O que fazer se estiver com uma sensação estranha por causa da pandemia

Não estamos programados para ficar em alerta o tempo todo como estivemos durante a pandemia. Por isso, não se surpreenda se você não se sentir muito bem.

Há algum tempo, os usuários das redes sociais marcam o início de cada mês com uma certa nostalgia coletiva. Neste mês, muitas pessoas postaram: “Quê? Já é outubro?!”, tentando aceitar o fato de que estamos a três meses do fim do ano em que passamos a maior parte do tempo dentro de casa

Uma colega de faculdade publica vídeos de treino no Instagram que são uma inspiração para mim, embora eu assista a todos eles deitada. Um dia, ela postou que não conseguiu acordar para treinar. Essa sensação estranha, como se não fôssemos nós mesmos, está afetando muita gente e se manifesta de várias maneiras diferentes. Muitos amigos me disseram que estavam com dificuldades para dormir ou manter atividades que sempre gostaram de fazer. Mesmo sem identificar exatamente o que incomoda, todos já tivemos dias em que não nos sentimos nós mesmos. Segundo os especialistas em saúde mental do HuffPost Índia, esses sentimentos podem incluir solidão, tristeza, perda, trauma e muitos outros.

“Estamos passando por um ‘trauma coletivo’ que está afetando nossa saúde mental. Estamos testemunhando, sentindo e tentando processar o que está acontecendo no mundo todo, tudo de uma vez”, explica Shaina Vasundhara Bhatia, psicoterapeuta e psicóloga que trabalha em Gurugram, na Índia.

Estamos tentando nos adaptar ao “novo normal”, mas a ameaça constante da covid-19 ainda é muito real, assim como o impacto na economia e a perspectiva do desemprego. Tudo o que considerávamos “normal”, como encontrar amigos, planejar as próximas férias ou fazer um curso no exterior, ir ao casamento de um parente ou apenas estar com as pessoas que amamos, agora parece fora de alcance.

Bhatia afirma que não fomos programados para estar no estado constante de alerta em que vivemos agora, por isso estamos confusos. Além disso, para algumas pessoas, a pandemia pode ter despertado preocupações latentes.

Para as pessoas que moram em lares violentos, a pandemia pode significar passar mais tempo com seus agressores. Também pode ser desagradável não ter uma folga dos pais ou parceiros que não nos entendem. O confinamento em casa nos forçou a prestar atenção em coisas que antes não eram relevantes e mudou nossas perspectivas, o que pode ser difícil.

“Nossas opiniões sobre nós mesmos, nossas famílias, nossos amigos e a vida que conhecíamos ganharam muitos aspectos diferentes. Para muitas pessoas, ficar em casa com a família teve um impacto negativo sobre a saúde mental, evidenciando problemas nesse ambiente. Outras pessoas passaram a observar o trabalho com outros olhos ou foram muito afetadas pelo desemprego. Mas todos tivemos que parar para pensar em nós mesmos. Eu não acho que haverá um retorno à vida normal, até porque o conceito de normal mudou. A grande questão é o que vamos fazer com essas perspectivas”, explica a psicoterapeuta e conselheira Rhea Gandhi, de Mumbai.

“Essa situação é ainda mais difícil para os jovens adultos”, diz a psicoterapeuta Vaishali Rathore, de Déli. “Muitos estudantes universitários tiveram problemas de saúde mental porque, de repente, a vida passou a se resumir ao celular”, acrescenta ela.

Os jovens adultos que dependem dos pais muitas vezes não têm autonomia para tomar decisões sobre as próprias vidas. “Algumas pessoas se sentem mais seguras fora de casa, quando saem para fazer caminhadas, encontrar pessoas para trabalhar ou simplesmente quando conversam com um vizinho ou brincam com os cães da vizinhança”, conta Rathore.

Como saber se não estamos bem?

Os especialistas disseram ao HuffPost Índia que, sempre que não nos sentimos nós mesmos e temos dificuldade para fazer o que estamos acostumados, é provável que algo esteja errado. No entanto, esses sinais variam de pessoa para pessoa.

“Quando começamos a nos isolar, evitar ligações e o contato com outras pessoas, pensamos que é apenas uma fase, mas na verdade é um sinal de alerta de que algo não está bem”, comenta Rathore.

De acordo com ela, quando atividades cotidianas como comer, dormir ou trabalhar parecem angustiantes, isso é um sinal de que algo não vai bem com a saúde mental.

Resumindo, se você se sentir diferente ou mesmo se não conseguir definir muito bem o que é normal na sua vida, isso pode ser um sinal de que algo vai mal.

“Quando sentimos que não estamos bem, não importa o tamanho do problema, reconhecer que a terapia pode ajudar já é um grande passo.”

O que podemos fazer para melhorar?

Os especialistas também compartilharam alguns conselhos sobre o que devemos fazer para sair do desconforto que estamos vivendo. Confira algumas sugestões:

Não adiar a terapia

Os especialistas alertam que não devemos esperar o pior para buscar ajuda. “Se você está pensando em buscar apoio psicológico, não pense duas vezes. É sempre melhor procurar ajuda logo no começo do que depois, quando as coisas ficam cada vez piores e mais urgentes. A terapia não é uma solução rápida, leva tempo. É mais fácil lidar com o sofrimento quando ele está apenas começando, não podemos deixar para a última hora”, afirma Gandhi.

