COMPORTAMENTO
03/05/2019 07:11 -03

10 mitos sobre sexo em que muitos adultos ainda acreditam

Especialistas em sexo compartilham alguma ideias bem equivocadas, mas que ainda são comuns, sobre orgasmo, masturbação, sexo oral e pornografia.

ILLUSTRATION BY ISABELLA CARAPELLA FOR HUFFPOST
Você não deve ter tido estas aulas de educação sexual.

A culpa pode ser da educação sexual que não temos, das crenças culturais ou religiosas não superadas, da pornografia ou ainda da pura e simples ignorância.

Seja qual for a razão, o fato é que muitos adultos ainda são tremendamente desinformados quando falamos sobre sexo.

Convidamos alguns especialistas – educadores sexuais, terapeutas sexuais e sexólogos – a esclarecer algumas das ideias equivocadas em que muitos adultos ainda acreditam, mas que simplesmente não têm fundamento.

MITO: Masturbar-se quando você está em um relacionamento sério é sinal de que você não se sente sexualmente estimulado por seu parceiro.  

VERDADE: Não importa se você está solteiro, em um relacionamento monogâmico ou em um relacionamento amoroso de 3 pessoas: “A masturbação é sadia, é normal e é algo que faz parte da condição humana”, disse a terapeuta sexual Janet Brito ao HuffPost. 

Se você flagra seu parceiro se masturbando no chuveiro de vez em quando isso não significa que ele ou ela esteja insatisfeito com a vida sexual de vocês – logo, não leve a mal.

A sexóloga clínica Gigi Engle comentou: “Muitas pessoas pensam que se seu companheiro se masturba, deve ser porque não acha a pessoa sexualmente atraente. Isso pode gerar muita insegurança no relacionamento e levar a pessoa a duvidar de seu próprio poder de atração. Mas na realidade a masturbação é uma forma de expressão totalmente normal, tanto de quem está solteiro quanto de quem está em um relacionamento.”

Na realidade, esses momentos íntimos podem melhorar, e não prejudicar, a relação que você compartilha com seu parceiro.

“A masturbação acalma e relaxa a pessoa. Além disso, lhe permite conhecer melhor seu próprio corpo – especificamente, saber o que te excita”, disse Brito. “Saber como você gosta de ser tocada lhe deixa mais à vontade na hora do sexo e pode até melhorar seu relacionamento sexual com seu companheiro.”

Quando a masturbação se torna compulsiva ou substitui o sexo com o parceiro, então sim torna-se uma preocupação que merece ser discutida pelo casal e/ou com um profissional de saúde mental.

MITO: Vagina e vulva são a mesma coisa. 

VERDADE: Muitas pessoas ainda utilizam coloquialmente o termo “vagina” para falar de toda a área genital feminina (ou tradicionalmente feminina), mas isso não é totalmente exato.

A professora universitária e educadora sexual Ericka Hart explicou: “A genitália externa feminina é chamada vulva, e a parte que não se vê é chamada de canal vaginal ou vagina.”

Portanto, a abertura da vagina é na realidade uma parte da vulva. A vagina conecta as partes externas da anatomia (a vulva) com as partes internas, como o útero (olhe a figura se você estiver confuso). Alguns especialistas dizem que esse uso equivocado é bem comum do termo “vagina” e tem origem patriarcal.

“Há uma análise feminista do por que isso tem importância. Segundo ela, ao chamar toda a anatomia reprodutiva feminina de ‘vagina’, estamos descrevendo nossos órgãos sexuais com o nome da parte deles que dá mais prazer aos homens heterossexuais”, explicou ao HuffPost anteriormente Laurie Mintz, autora do livro Becoming Cliterate: Why Orgasm Equality Matters—And How to Get It

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Um diagrama da anatomia reprodutiva feminina, incluindo o canal vaginal (conhecido como a vagina) e a vulva, que é a genitália externa.

MITO: O clitóris não passa de uma protuberância minúscula.

VERDADE: Ele é muito mais que isso. Aquela protuberância externa (“feijãozinho” ou “ervilha”), cujo nome é ‘glande do clitóris’, é apenas uma pequena parte da rede clitoridiana maior, a maior parte da qual é interna. 

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O clítoris, mostrado acima por inteiro, é mais do que apenas a “ervilha” ou a “glande do clítoris” que a maioria das pessoas conhece.

