OPINIÃO
22/10/2019 11:32 -03 | Atualizado 22/10/2019 11:32 -03

'Segunda Chamada' aposta na identificação do público para emocionar e despertar empatia

A nova série da Globo logo ficou conhecida como “Sob Pressão da educação”. A comparação é inevitável.

Globo/Maurício Fidalgo
A professora Sônia (Hermila Guedes) e a aluna Rita (Nanda Costa) em cena de "Segunda Chamada". 

Segunda Chamada, a nova série da Globo que estreou há poucas semanas, logo ficou conhecida como “Sob Pressão da educação”. A comparação é inevitável, pelo realismo, tanto da produção quanto da narrativa, somado ao teor documental e denunciatório do desleixo com um direito público - em Sob Pressão, a Saúde, em Segunda Chamada, a Educação. Se na primeira, os mocinhos são médicos dispostos a salvar vidas mesmo diante de todo tipo de adversidade, na segunda, os professores tentam salvar alunos jovens e adultos de um futuro sem perspectivas, mesmo com o desmantelamento do ensino público escancarado na trama.

Outro ponto de convergência entre as duas séries é o rico material humano explorado, traduzido em dramas contundentes. Os primeiros episódios de Segunda Chamada (disponíveis no Globoplay) dão uma mostra de seu potencial em atingir e emocionar o público. Se os alunos precisam de seus mestres para enfrentar dificuldades e alcançar uma meta, Segunda Chamada destaca que, diante do caos, eles só conseguirão chegar aos seus objetivos particulares por meio da coletividade e da ajuda mútua, vencendo preconceitos e intolerância - de gênero, raça, classe social, religião ou origem - para um bem comum.

Globo/Maurício Fidalgo
Os professores: Marco André (Silvio Guidane), Sônia (Hermila Guedes), Lúcia (Débora Bloch), Jaci (Paulo Gorgulho) e Eliete (Thalita Carauta).

O realismo

A diretora artística Joana Jabace não poupou esforços para traduzir em imagens a verossimilhança proposta. “Do ponto de vista da direção, flertei bastante com o docudrama, com um realismo muito forte: optei por gravar toda a série em locação e lutei por uma escola de verdade”, afirmou Jabace.

A edificação que serviu para a fictícia escola da trama é uma construção histórica que estava há mais de uma década abandonada, erguida em 1952 para acolher a Escola do Jockey Club de São Paulo (localizada na Rua Bento Frias 233, esquina com a rua Pero Leão, no bairro de Pinheiros).

O realismo da produção e direção encontra eco no roteiro, assinado por Carla Faour e Júlia Spadaccini: as tramas são inspiradas por histórias reais. A escolha de São Paulo para a ambientação não foi em vão. As autoras precisavam de uma cidade que representasse bem a diversidade de tipos humanos para render as histórias que queriam contar. Vários dos atores que dão vida aos alunos são da capital paulista, com origem e dramas muito próximos de seus personagens - como Linn da Quebrada e William da Costa. O final de cada episódio exibe depoimentos emocionantes de professores, alunos e ex-alunos reais, relatando suas experiências no ensino público.

Débora Bloch interpreta a incansável professora Lúcia, uma mulher que faz da educação uma missão. Hermila Guedes também se destaca, como a professora Sônia, mulher maltratada pela vida e pelo marido machista. A despachada professora Eliete, personagem de Thalita Carauta, faz um bom contraponto com Lúcia e Sônia. Para os alunos, foram escolhidos alguns atores conhecidos de novelas, como Nanda Costa, Carol Duarte e Felipe Simas, mas a maioria é de rostos novos. Há ainda os ótimos Zé Dumont e Teca Pereira, veteranos que vivem alunos mais velhos com fome de aprender, cada um com motivações diferentes. 

Globo/Maurício Fidalgo
O professor Marco André (Silvio Guidane) ensinando seus alunos.

O descaso com a Educação

Por meio da reprodução de fragmentos da sociedade, Segunda Chamada escancara as mazelas que atingem não só aos estudantes e professores, mas a todos, em qualquer esfera, em maior ou menor grau. Talvez sua melhor qualidade seja a aposta na identificação do público com os dramas apresentados, fazendo assim despertar a empatia, o olhar para o outro, para o coletivo. Por abordar questões caras à sociedade, a série ainda denuncia o descaso das políticas públicas e dos governantes com os mais necessitados. A julgar a relevância de sua abordagem e a riqueza do fator humano, Segunda Chamada é uma fonte inesgotável de histórias. Desejo vida longa!

No site Teledramaturgia você encontra mais informações sobre Segunda Chamada: tramas, personagens, elenco completo e curiosidades.

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