MULHERES
10/02/2020 01:00 -03

'Eu estava com o uniforme da escola': A primeira experiência das mulheres com assédio sexual

A série "Sex Education", da Netflix, trata desse assunto. As anedotas podem ser fictícias, mas refletem as experiências reais vividas por mulheres e meninas.

Netflix

“Antes eu sempre me sentia segura. Agora não me sinto mais.”

Uma das grandes razões do sucesso da série Sex Education, da Netflix, é que as pessoas podem se identificar com o que acontecem com os personagens. Cada carícia desajeitada, cada cena de angústia adolescente provoca um suspiro coletivo: “Isso mesmo, me lembro de ter passado por algo assim”. Mas o que realmente encontra eco entre as pessoas é a responsabilidade com a qual a segunda temporada da série aborda a questão do assédio sexual. 

Na detenção ― e atenção aqui para o início de spoilers caso você não tenha visto a série ainda ― Aimee conta às outras garotas como se sentiu depois que um homem se ejaculou em seu jeans enquanto ela estava no ônibus, no caminho para a escola. Não demora para que cada uma delas comece a compartilhar experiências – desde cantadas e assobios, apalpadas indesejadas, até homens que exibiram os genitais para elas em público. De forma impactante, a violência é a única coisa em comum entre elas.

As anedotas podem ser fictícias, mas refletem situações muito reais vividas por meninas e mulheres no Reino Unido ― e quiça no mundo todo. Dois terços das mulheres entre 14 e 21 anos já foram alvos de assédio ou atenção sexual indesejada em um espaço público, segundo revelou uma nova pesquisa da Plan International, e 35% delas disseram que isso aconteceu pela primeira vez quando estavam de uniforme escolar.

Abby, 16 anos, de Norfolk, disse à entidade que, como Aimee de Sex Education, ela já foi assediada no ônibus. “Tem aquela pessoa que fica sentada no fundo do ônibus, te olhando sem parar. Às vezes a pessoa vem para a frente, senta do seu lado e começa a conversar com você”, ela contou. “Eu sempre procuro me sentar o mais perto possível do motorista, para que ele me tenha na linha de visão dele e se acontecer alguma coisa eu possa pedir ajuda.”

As mulheres jovens entrevistadas disseram que não se sentem seguras andando sozinhas pelos bairros e cidades onde vivem. Elas precisam adaptar seus comportamentos constantemente para evitar assédios verbais e físicos. Infelizmente, o que acontece com elas não é novo ou recorrente.

O HuffPost Reino Unido, país onde a série foi filmada, pediu para mulheres contarem como aconteceu sua primeira experiência com o assédio sexual. 

“Eu era criança. Achei horrível ser sexualizada daquele modo.”Eleanor, agora com 23 anos

“Eu tinha 14 ou 15 anos, estava andando no centro da minha cidade usando jeans e um moletom folgado. Três homens de 20 e tantos anos começaram a me seguir, perguntando se eu estava afim do amigo deles e me chamando de ‘sexy’. Entrei correndo numa loja para escapar deles”, contou Eleanor Langford, de Londres, hoje com 23 anos.

“Fiquei super confusa e aflita. Eu era criança, achei horrível ser sexualizada daquele modo. Aqueles homens foram predatórios e intimidadores. Aquilo me levou a ter mais medo da atenção masculina durante o resto da adolescência.”

Num primeiro momento não entendi direito o que eles queriam dizer.Abbi, agora com 25 anos

A londrina Abbi Connor, que hoje tem 25 anos, se recorda de ter ficado confusa quando foi assediada sexualmente pela primeira vez. Ela estava na 8ª série, então devia ter por volta de 13 anos.

“Eu estava andando para o ponto de ônibus, de uniforme escolar, e um homem que estava num carro com um amigo, esperando num farol vermelho, me perguntou quanto eu cobrava.

“Me lembro de ter ficado confusa, porque num primeiro momento não entendi o que eles queriam dizer. Mas pelo jeito que estavam me olhando e dando risada, entendi que era um comentário sobre minha aparência e que o objetivo era me deixar incomodada.”

Aquela foi a primeira vez que percebi que meu corpo não necessariamente me pertencia.Rachel, agora com 28 anos

Rachel Egan, 28 anos, de Londres, tinha apenas 11 anos quando foi assediada pela primeira vez: um garoto na aula de ciências beliscou seu bumbum.

