10 problemas de saúde mental em crianças que os pais devem ficar atentos na era da covid-19

Psicólogos compartilham conselhos para pais preocupados nestes tempos de incerteza.

Não é segredo para ninguém que a pandemia de covid-19 e as medidas de distanciamento social necessárias para combater a propagação do novo coronavírus estão cobrando um preço da saúde mental dos americanos. Muitos pais aflitos andam preocupados com os efeitos que a crise global pode ter sobre seus filhos agora e no longo prazo.

“Ninguém lida bem com incertezas, e esta crise é muita coisa para nossos filhos processarem. Como nós, nossos filhos estão passando por muitas perdas em sua vida normal neste momento”, comentou a psicóloga Genevieve von Lob, autora do livro “Happy Parent, Happy Child”. Ela destacou que as crianças podem estar tendo dificuldade em se adaptar a muitas das mudanças repentinas em seu cotidiano, sentindo falta de seus amigos e sua rotina normal e preocupadas com os empregos, as finanças ou a saúde física de seus pais.

“Quando crianças ficam estressadas, isso frequentemente se expressa em mudanças fisiológicas e alterações de comportamento e estado de humor”, observou Roin Gurwitch, professor de psiquiatria na Universidade Duke, especializado em saúde mental familiar e infantil. “Infelizmente, não temos um manual de criação de filhos que tenha um capítulo sobre crianças e pandemias, algo que possa nos ajudar a saber para o que devemos ficar atentos em nossos filhos e até em nós mesmos.”

As crianças nem sempre verbalizam suas dificuldades, mas a ansiedade, depressão e outros problemas de saúde mental podem se manifestar de diferentes maneiras. O HuffPost conversou com Gurwitch, Von Lob e outros especialistas para saber mais sobre alguns desses indicadores.

Leia mais para se informar sobre os sinais que podem alertar os pais sobre a saúde mental de seus filhos nesta situação sem precedentes que estamos vivendo. É compreensível que as crianças possam agir de modo inesperado por um período de tempo curto, mas se essas alterações comportamentais ou emocionais se agravarem, persistirem por muitas semanas ou atrapalharem as funções cotidianas de seus filhos, pode ser o caso de buscar ajuda profissional.

1 - Comportamentos regressivos

“Todos, de modo geral, vamos regredir um pouco em nosso funcionamento durante este momento de transição enorme”, destacou o psicoterapeuta Noel McDermott. “As crianças vão regredir mais que os adultos. E quanto menor a criança, maior provavelmente será a regressão.”

Comportamentos que você pensou que seu filho já tivesse deixado para trás podem reaparecer repentinamente. São coisas como chupar o dedo, precisar de um brinquedo especial para lhe dar segurança, fazer xixi na cama ou outros problemas ligados ao desfraldamento.

“A regressão é normal em períodos de estresse e incerteza”, observou Von Lob.

2 - Alterações de apetite

“Alterações no apetite e sono da criança muitas vezes são os primeiros sinais indicativos de que algo não vai bem”, disse a terapeuta infantil Natasha Daniels, criadora do site AnxiousToddlers.com. “Com frequência a criança exibe um aumento ou diminuição aguda de apetite.”

Os pais precisam ficar atentos para modificações nos hábitos alimentares de seus filhos, incluindo a perda de apetite ou o comer excessivo, para se tranquilizar. Essa última alteração é algo que se manifesta frequentemente em crianças mais velhas e teens.

very upset three years old boy looking at the camera wearing a hoodie
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3 - Problemas de sono

“Também podem ocorrer alterações no sono”, observou Daniels. “Se seu filho passar o dia com sono ou, pelo contrário, tiver dificuldade em adormecer ou continuar dormindo, preste atenção.”

As dificuldades no sono são comuns em épocas difíceis, de modo que as crianças podem sofrer insônia, pesadelos, podem acordar no meio da noite ou apresentar outras irregularidades no sono.

4 - Alterações de humor

“Aconselho os pais a ficarem atentos para alterações no comportamento habitual de seus filhos”, disse o psicólogo clínico John Mayer. A mesma coisa se aplica a suas reações emocionais normais. Mudanças de humor são previsíveis.

