ENTRETENIMENTO
04/09/2019 14:34 -03

Séries de TV chocantes e explícitas estão influenciando os teens tanto quanto pensamos?

Um gênero televisivo contemporâneo sugere que os pais deveriam se preocupar.

Se as crianças estão bem ou não ainda é uma das perguntas mais urgentes feitas por pais ansiosos. A maioria dos adolescentes de hoje provavelmente se descobre atirada em um anfiteatro que mais parece um zoológico, dentro do qual seus hábitos – sexuais, comportamentos, nutricionais – são vigiados, analisados e, o que talvez seja mais notável, documentados.

Criado por um homem de 34 anos, Euphoria (com produção executiva do canadense Drake), o drama recém-concluído da HBO – sobre adolescentes em processo de autodescoberta que fazem sexo de risco, tomam drogas de alto risco e se violam uns aos outros de maneira arriscada – não ajuda a aliviar essa ansiedade. E ela vem sendo alimentada ainda mais por um gênero televisivo em crescimento que parece praticamente cuspir na cara dos pais preocupados.

O gênero em questão é o “drama teen”, e ele pinta um retrato vívido (embora exagerado) da adolescência hoje.

13 Reasons Why, que vai retornar ainda em agosto, trata do suicídio de uma adolescente.End of the F***ing World é sobre um adolescente psicopata. Elite fala de assassinato cometido por teens. Riverdale, idem. The Society é um Senhor das Moscas, mas com o acréscimo de sexo, álcool e mais assassinato, e todo o resto é cansativo demais para entrarmos nos detalhes, mas vale arriscar o palpite de que esse gênero de entretenimento não vai desaparecer no futuro próximo.

A aversão parental a esse gênero é justificada, sob muitos aspectos. De fato, estudos passados indicaram que os adolescentes, quando entram em contato com mídias, são tremendamente impressionáveis.

“Temos observado uma relação consistente entre a exposição a conteúdos sexuais na mídia e as atitudes dos adolescentes em relação ao sexo ou ao comportamento sexual”, disse a Dra. Amy Bleakley, professora do departamento de comunicações da Universidade de Delaware.

“Quando adolescentes não têm experiências próprias nas quais se basear”, ela diz, “o que eles veem na mídia passa a ser o que eles pensam que deve acontecer, o modo como eles imaginam que as coisas sejam na realidade.”

Na realidade, os adolescentes de hoje são bastante cautelosos

Mas pesquisas que examinam a ligação entre a cultura popular e o cérebro de adolescentes têm sido inconclusivas ou, nos piores casos, fáceis de sensacionalizar, sendo usados por organizações como o conservador Parents Television Council para tentar derrubar qualquer conteúdo que possa infligir “efeitos nocivos comprovados e de longo prazo” sobre os teens, ou seja, toda e qualquer imagem de violência, sexo, sexualização e palavrões.

Parte disso pode parecer um pouco redundante, em vista de como é na realidade nosso corte mais recente de adolescentes, a chamada geração Z.  Como escreveu um jornalista da Newsweek em junho, se o que se diz mais frequentemente sobre os millenials é que eles se acham cheios de direitos inatos, “as palavras que mais bem descrevem a geração Z são ‘prática’ e ‘cautelosa’”. Os teens que são os temas de todos esses dramas melancólicos são, na vida real, bastante cuidadosos, tanto assim que estão sendo descritos como “a geração cautelosa”. 

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A geração Z está sendo descrita como a “geração cautelosa”.

A cada dois anos, 10 mil estudantes secundaristas nos Estados Unidos (não existe estudo comparável no Canadá) completam a Sondagem de Comportamentos Juvenis de Risco dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças, e os resultados indicam que, entre os 2,5 milhões de estudantes secundaristas, a maioria tem pouquíssimas chances de praticar os comportamentos que vemos mostrados nos dramas teens.

A maioria deles não bebe, não fuma, não participa de brigas, não usa drogas, não faz sexo, não engravida e não faz nada, na realidade, que possa ser descrito como “comportamento de risco”. Esses adolescentes usam capacetes e cintos de segurança – hábitos vistos como decididamente nada cool aos olhos dos filmes da era de James Dean que seus pais adoravam assistir.

“No curto prazo, estamos passando por um período de melhoras marcantes que ainda não foram amplamente reconhecidas ou destacadas”, disse ao New York Times o diretor do Centro de Pesquisas sobre Crimes contra Crianças, da Universidade de New Hampshire, David Findelhor. “É uma pena.”

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Com sua defesa ardente da adoção de controle de armas nos EUA, os ativistas teens de Parkland mudaram a visão que as pessoas têm da geração Z. 

Ainda é difícil definir até que ponto os teens são suscetíveis à influência da mídia

“Não tenho razão para pensar que a relação entre o cérebro adolescente e as mídias esteja mudando”, fala Bleakley. Ela explica que, com o crescimento das mídias sociais, os teens de hoje absorvem cada vez mais imagens. Enquanto a situação cultural pode estar mudando, a impressionalidade do cérebro adolescente não está. E não é fácil fazer suposições amplas e abrangentes.

