MULHERES
10/06/2019 10:05 -03 | Atualizado 10/06/2019 12:16 -03

O sonho das meninas que viajaram 8 mil km de sua ilha para assistir à Copa feminina

Acostumadas a assistir jogos só pela TV, 58 garotas do arquipélago francês de Mayotte acompanharam partida entre Nigéria e Noruega, em Reims, na França.

Ana Ignacio/Especial para o HuffPost Brasil
Sempre foi pela televisão que as 58 meninas de Mayotte acompanhavam o esporte que mais amam.

REIMS, FRANÇA - A partida começara havia cerca de 10 minutos. As ruas do entorno e os portões de acesso ao estádio Auguste Delaune, de Reims, uma das cidades francesas que recebe os jogos da Copa do Mundo de Futebol feminina de 2019, já estavam vazios quando elas chegaram. Às pressas, meio esbaforidas, passos apertados e ingressos impressos nas mãos sendo sacudidos. A maioria usava o mesmo moletom rosa, com capuz.

À frente, um homem organizou o grupo e checou o local de entrada. Elas então correram para o portão G. Subiram os degraus da arquibancada e se acomodaram atrás de um dos gols. Ali começava a materialização de um sonho.

Até então, sempre foi pela televisão que essas 58 meninas de Mayotte – um arquipélago francês localizado entre Moçambique e Madagascar – acompanharam o esporte que mais amam. Mas desta vez ia ser diferente.

Todas as meninas jogam futebol, sendo algumas integrantes da seleção sub 15 e sub 17 da ilha. O jogo entre Noruega e Nigéria, ocorrido em Reims no sábado (8), foi a primeira partida da Copa do Mundo que essas garotas assistiram. Olhos pregados no campo, gesticularam o tempo todo e torceram como se fosse para o time de coração. Entoaram fortes gritos de “Nigéria! Nigéria” e levaram até faixas do país junto à bandeira de Mayotte.

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Todas as meninas jogam futebol em Mayotte, sendo algumas integrantes da seleção sub 15 e sub 17 da ilha.

Julien Boucaut, 38 anos, é um dos sete educadores que acompanha as meninas nessa viagem – e aquele que organizava o eufórico grupo na entrada –, e explica que, após o jogo em Reims, o grupo ainda seguirá para ver uma partida em Paris e depois irá visitar o time de base da equipe da França. Segundo ele, a experiência é realmente única para as garotas.

“Elas assistem [futebol feminino] na televisão e sonham em defender a seleção francesa, ser a primeira mulher de Mayotte a vestir a camisa da seleção. Para elas, é um sonho que se torna realidade assistir uma Copa do Mundo Feminina em seu país. Ser capaz de percorrer mais de 8.000 km de sua casa para ver os jogos da Copa do Mundo é algo extraordinário.”

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Julien Boucaut (à direita), de 38 anos, é um dos sete educadores que acompanha as meninas na viagem à França, para a Copa feminina.

E é assim que elas se sentem. Marina Sadroudine, 15 anos, atua como defensora em Mayotte e não tem dúvida sobre o que quer para o futuro. ”É meu sonho ser jogadora profissional. Assistir a uma Copa do Mundo Feminina, especialmente aqui na França, é uma grande oportunidade para nós.”

Marina sente orgulho de ter referências na profissão que escolheu e acredita que tem o caminho aberto para isso.

“A jogadora que eu admiro muito é a Sakina Karchaoui, que joga em Montpellier e está na equipe da França. Acho que, para nós, mulheres, é possível viver do esporte porque, se você acredita no seu sonho, você vai conseguir realizá-lo, assim como todos os jogadores profissionais [homens] fizeram”. 

E é com esse ânimo que todas elas estão ali no estádio. Nem mesmo a derrota da Nigéria por 3 a zero desanimou o grupo ou reduziu a forte torcida. Pelo contrário. Elas não pararam de incentivar a equipe e entoar diversos gritos de apoio.

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Marina Sadroudine, de 15 anos, atua como defensora em Mayotte.

Ao final da partida, foram os cantos do time de Mayotte que tomaram conta dos degraus naquele canto do estádio. Sacudiam bandeiras, batiam palmas, dançavam, gritavam e sorriam. Demoraram a querer ir embora do estádio.

Depois de perderem dez minutos do começo do jogo, elas pareciam querer aproveitar tudo que podiam da partida e daquele momento. Ganharam a simpatia de muitos torcedores que foram ficando em seus lugares também, observando a energia e alegria das garotas. Elas seguiam ali, incansáveis, pulando, como se ainda estivessem torcendo.

Foi quando o time da Noruega começou a passar pelo campo para cumprimentar a torcida após a vitória. As meninas não tiveram dúvida. Correram o mais perto que puderam da grade da arquibancada, distante do campo. Aplaudiram a equipe e entoaram um novo grito: “Noruega! Noruega!”. Receberam acenos e sorrisos simpáticos de volta. Ficaram ainda mais animadas.

Mas que fique claro. Elas não são vira-casacas. A torcida era para a Nigéria, de fato. No entanto, elas sabem muito bem que o jogo de verdade é outro – e muito maior. Por isso não pararam de torcer. E elas não têm dúvidas: são todas vitoriosas em campo.