“A maioria das pessoas não sabe que o clitóris é bem maior do que aquele pontinho no alto da vulva. Na realidade, ele se estende para trás dentro dos lábios e do abdome”, disse Engle. “Pode chegar a medir 12 centímetros em algumas mulheres! Isso é aproximadamente o tamanho médio de um pênis.”

MITO: O sexo na vida real é como o que vemos na pornografia. 

VERDADE: Para muitos adolescentes, a primeira introdução ao sexo ocorre por meio da pornografia. Mesmo que eles tenham consciência de que pornografia não é realidade, aqueles corpos lisos e depilados e aqueles orgasmos femininos que ocorrem aparentemente sem qualquer esforço formam a base do que eles imaginam que seja ou deva ser o sexo com uma companheira.

Em uma pesquisa de 2016 da Universidade Middlesex, em Londres, 39% dos teens de 13 e 14 anos entrevistados disseram que queriam imitar os comportamentos que viam em conteúdos pornô.

“O sexo na vida real vai além da diversão e da realização de fantasias”, disse Brito. “Envolve comunicação, conhecer seu próprio corpo, deixar-se vulnerável. Não é perfeito e não gira em torno do homem apenas. Na vida real as pessoas são desajeitadas, param no meio e recomeçam, ficam com sede, podem até cair da cama enquanto estão transando. É menos que perfeito, diferentemente do que é mostrado na tela.”

MITO: Homens não gostam de fazer sexo oral em mulheres.

VERDADE: Não dê ouvidos a DJ Khaled. A ideia de que os homens não gostem de fazer sexo oral com mulheres simplesmente não é verdade, disse o autor e terapeuta sexual Ian King.

“Desde que publiquei She Comes First, em 2004, já conversei com milhares de homens sobre sua atitude em relação ao sexo oral e posso dizer que a maioria dos homens adora fazer”, ele revelou. “Sim, alguns homens não sabem o básico sobre o clitóris e sentem-se inseguros quanto à sua habilidade nessa área, mas a maioria dos homens acha fazer sexo oral na mulher uma experiência profundamente íntima e excitante. Muitos chegam a dizer que se tivessem que escolher (e quem quer fazer essa escolha?), prefeririam fazer sexo oral na mulher do que receber o mesmo mimo dela.”

Uma pesquisa conduzida em 2016 com 900 universitários heterossexuais canadenses parece ter confirmado essa ideia: 93% dos homens entrevistados disseram que fazer sexo oral numa mulher é um tanto ou profundamente prazeroso. Isso é ótima notícia, porque 95% das mulheres disseram que receber sexo oral é um tanto ou extremamente prazeroso. Praticamente um match!

MITO: As mulheres não se importam tanto quanto os homens em chegar ao orgasmo pelo sexo. 

VERDADE: A disparidade orgásmica entre homens e mulheres (especialmente as mulheres heterossexuais) é real. Uma pesquisa realizada em 2017 com 52 mil adultos de diversas identidades sexuais concluiu que as mulheres heterossexuais têm menos chances de chegar ao orgasmo durante a relação sexual que qualquer outro grupo de pessoas. A parcela delas que “geralmente ou sempre” chegam ao orgasmo com sexo é de 65%. A título de comparação, a cifra correspondente é de 95% para os homens heterossexuais, 89% para os homens homossexuais e 86% para as lésbicas.

Mas isso não é porque as mulheres não queiram ter orgasmo – é claro que elas querem! Há diversos fatores que podem estar contribuindo para a disparidade, entre os quais a ausência ou insuficiência de preliminares, falta de estimulação do clitóris (algo essencial para muitas mulheres chegarem ao orgasmo) ou má comunicação com o parceiro, entre outros problemas possíveis. Sem falar que vivemos numa sociedade que parece priorizar o prazer do homem, deixando o da mulher em segundo lugar.

“Muitas pessoas dizem que os homens visam o orgasmo mais que as mulheres quando têm relações sexuais e que as mulheres não têm tanta necessidade de orgasmo quanto os homens”, falou Kerner. “Não posso afirmar nada sobre ‘necessidade’ – afinal, ninguém tem necessidade absoluta de um orgasmo ―, mas a falta de orgasmo é uma das queixas mais comuns que ouço de minhas pacientes.”