“É claro que queremos respostas sobre o adolescente médio, queremos saber até que ponto ele é suscetível, mas é realmente difícil fazer generalizações”, diz Bleakley.

Contudo, seja qual for a idade ou situação social do adolescente, é pouco provável que qualquer teen viva em um ambiente, por mais isolado e protegido possa ser, onde não vai testemunhar ou vivenciar essas coisas.

“É importante entender que essa questão tem nuances”, destaca Bleakley, explicando que o grau em que um adolescente é ou não influenciado por um programa de TV geralmente pode ser determinado por seu ambiente social. Se o adolescente nunca fez sexo, por exemplo, e nunca conversou com seus pais sobre o assunto, ver muitos teens fazendo sexo na televisão “pode incentivá-lo a praticar atividade sexual mais cedo do que teria sido o caso de outro modo”, ela explicou.

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Bleakley diz que o grau em que um seriado pode influir sobre o comportamento de um adolescente depende em grande medida das experiências de vida do adolescente e de seu entendimento do mundo.

O canadense Albert Bandura, considerado o maior psicólogo do mundo ainda vivo, teorizou que as pessoas aprendem não apenas fazendo, mas também vendo, e que é possível adquirir novos comportamentos unicamente através da observação de outras pessoas praticando esses comportamentos.

“As pessoas têm chance maior de aprender e adotar o que veem quando os modelos que observam se assemelham a elas”, explica Bleakely. “Por isso as séries sobre teens, dependendo de como os espectadores encaram os personagens, podem ter mais influência sobre adolescentes do que outras séries.”

A “alfabetização midiática” é importante para os teens

Mas, dependendo das consequências das ações vistas na tela – ou seja, de o personagem ser premiado ou punido ―, será que o espectador vai decidir reproduzir esse comportamento? Essa ainda é uma questão sob discussão: se essa resistência é possível, se os adolescentes (especialmente os de uma geração que é descrita como pragmática, comportada e responsável) são capazes de rejeitar o que veem na tela. Se eles são capazes de decidir que os personagens de Euphoria, por exemplo, não são modelos ideais a serem seguidos.

“Isso realmente depende do adolescente”, diz Bleakeley. Alguns teens são “midiaticamente alfabetizados” – ou seja, possuem a capacidade de fazer uma análise crítica de uma série, por exemplo, e decidir que ela não corresponde à realidade. Mas esse é um cenário ideal. Requer que o adolescente tenha crescido em um ambiente que possibilitou esse tipo de pensamento crítico.

É difícil pensar em tudo isso sem lembrar de 13 Reasons Why, a série perturbadora (é o mínimo que se pode dizer) da Netflix sobre o suicídio de uma adolescente. A série assustou especialistas em saúde. Pesquisadores analisaram a ligação entre a série e o índice de suicídio de adolescentes nos Estados Unidos, que, segundo descobriram, subiu fortemente entre meninos na faixa dos 10 aos 17 anos no mês seguinte ao lançamento da série.

A pesquisa não é um contra-argumento ao estudo do CDC. Os adolescentes podem estar tomando decisões melhores do que seus pais tomaram, mas eles enfrentam alguns riscos maiores do que seus pais, quando estes eram adolescentes: índices mais altos de suicídio (principalmente com arma de fogo), de ansiedade e de depressão. Tirando esses problemas – que são urgentes e merecem ser tratados com sensibilidade ―, os números ainda nos permitem argumentar que a geração de hoje, tão frequentemente criticada, está se saindo bem.

Aproveite essas séries como oportunidade para conversar com seus filhos

Mesmo assim, diz Bleakely, a questão é complexa. Para ela, discutir apenas se os pais precisam ou não se preocupar com seus filhos é excessivamente simplista. “Os pais já têm muito com o que se preocupar”, ela explica. “Nem sempre podemos colocar a culpa na mídia. A mídia nem sempre é uma coisa negativa na vida de um adolescente. Muitas vezes é vista assim, mas na realidade ela também pode ser usada para o bem.”

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Séries como Euphoria e 13 Reasons Why também mostram jovens encarando sua própria identidade. Podem ser usados como pontos de partida para discussões.

Para Bleakely, esses programas de TV fazem parte de um “sistema ecológico” mais amplo, com forças interligadas e forças que se opõem. Há amigos que podem estar transando, pares que podem estar usando drogas, irmãos que talvez não estejam usando cinto de segurança, por exemplo. Inúmeros fatores na vida de um adolescente contribuem para moldar o modo como ele será mais para frente, diz Bleakely, e não é correto achar que a responsabilidade principal é de programas de TV.

“O importante é que os pais tenham consciência das coisas às quais seus filhos estão sendo expostos”, diz Bleakeley.

Ela não é a favor de censura. Em vez disso, diz que essas séries, se os adolescentes vão assistir a elas, devem ser aproveitadas como oportunidades para uma discussão.

“É sempre bom usar essas séries como pontos de partida para os pais conversarem com seus filhos sobre sexo, sexo seguro, consumo de drogas, todos esses temas.”

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.