COMPORTAMENTO
23/03/2019 01:00 -03

Adolescentes mostram os efeitos assustadores dos apps de edição

O antes e depois dessas fotos mostra o que é possível fazer com apenas alguns toques na tela do celular.

A edição de fotos não é segredo nas redes sociais. É tão fácil mudar a aparência com aplicativos como Instagram e FaceTune – usando filtros, retoques ou uma combinação de ambos ―, que é cada vez mais difícil determinar o que é real. Também pode-se argumentar que esses apps perpetuam uma expressão homogeneizada da beleza, em vez de celebrar a verdadeira individualidade.

O fotógrafo britânico Rankin (cujo nome real é John Rankin Waddell) explorou esses apps e seus potenciais efeitos nocivos em uma nova série de fotos intitulada “Selfie Harm”. Para o projeto, parte da iniciativa Visual Diet – que tem como objetivo transformar o nosso consumo de imagens ―, Rankin fotografou um grupo de adolescentes e pediu que elas próprias editassem as imagens, até que elas estivessem “prontas para as redes sociais”.

O antes e depois das fotos mostra o que é possível fazer com apenas alguns toques na tela do celular.

Huffington Post

Rankin disse ao HuffPost ter notado muitas fotos retocadas nas redes sociais. O que antes era uma ferramenta reservada para celebridades e modelos que aparecem em revistas agora está à disposição de basicamente qualquer pessoa com um smartphone.

Rankin diz que está ciente do uso do Photoshop desde quando o software começou a ser popularizado – e sempre foi crítico da realidade distorcida pelo programa. Então ele teve a ideia de usar fotografias para mostrar como os indivíduos, especialmente os mais jovens, usam a tecnologia para mudar sua aparência.

“Fiquei especialmente com medo porque essas transformações parecem um jogo”, diz ele. “Você tira uma selfie e, conforme vai mexendo na foto, pode comparar o antes e depois com facilidade. Você também se sente muito inadequado com sua aparência.”

Julia Brucculieri/Rankin
Rankin editou a foto da autora da reportagem com os aplicativos usados pelas participantes do projeto “Selfie Harm”. A foto à esquerda é a original, a do meio contém algumas edições no rosto e a da direita acrescenta “maquiagem digital”.

Rankin, que já fotografou a rainha Elizabeth 2ª e o roqueiro David Bowie, fez retratos de 15 jovens, usando pouca maquiagem. Algumas das meninas eram modelos, outras não tinham experiência profissional. A única exigência era que elas não usassem regularmente os apps de edição e retoque de fotos.

“Não queria explorar o que as pessoas fazem pessoalmente, mas sim como você pode usar o app para alterar sua aparência mesmo que não saiba muito sobre ele”, afirma Rankin.

Observando as meninas, ele percebeu que elas tinham a tendência de sempre fazer as mesmas coisas – aumentar os olhos e os lábios, por exemplo. Para o fotógrafo, isso é reflexo de como as pessoas enxergam a beleza hoje. O curioso, afirma Rankin, é que as meninas não gostaram muito do resultado final, mas acharam que as fotos retocadas receberiam mais likes nas redes sociais. Ele esclareceu também que fotografou meninos, mas eles fizeram mudanças muito menos drásticas em suas fotos.

Huffignton Post

O objetivo do fotógrafo não era colocar a culpa em aplicativos como FaceTune ou nas pessoas que os criaram. Na realidade, ele queria apontar a existência desses apps e o fato de que eles estão sendo usados para fazer alterações nos rostos que acabam os deixando extremamente homogêneos. Já exploramos essa ideia, mostrando como os influenciadores do Instagram estão cada vez mais se parecendo clones uns dos outros (https://www.huffpost.com/entry/instagram-influencers-beauty_n_5aa13616e4b002df2c6163bc). É um fenômeno da era das redes sociais.

“Por que este é o ideal? Como essa estética homogênea virou esse ideal? E por que a perpetuamos?”, pergunta ele. “Quando eu era adolescente, o importante era ser um indivíduo. Agora parece que o objetivo é ser igual às outras pessoas, e isso é muito estranho. 

Na opinião de Rankin, ser a melhor versão de você mesmo significa ter a sua própria aparência, não a de outro. A facilidade de transformar rostos ou “mudar a composição do seu rosto, aplicar maquiagem etc., só para ficar parecido com alguém ou para atingir um ideal de beleza parece a abordagem errada em relação a quem você é como ser humano.”

Huffington Post

O fotógrafo diz que não esperava que o projeto recebesse tanta atenção. A ideia era começar uma conversa sobre nossas concepções das imagens; Rankin diz que adora fazer fotos que façam as pessoas questionarem o que estão vendo. 

Questionado se esses apps têm efeito negativo sobre a confiança e a autoestima, ele responde: “Ah, sim. Cem por cento.”

“Mesmo que você use um efeito para eliminar imperfeições da pele, não é mais você”, afirma Rankin. Quando você se olha no espelho, não está se enxergando.”

Isso lembra outro fenômeno, conhecido como “dismorfia do Snapchat”, que parece ter surgido por causa da tendência de editar e usar filtros nas nossas fotos. As pessoas começam a usar essas imagens alteradas como fonte de inspiração para procedimentos cosméticos. Alguns chegam a afirmar que os filtros nos fazem esquecer nossa aparência real, e estudos indicam que a cultura da selfie pode causar transtorno dismórfico corporal.

Huffington Post

Os jovens que usam esses aplicativos provavelmente não estão considerando os problemas futuros que possam vir a sofrer, afirma Rankin. Eles estão mais preocupados com como vão sair nas fotos e se elas vão receber likes.

Rankin afirma que, com esses apps, a arte da fotografia “está sendo distorcida e manipulada para criar imagens que considero perigosas”.

Ele acrescenta: “Só estou tentando fazer as pessoas pensarem: ‘É um bom argumento’. Temos de ter essa consciência.”

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.