novos. O tom formal e apaixonado foi substituído pelas frases curtas e diretas, os termos usados são bastante explícitos, de forma que o amor é cada vez mais sexualizado pelas palavras: “Mesmo no dia de hoje quem nunca mandou nudes ou mensagens eróticas por WhatsApp ou mesmo falando com o namorado no telefone?” questiona Rezzutti . Os textos complexos e a linguagem rebuscada perdem sentido no digital, a mensagem não precisa de adornos, os únicos enfeites são os emojis.

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Desde rostos com expressões diferentes até frutas e legumes ressignificados, os emojis fazem parte da linguagem do sexting.

A simplicidade na escrita está ligada à velocidade da rede. Uma única carta demorava dias para ser recebida, agora em poucos minutos você pode ter uma conversa completa, com direito a respostas instantâneas e interações em tempo real.

As correspondências reais exigiam uma espécie de planejamento, eram usadas não apenas para o prazer imediato. “Ontem mesmo fiz amor de matrimônio para que hoje, se mecê estiver melhor e com disposição, fazer o nosso amor por devoção”, escreve o Imperador, preparando sua amante para o que irá acontecer.

Divulgação
Livro de Paulo Rezzetti que reúne toda a correspondência do casal.

As fotos, vídeos e áudios amplificam esse sentimento de instantaneidade na web. Com alguns toques é possível transmitir uma imagem muito próxima da realidade. Não sobra mais tanto espaço para imaginação, como se a pessoa estivesse diante de você.

Entretanto, as cartas também merecem seus créditos nesse aspecto, afinal, além dos desenhos, materiais concretos eram enviados. Presentes, jóias, roupas e até fluidos corporais eram comuns.

O papel e a pena também ganham pontos na questão da privacidade. O vazamento de fotos, como já mencionado, acontece com certa frequência na internet, já o conteúdo trocado entre os apaixonados do século 19 só foi divulgado mais de 60 anos depois do fim do relacionamento.

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Fotos e vídeos cumprem a função antes desempenhada pelos elaborados desenhos feito pelo Imperador. E não, na imagem original, aquilo não era apenas uma banana.

Entre vantagens e desvantagens, Paulo Rezzutti explica que as mensagens eróticas são ancestrais; o que muda é apenas a forma como ela é transmitida. Os fins são os mesmos: o prazer próprio e do outro, independentemente da distância física entre os envolvidos, e o uso da palavra para satisfazer o desejo do corpo.

Como D. Pedro declara em um de seus recados: “Meu bem, forte gosto foi o de ontem à noite que nós tivemos. Ainda me parece que estou na obra. Que prazer!! Que consolação!!! Que alegria foi a nossa!!!!”. O sentimento de felicidade e contentamento é transmitido mesmo de tão longe.

*Nome fictício

***As imagens foram alteradas para preservar a identidade dos envolvidos

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