OPINIÃO
17/04/2020 02:00 -03 | Atualizado 17/04/2020 02:00 -03

Como cinema, 'Sergio' só vale a pena pelas atuações de Wagner Moura e Ana de Armas

Produção da Netflix quase se salva por conta da incrível química de seus protagonistas, mas se perde entre narrativas antagônicas.

A vida do diplomata brasileiro Sergio Vieira de Mello tinha tudo para dar um bom filme. E deu. Se chama Sergio, um documentário da HBO dirigido por Greg Baker em 2009. Já o longa de ficção de mesmo nome e dirigido pelo mesmo cineasta que estreia na Netflix nesta sexta (17), nem tanto.

Impulsionado pelo “star power” da dupla de protagonistas Wagner Moura e Ana de Armas, o drama biográfico Sergio é a estreia de Baker - um experiente diretor de documentários - em longas de ficção.

E, talvez para se afastar de seu documentário sobre Vieira de Mello, ele tenha escolhido em muitos momentos deixar o lado documental de lado e apostar no lírico. Uma escolha que se mostrou equivocada.

No Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR) desde os 21 anos, Vieira de Mello construiu uma sólida carreira de mediador de conflitos em diversas zonas de guerra, como Sudão, Bangladesh, Camboja, Timor Leste, Iraque, entre outros. Era um negociador que, nas próprias palavras de Wagner em entrevista exclusiva ao HuffPost, não via “ninguém como um número ou o cargo que ocupava”.

Só para se ter uma ideia do tamanho dele nos rumos do planeta na época de sua morte, em um atentado a bomba em Bagdá, em 2003, o brasileiro era um dos nomes mais cotados para substituir o africano Kofi Annan como Secretário Geral, o cargo mais alto da ONU.  

Ou seja, assunto de sobra para uma história muito rica, mas que aqui é esvaziada em detrimento de um retrato supostamente mais íntimo do personagem.

Sergio faz um recorte que privilegia dois momentos da vida do diplomata: a bem sucedida missão no Timor Leste, uma ex-colônia portuguesa que acabara de se tornar independente do domínio da Indonésia, em 1999, onde Vieira de Mello conheceu e se apaixonou pela economista argentina Carolina Larriera; e na malfadada reconstrução do Iraque após a queda de Saddam Hussein, em 2003.

Mesmo focando apenas nesses dois momentos, o filme poderia, sim, se aprofundar no papel vital do brasileiro na luta pelos direitos humanos - uma mensagem mais do que necessária neste momento de grande ruptura no mundo todo -, mas acaba preferindo focar mais nas relações pessoais dele com Carolina para dar mais “humanismo” à figura de Vieira de Mello, como se sua atuação na ONU já não bastasse.

A tentativa é muito válida, claro, mas acaba por não dar um rumo claro para a história, que se confunde entre momentos-chave da atuação de Vieira de Mello e o romance entre ele e Carolina, o ponto fraco do filme.

Divulgação
Wagner Moura e Ana de Armas como Sergio Vieira de Mello e Carolina Larriera em "Sergio".

Ironicamente, esse ponto fraco também é um acerto. Não por conta da narrativa, mas pela escolha ao escalar os atores que viveriam os protagonistas. Wagner Moura está excelente como Vieira de Mello e a química entre ele e Ana de Armas é incrível. A tensão sexual dos dois na tela chega a ser palpável.

No final das contas, o que vale mesmo em Sergio é exatamente o star power da dupla. Warner dá a humanidade que o diretor buscava, de uma forma natural, totalmente oposta à artificialidade do roteiro. E a atriz cubana, que muito provavelmente se tornará uma das maiores estrelas do cinema mundial nos próximos anos, não fica para trás. Os dois são a alma do filme e a atuação deles é o maior (e praticamente único) motivo para assistir Sergio