“O orgasmo pode ser mais difícil para a mulher alcançar com a relação sexual, especialmente com a relação envolvendo pênis na vagina, já que esta tende a passar ao largo do clítoris. Por essa razão, muitas mulheres se acostumaram à ideia de nem sempre terem orgasmo. Mas não pense nem por um instante que elas valorizam o orgasmo menos que os homens.”

MITO: O sexo só é “bom” se termina com um orgasmo.

VERDADE: Sim, o orgasmo é uma coisa que pode ser maravilhosa e provocar euforia, mas não é nem de longe o único aspecto prazeroso de um encontro sexual. Mesmo quando o sexo não termina com um orgasmo, pode ser muito, muito bom para as duas pessoas.

“O sexo opera em muitas dimensões além da dimensão física, ou então em conjunto e em sinergia com a dimensão física”, explicou a terapeuta Liz Afton, do Coletivo de Terapia de Gênero e Sexualidade. “Quer seja respiração tântrica, controle do orgasmo com BDSM, parceiros sexuais terapêuticos profissionais ou fantasias de viés fetichista, o profundo potencial de cura espiritual e emocional do sexo e da sexualidade é algo que muitas vezes é passado por cima.”

MITO: Homens que curtem ou têm fantasias sobre sexo anal devem ser gays. 

VERDADE: As pessoas de qualquer orientação sexual (gay, hétero, bi etc.) podem curtir as sensações do sexo anal – ou de qualquer outro ato sexual, na verdade – sem que isso as force a repensar sua identidade sexual. O comportamento sexual não define nossa identidade sexual, disse Hart.

“A origem desse mito vem da ideia de que comportamento é igual a identidade”, ela explicou. “É importante que as pessoas entendam que comportamento e identidade não definem um ao outro. O modo como você se identifica (ou seja, sua identidade sexual) é pessoal e representa a sua verdade, e o que seu corpo sente como agradável, também. Já conheci pessoas que pensavam que não fossem ‘lésbicas de verdade’ porque curtiam sexo com penetração.”

MITO: A pornografia causa disfunção erétil em homens jovens.

VERDADE: “Existe muita histeria antipornografia em nossa sociedade”, comentou Kerner. “É verdade que hoje mais homens se masturbam assistindo a materiais pornô do que no passado. Mas não há nenhum estudo legítimo e fundamentado que comprove que a pornografia tenha efeitos neuroquímicos nocivos que levem à disfunção erétil.”

A disfunção erétil pode ser de origem fisiológica ou psicológica. No caso dos homens mais jovens, a origem frequentemente é psicológica.

“Quando isso acontece, muitos homens se perguntam se isso tem algo a ver com o fato de assistirem a muita pornografia. Essa ansiedade é alimentada pela mídia que enxerga a pornografia sob ótica negativa e divulga a ideia do vício em pornografia”, ele disse.

Mas o que está presente em muitos casos, disse ele, é ansiedade.

“Para muitos homens, a ansiedade é a inimiga das ereções. E não faltam coisas que podem provocar ansiedade de desempenho em um homem: falta de experiência, ansiedade por estar transando com alguém pela primeira vez, falta de autoestima genital, a memória traumática de um incidente anterior de disfunção erétil, a pressão para desempenhar bem e, talvez, o fato de o homem se comparar com atores de filmes pornô”, ele disse. “Mas é a pornografia que está causando a disfunção erétil? Não. A pornografia está atrapalhando a química cerebral? Não. É a ansiedade que faz isso. Eliminar a pornografia não elimina a ansiedade.”

MITO: Se você curte kink (fantasias ou práticas sexuais pouco comuns), você é anormal ou sexualmente pervertido.

VERDADE: A julgar pela megapopularidade de 50 Tons de Cinza (embora ela seja problemática sob alguns aspectos), o kink deixou de ser uma comunidade de nicho relegada aos cantos mais obscuros da internet. Palmadas, role-playing e bondage são tipos comuns de kink, que é definido como uma atividade ou um desejo sexual que foge dos gostos convencionais.

“O que é kinky está ficando cada vez mais mainstream. Isso reduz a vergonha e o isolamento sentidos no passado pelas pessoas que curtem kink”, destacou o terapeuta Jesse Kahn, diretor do Coletivo de Terapia de Gênero e Sexualidade. “Não apenas há mais pessoas kinky como as pessoas estão começando a perceber que sua vida sexual já incorpora elementos kinky.”

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.