E não, sua sessão de ioga matinal não conta como terapia. Bhairavi Prakash, psicóloga e fundadora do Mithra Trust, comenta: “Quando sentimos que não estamos bem, reconhecer que a terapia pode ajudar, não importa o tamanho do problema, é um grande passo. Além disso, há pessoas que praticam atividades terapêuticas como desenho, dança, ioga, etc., e dizem que essa prática é uma terapia. É muito importante diferenciar entre atividades terapêuticas e terapia. As atividades terapêuticas são ótimas ferramentas para a autoexpressão e a autorreflexão e podem até fazer parte da terapia. No entanto, terapia mesmo significa interagir com um especialista em saúde mental qualificado com um objetivo específico”.

Pode ser difícil fazer terapia regulamente devido a limitações financeiras, mas Rathore explica que conversar com um profissional de saúde mental, mesmo que seja uma vez por mês, sempre pode ajudar. “Sei que na Índia não é comum as famílias reservarem parte do orçamento para cuidar da saúde mental, mas conversar com um terapeuta uma vez por mês e se concentrar nos problemas fundamentais e no autoconhecimento já pode ser uma ótima maneira de avançar”, comenta.

Saber que não estamos sozinhos

Pode ser um desafio aprender a conviver com esse sentimento. Mesmo sem acreditar em uma abordagem padronizada para ajudar as pessoas a lidar com a situação, Gandhi afirma que saber que estamos todos na mesma pode dar uma sensação de conforto.

“O que posso dizer é que estamos todos no mesmo barco. Cada um tem os próprios problemas e reações, mas todos fomos afetados pela pandemia e pode ser reconfortante saber que não estamos sozinhos”, reflete ela.

Reconhecer os próprios sentimentos

Quando não nos sentimos bem, costumamos tentar lutar contra esses sentimentos “negativos”. No entanto, os especialistas dizem que primeiro devemos aprender a reconhecê-los e dar lugar a eles.

“O primeiro passo para conseguir uma certa sensação de normalidade é reconhecer que de vez em quando todo mundo sente que tudo é uma droga. É preciso aceitar esse mau humor ”, conta Bhatia.

Criar novidades

Antes da pandemia, nossos cérebros eram expostos a muito mais estímulos fora de casa, mas agora isso não acontece mais. Para Rathore, fazer mudanças pode ajudar a estimular o cérebro.

“Aprenda um novo idioma, assista a um filme em um idioma diferente ou tente fazer algo novo na cozinha. A ideia é experimentar novidades todos os dias”, sugere ela.

Aceitar que é normal não estar bem o tempo todo

Muitas vezes ouvimos que é melhor ser positivo e feliz o tempo todo, mas precisamos aprender que não há problema em não estar sempre bem.

“Em primeiro lugar, identifique esse sentimento. Se não conseguir ser específico, apenas diga que não está se sentindo bem. Não há problema em não estar bem, mesmo com toda a onda de positividade tóxica nas redes sociais, essa uma tendência de encobrir as emoções ruins”, reflete Prakash.

De acordo com ela, precisamos deixar de considerar sentimentos como raiva, ciúme ou tristeza como “negativos”. Achar normal não se sentir bem é reconhecer que não há problema em ter sentimentos incômodos ou que não sabemos processar.

Criar “portos seguros”

Antes da pandemia, cada um tinha a própria forma de relaxar, por exemplo, depois do trabalho ou nos finais de semana, saindo com os amigos ou viajando. Bhatia recomenda buscar alternativas que nos ajudem a manter os pés no chão.

“Todos temos lugares ou pessoas em nossas vidas que nos dão segurança. Precisamos desses portos seguros que nos mantêm a salvo nesse mar de caos. Isso é imprescindível”, explica ela.

Reconhecer que “a covid ainda é muito real”

O Brasil, assim como a Índia, retomou praticamente todas as atividades, mas, segundo Prakash, o medo da covid continua presente e não deve ser subestimado.

“Há uma falsa sensação de volta ao normal, as pessoas estão saindo, socializando e se encontrando. Pode parecer que a vida está de volta aos trilhos, mas não está. A covid ainda é muito real, não reconhecemos todo o impacto dessa doença sobre nós”, acrescenta ela.

Criar limites entre a vida pessoal e a profissional

Como muitas pessoas estão trabalhando em casa, essa referência desaparece. Quando o trabalho acaba e começa a vida pessoal? Bhatia comenta que esses limites ficam confusos “fisicamente, mentalmente e emocionalmente”. Para ajudar a aliviar um pouco essa sensação, ela sugere criar espaços físicos de trabalho separados. Dessa forma, assim que o trabalho termina, você pode voltar para o seu espaço pessoal/doméstico.

Se não houver espaço para fazer isso, você pode adotar um pequeno ritual, como fazer uma caminhada ou tomar uma xícara de chá, para marcar o final do dia de trabalho.

Praticar técnicas de relaxamento

Rathore explica que atividades relaxantes, como uma massagem na cabeça, beber uma xícara de chá ou tomar um banho quente, podem ajudar a acalmar a mente.

Deixar os bons sentimentos fluírem

É importante reconhecer nossas emoções, mas também manter a esperança.
“Quando possível, mantenha a esperança e a fé. Neste ano, tivemos uma sensação contínua e interminável de destruição e tristeza, com uma onda de crises existenciais. Então, se estiver se sentindo bem com alguma coisa ou se sentir esperança ou otimismo por um momento, deixe esse sentimento fluir. A vida é um equilíbrio entre todos os sentimentos que existem. Alguns dias, sentimos desespero, mas em outros, sempre podemos vislumbrar a esperança. Aproveite esses momentos”, conclui Bhatia

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost India e traduzido do inglês.