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09/08/2019 16:10 -03 | Atualizado 10/08/2019 09:35 -03

Senadores estão divididos sobre indicação de Eduardo Bolsonaro para embaixada nos EUA

Filho do presidente, no entanto, conta com o presidente da comissão como aliado. Senador Nelsinho Trad só vai pautar a indicação quando o governo tiver maioria no colegiado.

Reprodução/Instagram

Divisão e constrangimento. Essas são as duas palavras que descrevem o clima no Senado Federal com a aprovação pelos Estados Unidos da indicação de Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) para a embaixada em Washington. Após o presidente Jair Bolsonaro oficializar a indicação do filho para o posto, a responsabilidade por dar aval ao nome caberá aos senadores.

Ao HuffPost, senadores, inclusive alinhados ao presidente, afirmaram que há um “mal-estar pela indicação do filho do presidente”. Para eles, o caso é uma questão de cunho pessoal de Bolsonaro e há preocupação sobre como dizer “não” ao mandatário. “Como ele [Jair Bolsonaro] vai encarar isso?”, desabafou um senador. 

Na Comissão de Relações Exteriores, composta por 18 senadores, quatro ainda estão indecisos. Os demais estão divididos, com um placar de sete favoráveis e sete contrários. “O clima é de equilíbrio”, disse ao HuffPost o presidente do colegiado, Nelsinho Trad (PSD-MS). 

Para usar o jargão das pesquisas eleitorais, sem margem de erro alguma, há realmente um empate nesse momento.Nelsinho Trad (PSD-MS), presidente da CRE

De acordo com o senador, responsável por escolher o relator da indicação na Casa, quatro pares já o procuraram para falar no assunto: dois para dizer que não querem assumir o posto; outros dois para pedir a relatoria. “Como posso falar nisso se a mensagem [presidencial com a indicação] ainda nem foi enviada [ao Senado]?”, afirmou. 

Nos bastidores, o mais cotado para o posto é Chico Rodrigues (DEM-RR). Ele é conhecido da família Bolsonaro. Viajou com o presidente para Israel, em abril, e emprega um primo dos filhos de Bolsonaro. Eduardo Leonardo Rodrigues de Jesus, conhecido como Léo Índio, ocupa o cargo de assessor parlamentar. Ele foi contratado em abril, com salário bruto inicial foi R$ 5,3 mil, mas já saltou para R$ 22,9 mil, de acordo com a folha de pagamento de julho disponível no portal da transparência do Senado.

Líder do PSL no Senado, Major Olímpio (PSL-SP) é um dos que tem interesse na relatoria. Nesta sexta-feira (9), ele reafirmou que assumiria o posto e que se manifestará favorável ao nome de Eduardo de qualquer forma. “Não é nepotismo, não tem nada de errado.”

Vice-presidente do colegiado, o senador Marcos do Val (Cidadania-ES), foi um dos que solicitou a relatoria. Mas recebeu de Trad uma resposta negativa. Ele é publicamente contra a indicação de Eduardo. 

“Já disse isso ao Flávio [Bolsonaro, irmão do deputado], já disse aos líderes do governo. Tanto que ninguém tem vindo mais a mim para tentar me convencer. Dar aval a ele é como dar um diploma de médico a quem não fez medicina. É um cargo que precisa ser ocupado por alguém da carreira”, desabafou o senador. 

Para ele, a temperatura real só poderá ser medida no dia da votação. “Há quem me diga que está contra, há quem diga que é favorável. Tem quem acredite que ele será aprovado, e os que garantem que o nome dele não passa de jeito nenhum.”

Independentemente da escolha o relator, o presidente da comissão avisou aos colegas que só pautará o assunto quando sentir que há maioria favorável ao filho do presidente da República. O mesmo ocorre com o presidente do Senado, que vem trabalhando nos bastidores por Eduardo. 

Convencimento

Para garantir a atuação de Alcolumbre, o governo está fazendo o possível. Esta semana, o presidente abriu espaço no Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica) para afagar o democrata. 

Para abrir espaço para o senador, Bolsonaro retirou duas indicações feitas em maio, uma pelo ministro da Economia, Paulo Guedes (Leonardo Bandeira Rezende), e outra pelo ministro da Justiça, Sergio Moro (Vinícius Klein). Elas estavam travadas no Senado desde então e corriam risco de serem rejeitadas na CAE (Comissão de Assuntos Econômicos). A expectativa é que Alcolumbre indique os novos nomes. 

O trabalho de convencimento também tem sido feito pelo próprio Eduardo.Esta semana, ele deu início a andanças pelo Senado. O que chama a atenção é que este trabalho de convencimento tenha começado antes mesmo de formalizado seu nome. 

Durante todo o processo, que pode durar poucas semanas, ou até meses, não apenas Eduardo Bolsonaro, mas também seu irmão e senador Flávio, bem como aliados, e interlocutores do Palácio do Planalto seguirão atrás dos parlamentares para juntar a maior quantidade de apoio possível na hora da votação no plenário. O tempo que o trâmite entre a CRE e a votação final levará depende do grau de aceitação da indicação entre os senadores.