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16/01/2020 20:50 -03 | Atualizado 16/01/2020 21:23 -03

Acuado por reportagens sobre chefe da Secom, Bolsonaro ataca a imprensa

Presidente foi responsável por 58% dos ataques à imprensa em 2019, segundo relatório da Fenaj-RJ.

Adriano Machado / Reuters
Questionado sobre os contratos da empresa de Fabio Wajngarten com outras com às quais o governo têm contrato, o presidente reagiu: “Está falando da sua mãe?”. 

O presidente Jair Bolsonaro voltou a atacar a imprensa nesta quinta-feira (16), um dia após vir à tona a notícia de que a FW Comunicação, do chefe da Secom (Secretaria de Comunicação Social) da Presidência da República, Fabio Wajngarten, recebe dinheiro de emissoras de televisão e de agências de publicidade com as quais o governo tem contrato. 

A informação foi publicada na quarta-feira (15) no site da Folha de S. Paulo e ganhou enorme repercussão. Tanta que, embora tenha afirmado que manterá o secretário no cargo, Bolsonaro convocou reuniões de emergência no Palácio do Planalto não apenas com Wajngarten e seu chefe direto, o ministro Luiz Ramos, da Secretaria de Governo, à qual a Secom é subordinada, mas também com a equipe jurídica. 

Foram ao menos três ocasiões ao longo desta quinta em que Bolsonaro se dirigiu diretamente a jornalistas em tom de ataques, visivelmente acuado com as novas informações que continuaram a aparecer. Após a primeira reportagem, a Folha noticiou, por exemplo, que o secretário viajou 20 vezes com dinheiro público para pelo menos 67 encontros com representantes de clientes e ex-clientes de sua empresa, a FW Comunicação. 

Cedo, ao deixar o Palácio da Alvorada, atacou a Folha, quando questionado por uma de suas repórteres sobre o secretário, Bolsonaro relembrou um caso que o jornal publicou ainda na campanha eleitoral e disse que se trata de “uma péssima imprensa”. 

Todos os dias, jornalistas de vários veículos fazem plantão na porta do Palácio da Alvorada, onde há uma espécie de dois cercadinhos, um para os simpatizantes do presidente, que podem se aproximar dele, próximo à pista - ele normalmente desce do carro para falar -, e outro para os repórteres, que fica afastado cerca de um metro e meio do asfalto que dá acesso à residência oficial do presidente.  

A cada fala em que o mandatário ataca a imprensa, é comum que seus apoiadores vibrem e gritem. Na manhã desta quinta, não foi diferente. 

“Cai fora Folha de S.Paulo. Vocês não têm moral para perguntar!”. “Isso aí! Boa!” reagiram os simpatizantes. Ao ser indagado novamente pela repórter,  atacou mais uma vez. Por fim, subiu ainda mais o tom, olhando para seus apoiadores, rindo: “Já falei que a Folha está fora. Você não aprende que a Folha está fora? A Folha é um lixo! A Folha é um lixo! A Folha de S.Paulo, Datafolha: eu perderia para todo mundo no 2º turno. Vocês não têm vergonha na cara? Ainda vem aqui fazer plantão? Eu sei que você não é dona da Folha, está cumprindo o seu papel lá para tentar infernizar o governo. Qual a pauta positiva a Folha fez do governo até hoje? Nada. Zero. O 13º do Bolsa Família vocês não deram, na capa não apareceu nada. Se fosse do PT, que dava bilhões para a grande mídia o ano todo, estaria elogiando o Lula. Enquanto a mim é só pancada o tempo todo. Acabou a mamata, Folha de S.Paulo!”

À tarde, ao discursar em um evento no Palácio do Planalto, também não deixou barato. Disse que a imprensa precisa “tomar vergonha na cara”. “Essa imprensa que está me olhando, não tomarei nenhum medida para censurá-los, mas tomem vergonha na cara. Deixem nosso governo em paz, para levar harmonia ao nosso povo.”

Em seguida, retornou ao Palácio da Alvorada e, mais uma vez questionado sobre a Secom, voltou a atacar um repórter da Folha. Questionado sobre os contratos da empresa de Fabio Wajngarten com outras com às quais o governo têm contrato, reagiu: “Está falando da sua mãe?”. 

Retórica para seu público

Na live semanal em seu Facebook, o presidente disse que não tem “bronca da imprensa”, mas fica “chateado com fake news”. Na ocasião, mencionou o livro Tormenta, de Thais Oyama, no qual ela afirma que, no ano passado, o presidente pensou em demitir o ministro Sergio Moro, mas foi demovido da ideia pelo chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), Augusto Heleno. 

“É clarividência. Não tem o que falar do governo. É o tempo todo atacando o governo. Como eu gostaria de uma imprensa que falasse a verdade”, disse. Em seguida, completou: “Atenção imprensa, acabou a campanha. Se eu der errado aqui, o Brasil vai ser difícil”.

Levantamento 

A Federação Nacional de Jornalistas (Fenaj) no Rio de Janeiro divulgou também nesta quinta (16) um balanço em que aponta aumento do casos de violência contra jornalistas. A entidade tem se solidarizado diariamente com os profissionais que ficam na entrada do Palácio da Alvorada e com a imprensa.  

De acordo com o levantamento apresentado, em 2019, foram registrados 208 ataques a veículos de comunicação, aumento de 54% na comparação com 2018. Destes, 114 foram de descredibilização da imprensa e, 94, de agressões diretas a profissionais. 

Apenas o presidente Jair Bolsonaro foi responsável por 58% desses ataques, um total de 121. “É a primeira vez que a Fenaj contabiliza em seu relatório anual as tentativas de descredibilização da imprensa. Em 2019, a modalidade tornou-se a principal forma de ameaça à liberdade de imprensa no Brasil e foi incluída no relatório diante da institucionalização da prática por meio das falas e discursos do presidente da República. De acordo com o relatório, é a postura do presidente da República que mostra que a liberdade de imprensa está ameaçada”, avalia a Fenaj RJ.