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01/05/2020 01:00 -03 | Atualizado 01/05/2020 12:24 -03

Em meio à pandemia, Ministério da Saúde vira moeda de negociação com centrão

Ao negociar com condenado por corrupção e investigados pela Lava Jato, Bolsonaro coloca nas mãos de partidos fisiológicos mais de R$ 44 bilhões do orçamento de 2020.

EVARISTO SA via Getty Images
Novo ministro da Saúde, Nelson Teich, conheceu seu secretário executivo, general Pazuollo, indicado diretamente por Bolsonaro, dois dias antes de anunciá-lo publicamente. 

Eleito com discurso antiestablishment, Jair Bolsonaro vem conversando com partidos fisiológicos que integram o centrão no Congresso Nacional para oferecer cargos em troca de apoio. De acordo com relatos feitos ao HuffPost por quem participou dessas conversas, o presidente tem repetido que “os ministérios seguirão técnicos, mas o resto está liberado”. Ou seja, poderão ser loteadas autarquias, bancos públicos, portos, agências reguladoras com suas centenas de cargos em comissão. Um ministério, porém, também está no balcão de negócios de Bolsonaro — justamente o Ministério da Saúde, que, em meio à pandemia de coronavírus, entrou no acordo do mandatário com o PL, antigo PR, de Valdemar Costa Neto, preso pelo esquema do mensalão do PT e condenado por corrupção passiva e lavagem de dinheiro.

Com a saída de Luiz Henrique Mandetta do ministério em 16 de abril, veio um desmonte nos cargos de comando de postos importantes na pasta. 

A exoneração do secretário-executivo, João Gabbardo, foi publicada no Diário Oficial da União desta quinta-feira (30). Também já saiu o secretário de Atenção Primária, Erno Harzheim. Também se esperam para breve as exonerações dos secretários de Atenção Especializada, Francisco de Assis Figueiredo, e de Vigilância em Saúde, Wanderson Oliveira. 

Na secretaria-executiva, considerado o cargo número dois no ministério, entrou o general Eduardo Pazuello. Ele foi uma indicação direta de Jair Bolsonaro, de quem recebeu a missão de coordenar a logística da pasta neste momento de crise do coronavírus. 

Conforme relatos de fontes palacianas, a intenção do presidente é que Pazuello sirva como “seus olhos” no ministério e, como um integrante das Forças Armadas, coloque a “casa em ordem”. Ele e o novo ministro, Nelson Teich, se conheceram só dois dias antes de o titular da Saúde anunciar o general como seu suposto braço direito. 

As secretarias da pasta, agora vagas, estão em negociação com o PL. De acordo com interlocutores, Bolsonaro teria pedido ao presidente da sigla para fazer um esforço para encontrar “bons nomes”. Há uma lista no Palácio do Planalto “em avaliação”, contudo, ainda sem resposta. 

Ao ser questionado nesta quinta-feira, em coletiva de imprensa, o ministro da Saúde disse que os nomes para cúpula da pasta foram escolhidos, mas aguardam aval do governo. “Não é nem uma questão de veto ou não, mas uma rotina de avaliação, conforme elas forem chegando, elas vão sendo anunciadas. Tem o Eduardo [Pazuello], o Denizar veio ficar assessor e a gente já tem os nomes definidos que vão entrar. Só que tem de passar por essa rotina de avaliação do governo para eles entrarem. Mas já está definido”, disse.

Denizar Viana deixou o comando da Secretaria de Ciência, Tecnologia e Insumos Estratégicos do ministério para virar assessor especial do ministro. Teich foi sócio de Denizar no MDI Instituto de Educação e Pesquisa.

Na coletiva de imprensa nesta quinta, Denizar disse que a exoneração de Erno Harzheim foi um pedido pessoal do secretário para ficar com a filha recém-nascida em Porto Alegre (RS).

O PL de Valdemar Costa Neto também deve ganhar o Banco do Nordeste. Mesmo sem filiação ao partido no papel, ainda é Costa Neto quem dá as cartas no antigo PR.

Orçamento bilionário em jogo

Ao negociar com o centrão, o presidente Jair Bolsonaro tem colocado quase R$ 44 bilhões de orçamento em 2020 nas mãos do centrão e seus partidos fisiológicos —  tão criticados por ele até aqui.

Órgão negociado - Partido - Orçamento previsto para 2020 

Banco do Nordeste - PL - 112.316.400

DNIT - PL - R$ 8.274.570.764

Dnocs - PP- R$ 998.471.227

FNDE - PP - R$ 29.933.456.570

Funasa - PSD - R$ 2.385.159.489

Codevasf - DEM - R$ 1.508.825.122

TOTAL = R$ 43.212.799.572

Há muitos outros acordos em curso. Valdemar Costa Neto, que sempre comandou o falecido Ministério dos Transportes na era petistas, que de volta seu quinhão por lá. A pasta não existe mais; então se negocia com o DNIT (Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes). 

Dois grandes orçamentos da Esplanada foram para o PP, do senador Ciro Nogueira (PI), que foi investigado pela Operação Lava Jato e denunciado por corrupção passiva e lavagem de dinheiro: o Dnocs (Departamento Nacional de Obras Contra a Seca) e o FNDE (Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação) — a entidade tinha antes um aliado do presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ). 

Outro partido que também terá entrada em ministério, apesar da afirmação de Bolsonaro de que as indicações nas pastas são apenas técnicas, o Republicanos, do pastor Marcos Pereira, negociou uma secretaria no Desenvolvimento Regional, comandado por Rogério Marinho. O MDR é uma peça-chave na distribuição de recursos a municípios. 

De volta ao contexto da saúde, as conversas de cargos em troca de apoio também passaram pelo PSD, de Gilberto Kassab, que escolheu a Funasa (Fundação Nacional da Saúde). O ex-prefeito de São Paulo também é alvo da Lava Jato.

A Codevasf (Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba) é atualmente controlada por um indicado do ex-líder do DEM na Câmara, o deputado Elmar Nascimento (BA). 

Semana passada, Bolsonaro conversou com o presidente da legenda, ACM Neto, numa tentativa de acalmar os ânimos frente às rusgas na relação com o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ). 

Nesta semana, questionado sobre o que achava da aproximação do presidente com os partidos de centro, Maia tentou se esquivar e disse ser legítimo que Bolsonaro tentasse buscar apoio no Congresso. Em contrapartida, em seu discurso no Palácio do Planalto na posse do novo ministro da Justiça, André Mendonça, Jair Bolsonaro colocou o Executivo numa posição de parceria com o Legislativo “para buscar o melhor para o nosso povo”.