ENTRETENIMENTO
12/03/2019 15:19 -03 | Atualizado 12/03/2019 15:24 -03

'Se Eu Fechar os Olhos Agora': A estética noir e as influências do diretor Carlos Manga Jr.

Em entrevista exclusiva ao HuffPost, diretor fala sobre seu novo projeto que estreia na TV Globo em abril.

Globo/Maurício Fidalgo/Montagem
Mariana Ximenes, Murilo Benício e Débora Falabella são alguns dos atores do elenco estelar do thriller psicológico/drama Se Eu Fechar os Olhos Agora.

″É uma série com cara de série”, crava o diretor Carlos Manga Jr., o Manguinha, sobre Se Eu Fechar os Olhos Agora, nova minissérie em 10 capítulos da Globo que estreia na TV aberta e na Globoplay (plataforma de streaming da emissora) em abril. O cineasta conversou exclusivamente com o HuffPost Brasil sobre a produção.

Baseada no premiado livro homônimo de Edney Silvestre e com roteiro de Ricardo Linhares, Se Eu Fechar os Olhos Agora é um thriller psicológico/drama que se passa em uma pequena cidade do interior nos anos 60 e aborda temas como racismo, intolerância e o machismo. Ou seja, questões antigas de nossa sociedade que, infelizmente, seguem muito atuais.

“Uma sociedade em que não basta ser. É preciso parecer”, estampa o material veiculado à imprensa. Algo que condiz muito com as referências tanto estéticas quanto espirituais do projeto. A mais forte delas é, sem dúvida, o cinema noir.

O termo criado pelo crítico francês Nino Frank faz referência a filmes policiais que surgiram nos anos 1940. Neles, o visual preto e branco tende ao escuro, muito mais às sombras, e tanto trama quanto personagens incorporam esse tom noir. Eles são dúbios e nada é muito claro em suas intenções.

A série é inspirada no filme noir. Em estética, na fotografia, na paleta de cor. Mas não utiliza todos os códigos do gênero”, explica Manguinha, antes de revelar outra fonte que a minissérie bebe. “A série possui uma estranheza que percorre toda a trama, como em Twin Peaks.” Ou seja, David Lynch tem um papel importante para saber o que esperar de Se Eu Fechar os Olhos Agora.

A trama

Globo/Maurício Fidalgo
O trio formado pelos garotos João Gabriel D’Aleluia (esq.) e Xande Valois (dir.) e o veterano Antônio Fagundes investiga o que estaria por trás do assassinato de Anita (Thainá Duarte).

A história da minissérie é contada por meio das lembranças de Paulo (João Gabriel D’Aleluia/Milton Gonçalves), na fictícia São Miguel. Ao lado do amigo Eduardo (Xande Valois), um Paulo ainda garoto encontra o corpo de Anita (Thainá Duarte) à margem de um lago.

Acusados de um crime que não cometeram, eles percebem que existe um mistério em torno do caso, envolvendo figuras importantes da sociedade de São Miguel, como o prefeito Adriano Marques Torres (Murilo Benício), a primeira-dama Isabel (Débora Falabella), o empresário Geraldo Bastos (Gabriel Braga Nunes) e sua esposa Adalgisa (Mariana Ximenes), além do dentista e marido da vítima, Francisco (Renato Borghi).

Todos mantinham relações obscuras e dúbias com Anita. Por conta própria, os garotos iniciam uma perigosa investigação e acabam conhecendo o enigmático Ubiratan (Antônio Fagundes), que ajuda a dupla, mas seus motivos podem não ser tão altruístas quanto parecem.

“O principal na história não é quem matou Anita, e sim por que existe tanto silêncio em torno do passado daquela mulher”, explica o roteirista Linhares, mostrando mais uma relação com Twin Peaks, que com o tempo revelou que a famosa pergunta “quem matou Laura Palmer” era apenas a ponta do iceberg.

Hipocrisia. Essa é a palavra chave para se desvendar o que se esconde nas sombras de Se Eu Fechar os Olhos Agora. “É uma série que se passa na década de 1960, mas com muita identificação com o que a gente vive hoje. As mulheres da história são muito reprimidas e tentam, a todo custo, sair dessa bolha”, reforça a atriz Débora Falabella.

“Os personagens não revelam quem são logo de cara. Você nunca sabe quem eles realmente são. Isso nos dá uma liberdade muito interessante. Sempre há algo estranho no ar, bem Lynch mesmo”, conta Manguinha.

O produto

HuffPost Brasil
Carlos Manga Jr. dirige a atriz Débora Falabella na minissérie Se Eu Fechar os Olhos Agora.

A minissérie teve sua estreia adiada por conta do Big Brother Brasil, algo que mostra o cuidado com que a Globo tem com a obra. E esse zelo é redobrado atualmente, época em que a TV aberta passou a sentir de fato a concorrência dos serviços de streaming. Porém, nada que intimide seu diretor.

“O streaming é uma realidade irreversível. A TV aberta está tentando entender como é o diálogo com esse mundo novo. [Esta] É uma série com cara de série. Tem apelo ao público fã de séries, mas vai chamar a atenção do público mais tradicional de novelas”, avalia Manguinha.

Base para afirmar isso, Carlos Manga Jr. tem de sobra. Aos 24 anos ele foi um dos diretores da icônica novela Vamp (1991) e, no ano seguinte, de Despedida de Solteiro (1992). Entre final de 2004 até 2007, ele morou em Los Angeles. Em Hollywood, dirigiu atores como Leonardo Di Caprio e trabalhou com diretores de fotografia como John Mathieson (Gladiador) e Christopher Doyle (Amor à Flor da Pele).

“A novela é um exercício diário em uma velocidade peculiar e nos Estados Unidos eu trabalhei com profissionais incríveis, como o Christopher [Doyle], que faz a fotografia de vários filmes do [premiado cineasta chinês] Wong Kar-Wai. Tenho experiência suficiente para encarar esse desafio. Por mais que você seja talentoso, a experiência se ganha com convivência. Me sinto pronto”, reforça o diretor.

Se Eu Fechar os Olhos Agora vai deixar sua marca na TV brasileira? Será um sucesso? Só o tempo dirá. Mas Manguinha está confiante no produto final.

“Muita gente reclamava que a dramaturgia televisiva brasileira se restringia a novelas e a Globo está criando esse diálogo com esse público, mas ele só vai aceitar produtos de qualidade, que vão ganhar o coração do público pela competência”, reflete o diretor. 

“O medo é inevitável, o frio na barriga. Mas tenho confiança no que conseguimos criar. Mas uma coisa eu garanto, nunca se viu uma fotografia como essa na TV aberta brasileira. Não há como prever o sucesso, mas estamos seguros com relação à qualidade da série e isso nos dá muita confiança”, conclui.