LGBT
29/01/2020 13:38 -03

'O fato de não ter seios faz com que tudo mude. Eu me olho no espelho e me vejo como realmente sou'

Tryanda Verenna, idealizador do projeto "Homem Trans BR", conta ao HuffPost Brasil como foi realizar uma masectomia e iniciar processo de hormonização.

Tryanda Verenna, 34, esteve em transição por toda a vida. Aos 31, no entanto, começou um processo bastante importante. “Eu já estava casado e conversei com a minha esposa... Na verdade eu informei né... Coisa do dia pra noite mesmo. Falei: ‘olha eu sou um homem trans’ Ela disse: ‘E?’. Eu continuei: ‘eu já li e pesquisei, falei com Tarso [Brant, ator e modelo trans] e outras pessoas e é isso mesmo. Eu te amo, mas se você achar que é demais pra você eu vou entender’. Ela então me disse: ‘Você pode ser quem você quiser. Eu te amo como pessoa independente de ser homem ou mulher’. Aquilo encheu o meu peito de calma e alegria ao mesmo tempo”, conta.

Daí em diante, o ativista iniciou o complexo - e cheio de protocolos técnicos - caminho de mais uma fase de seu processo de transição. Veja a seguir o depoimento de Tryanda, como foi essa etapa e o que mudou em sua vida após a retirada dos seios e o início da hormonização: 

Arquivo Pessoal
"Costumo dizer que nós homens trans somos privilegiados quando paro e penso nas mulheres trans", diz Tryanda.

 “Eu fiz a mastectomia em julho de 2019 via convênio, não arquei com nenhum custo. O meu procedimento foi feita pelo Dr. André Ventura pelo hospital Presidente que fica na Zona Norte de São Paulo. Como eu levei um tempo pra amadurecer a ideia de retirada dos seios, não senti como uma vitória. Eu sinto como fase do processo. Claro que estou contente e radiante, afinal agora me olho no espelho e me vejo como realmente sou. O fato de não ter seios faz com que tudo mude. A nossa autoconfiança aumenta, a forma com que a sociedade nos enxerga melhora.

Costumo dizer que nós homens trans somos privilegiados quando paro e penso nas mulheres trans. As mudanças para nós são mais rápidas e nos fazem mais ‘passáveis’ para um emprego, para andar de mão dada na rua. Eu nasci de novo com a retirada dos seios e com o processo de hormonização.

[O termo “passabilidade” significa “passar-se por”. É usado para se referir ao quanto um homem ou uma mulher trans “passam por” um homem ou mulher cisgênero. É quase como se uma pessoa trans fosse lida como uma pessoa cis e, por isso, seria aceita socialmente. Já “cisgênero” é o termo que abrange os indivíduos que se identificam, em todos os aspectos, com o gênero atribuído ao nascer em função do seu sexo biológico.]

Comecei o meu processo com 31 anos, mas estive em transição toda minha vida. Algumas pessoas perguntam por que fui me hormonizar tão tarde. Acho que foi no tempo certo. Tive tempo pra me entender como pessoas e pensar nas possibilidades.

Já havia lido que o SUS fazia o tratamento e que havia uma lista de espera. Foi aí que eu pensei: eu tenho convênio e posso fazer por ele. Aí de cara peguei um endocrinologista que até foi bacana, mas disse que não fazia tal procedimento. Passei com um clínico que me mandou fazer uns exames e era só… Pelo convênio, fui em 5 endocrinologista e nenhum teve a boa vontade de me ajudar a iniciar a hormonização por lá... Na verdade acho que era e é ainda por falta de conhecimento.

Pensando que o convênio não era o suficiente, fui tentar a sorte no postinho de saúde perto de casa. Uma vizinha falou para eu pedir para fazer o cartão da Família e passar com a doutora Emanuelle. Assim que cheguei ela foi um doce de pessoa.

Me tratou muito bem, com carinho e atenção. Todos do posto naquele dia foram como anjos. Fiz os exames que a médica pediu, levei pra ela e ela me disse que estava tudo bem. Foi aí que, me sentindo confiante, falei: ‘olha doutora, eu sou um homem trans e sei que SUS faz o tratamento e que eu tenho direito a participar do programa’. Ela me disse que ia se informar sobre e me passar. Uma semana depois, ela recebeu o e-mail da central do SUS como seria todo procedimento.

Eu fiz todos os exames de novo, passei com a psicóloga e fui encaminhado pra doutora Katia, que trabalha no posto da Bonifácio Cubas na freguesia do Ó e vem me dando todo suporte. O processo todo até chegar a ela levou cerca de 2 meses no máximo. Sei que a minha realidade não é a de muitos homens e mulheres trans. Ainda existe muita má vontade dos médicos em passar a informação correta ou ter pró-atividade.”

Procedimento no SUS

Há pouco mais de 10 anos o SUS (Sistema Único de Saúde) passou a oferecer a cirurgia de readequação sexual para pessoas trans. Ao longo da última década, o chamado “processo transexualizador” foi evoluindo e, hoje, tem como objetivo oferecer, além dos procedimentos cirúrgicos, a assistência integral de saúde para toda a população transgênero, incluindo acompanhamento psicológico e a terapia com hormônios.

Ainda hoje, a abrangência do atendimento segue restrita, com apenas 5 hospitais com atendimento cirúrgico e 12 estabelecimentos de saúde habilitados pelo Ministério da Saúde para o acompanhamento ambulatorial direcionado a população trans. Com exceção de Uberlândia, em Minas Gerais, todos ficam em capitais, e o serviço não é oferecido na região Norte.

Mas isso pode mudar em 2020. Tanto a secretaria de saúde do Amazonas quanto a do Paraná têm buscado cumprir as exigências do Ministério da Saúde (MS) para ampliar o atendimento a pessoas transexuais. Se a expansão se concretizar, Manaus será o primeiro município da região Norte a oferecer esse tipo de procedimento cirúrgico na rede pública.