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02/06/2020 19:00 -03 | Atualizado 02/06/2020 19:58 -03

Presidente da Fundação Palmares: Movimento negro é ‘escória maldita’ que abriga ‘vagabundos’

Em áudios obtidos pelo Estadão, Sergio Camargo também diz que esquerda não aceita negro de direita e que vai colocar meta para diretores entregar esquerdistas. "Quem não entregar esquerdista vai sair."

Reprodução/Twitter

O presidente da Fundação Cultural Palmares, Sérgio Camargo, xingou e ridicularizou o movimento negro em reunião a portas fechadas dentro do órgão no fim de abril. Áudios obtidos e checados pelo Estadão mostram Camargo chamar o movimento negro de “escória maldita”, que abriga “vagabundos”.

O presidente do órgão criado com intuito de promover e enaltecer a influência negra xinga o movimento ao ser cobrado pelo ressarcimento de um telefone corporativo, que, segundo ele, desapareceu.

“Eu exonerei três diretores nossos (...). Qualquer um deles pode ter feito isso. Quem poderia? Alguém que quer me prejudicar, invadir esse prédio para me espancar, invadir com a ajuda de gente daqui... O movimento negro, os vagabundos do movimento negro, essa escória maldita. (…) Agora, eu vou pagar essa merda aí.”

O movimento negro, os vagabundos do movimento negro, essa escória maldita.

Ainda na conversa, ele diz que não vai dar em nada o processo que o afastou do cargo entre dezembro e fevereiro. No fim do ano passado, uma decisão da Justiça Federal, derrubada depois pelo STJ (Superior Tribunal de Justiça), o impediu de comandar o órgão por causa de suas declarações que minimizam o racismo nas redes sociais. “Racismo real existe nos Estados Unidos. A negrada daqui reclama porque é imbecil e desinformada pela esquerda”, defendeu Camargo no ano passado.

Nesta reunião de abril, ele prosseguiu: “Esses filhos da puta da esquerda não admitem negros de direita. Vou colocar meta aqui para todos os diretores, cada um entregar um esquerdista. Quem não entregar esquerdista vai sair. É o mínimo que vocês têm que fazer”.

Vou colocar meta aqui para todos os diretores, cada um entregar um esquerdista. Quem não entregar esquerdista vai sair

O presidente do órgão que homenageia Zumbi dos Palmares aproveitou para criticar o líder quilombola. “Não tenho que admirar Zumbi dos Palmares, que, para mim, era um filho da puta que escravizava pretos. Não tenho que apoiar agenda consciência negra. Aqui não vai ter, vai ter zero da consciência negra. Quando cheguei aqui, tinham eventos até no Amapá, tinha show de pagode no dia da consciência negra.”

Na semana passada, a Justiça determinou que a fundação retirasse do site artigos que atacam a figura de Zumbi. Em 13 de maio, data da abolição da escravatura no Brasil, Camargo já havia criticado publicamente Zumbi. No Twitter afirmou que ele é um “herói da esquerda racialista; não do povo brasileiro”. Na ocasião pediu aos usuários da rede para ajudar a escolher um outro nome para a fundação.

A entidade foi criada justamente em homenagem a Zumbi. A lei que a instituiu de 1988, ano da Constituição, afirma que o objetivo é “promover a preservação dos valores culturais, sociais e econômicos decorrentes da influência negra na formação da sociedade brasileira”.

Nos áudios, o presidente da fundação, no entanto, pede que denunciem supostos “esquerdistas” que trabalham na instituição, acusa servidores de vazarem informação “para uma mãe de santo, uma filha da puta de uma macumbeira” e diz que não vai  aceitar emendas de deputados do PT para promover capoeira. Na segunda-feira (1º), no Twitter, ele ironizou movimentos que tomam conta do País, na esteira dos Estados Unidos, contra o racismo. 

Em nota ao jornal, Camargo lamentou a gravação ilegal e afirmou que o órgão está sob novo modelo de comando “voltado para a população e não apenas para determinados grupos que, ao se autointitularem representantes de toda a população negra, histórica e deliberadamente se beneficiaram do dinheiro público”. A íntegra da nota e os áudios estão neste link do Estadão.

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