“Perguntei por que ele tinha feito aquilo, e ele deu de ombros e respondeu ‘porque gosto’”, ela contou. “Foi a primeira vez que percebi que meu corpo não necessariamente me pertencia e que homens iam tentar tocar nele sem minha permissão.”

Outra mulher, que preferiu ficar anônima, tem 24 anos e vive em Northamptonshire, contou que desde os 14 anos de idade é chamada de “lábios de fazer boquete”, tanto por seus colegas homens quanto por homens na rua. Ela disse que os comentários a faziam sentir vergonha de seus lábios carnudos, algo que ela não tem como controlar, mas que hoje ela sente principalmente raiva.

“Acho repulsivo que aquelas pessoas não viam problema em colocar esses pensamentos na minha cabeça e me fazer hesitar antes de usar um gloss labial, por exemplo”, ela disse.

(“Eu era adolescente e usava uniforme escolar. Quando voltava para casa depois das aulas, tinha que passar em frente a um pub. Acontecia todo santo dia.”)

(“Ser seguida por um sujeito num carro quando eu estava de uniforme escolar. Eu tinha 10 anos na época.”) 

(“Sentada no metrô uma noite (eu tinha uns 17 anos), um sujeito começou a conversar comigo. Olhei para baixo e vi que ele estava com TUDO para fora. Tive que continuar conversando, fazendo de conta que eu não tinha percebido nada Depois houve outro cara que queria andar comigo até meu trabalho todos os dias.”)

(“Meu vizinho (eu tinha 12 anos, ele tinha 20) esperava até eu voltar para casa, aí batia na janela e ficava de perfil para mim, se masturbando e olhando para mim enquanto eu atravessava o jardim e entrava em casa.”)

(“Voltando da escola para casa, de uniforme, passei por um cara encostado num muro que ficou me olhando fixamente quando passei. Ele começou a me seguir, aí me ultrapassou, parou e ficou esperando eu chegar até onde ele estava, só parado contra o muro, olhando para mim sem falar nada. Quando cheguei onde ele estava ele começou a andar do meu lado.”)

(“Me perguntando meu nome, etc. Ele me disse que tinha 30 anos. Eu tinha 15. Chegamos até a esquina da escola onde fiz o primário. Virei para ele e falei “não quero falar com você. Vá embora.” Me lembro de ter sentido raiva. Ele ficou tão espantado que só ficou parado ali enquanto eu me afastei.”)

(“Em Paris, numa viagem da escola, eu devia ter 14 ou 15 anos. O cara ficou fazendo um assobio estranho para chamar minha atenção, é uma técnica que os homens britânicos não costumam usar mas que já vi muitas vezes na França!”) 

Um comentário feito por muitas mulheres que entraram em contato conosco foi “hoje, olhando em retrospectiva, eu queria ter resistido ou feito um escândalo”. Mas, como sabemos muitas de nós que já fomos assediadas, na hora que isso acontece você muitas vezes fica em choque, paralisada. E não deveria ser responsabilidade das mulheres repreender quem as assedia – são os perpetradores que deveriam parar de assediar.

“Agora que o ano de 2020 se inicia, ficamos entristecidas, mas não surpresas ao constatar que as meninas ainda se sentem desempoderadas e sem conseguir desfrutar seus direitos aqui no Reino Unido”, disse Rose Caldwell, CEO da ONG Plan International. “Dizem às meninas que elas podem realizar tudo, mas a segurança física delas é ameaçada em público, online e nas escolas.”

A Plan International Reino Unido está pedindo que o governo faça mais para acabar com o assédio nas ruas, mas enquanto não houver transformações sociais sistêmicas, as mulheres podem inspirar-se nas personagens de Sex Education e ajudar-se mutuamente a superar o assédio.

Netflix
Cena de "Sex Education" em que as personagens andam de ônibus juntas -- após uma delas sofrer um caso de assédio no transporte público.

É importante lembrar que o assédio sexual nunca é sua culpa. Se um incidente de assédio na rua tiver te impactado, lembre-se que, desde 2018, a lei de importunação sexual pune estes crimes. Para orientações, ligue 180.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost UK e traduzido do inglês.

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