Os comportamentos para os quais os pais devem ficar atentos incluem explosões de raiva, choro repentino, mau humor, irritabilidade, perda de interesse nas atividades favoritas da criança e isolar-se de outras pessoas.

“Fiquem atentos para mudanças no temperamento habitual de seus filhos, lembrando que o estresse leva o temperamento habitual a se evidenciar ainda mais”, disse o terapeuta Craig A. Knippenberg, autor de “Wired and Connected: Brain-Based Solutions to Ensure Your Child’s Social and Emotional Success”. Ele enfatizou que a ansiedade das crianças normalmente ansiosas vai se intensificar e que crianças que costumam ter dificuldade em controlar sua raiva podem ter acessos de raiva mais frequentes.

As crianças nem sempre verbalizam suas dificuldades, mas ansiedade, depressão e outros problemas de saúde mental podem se manifestar em comportamentos ou estados de ânimo inabituais.

Angry Boy Screaming Against Pink Background
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5 - A criança procura ser tranquilizada

“Quando as crianças estão mais ansiosas que o habitual, podem fazer mais perguntas que de hábito, buscando garantias de que tudo vai ficar bem”, explicou Von Lob. “Os pais podem descobrir que seus filhos ficam mais agitados na hora de ir para a cama e têm medo de ficar sozinhos.”

Crianças e adolescentes podem expressar receios sobre a saúde deles ou de outros, o futuro e até a morte. Um aumento das perguntas preocupadas e da busca de tranquilização muitas vezes é um indicador de ansiedade interna. É importante que os pais estejam presentes para dar a seus filhos aquela tranquilização e um senso de estabilidade.

6 - A criança não quer se afastar dos pais

“Você pode observar a criança ficar mais ‘grudada’ aos pais. Se seu filho te seguir de um cômodo a outro da casa, não quiser que você fique fora de suas vistas ou não conseguir se separar de você, é preciso prestar atenção”, explicou Daniels.

Algumas crianças podem se alternar entre ficar muito coladas aos pais ou rejeitá-los e se isolar de outras pessoas. Essas alterações no comportamento de apego podem ser comuns em situações de incerteza e sofrimento.

“Todos nós vamos ter sentimentos de perda e sentir a necessidade de reafirmar nossos vínculos com nossos entes queridos”, explicou McDermott. “Houve milhões de telefonemas e mensagens trocados com pessoas que talvez não tivéssemos visto havia muito tempo, apenas para checar se elas estão bem. Na realidade, o objetivo é tranquilizar a nós mesmos, certificando-nos de que nós mesmos estamos bem.”

7 - A criança se isola

Na outra extremidade do espectro, algumas crianças podem começar a ignorar seus familiares em casa ou rejeitar a oportunidade de fazer contato virtual com entes queridos.

“Algumas crianças podem ficar mais retraídas e isolar-se no quarto para passar mais tempo com tecnologia e seu telefone”, disse Von Lob.

8 - Somatizações

Enquanto os pais prestam atenção à saúde física da família e ficam atentos para quais sintomas preocupantes de Covid-19, também é possível que o sofrimento emocional das crianças se manifeste no corpo delas.

“As crianças podem se queixar mais de dores de cabeça, dores abdominais e de estarem com menos energia”, explicou Gurwitch. “Esses sintomas são reais, mas é provável que não se devam a nenhuma razão médica.”

9 - Dificuldade de concentração

Crianças mais velhas e teens podem ter dificuldade de se concentrar em tarefas escolares ou podem querer adiar as tarefas, já que se distraem facilmente.

“Elas podem apresentar problemas de atenção e concentração e dificuldade em adquirir conhecimentos novos, algo que vai impactar o ensino à distância”, disse Gurwitch. “Pode ser que a criança se esqueça de concluir uma tarefa que ela vinha fazendo havia algum tempo. Talvez você diga para seu filho completar uma tarefa e ele não consiga se lembrar do que você acabou de lhe dizer.”

10 - Agressividade, rebeldia

“Em tempos de crise, os pais podem observar e avaliar o comportamento de seus filhos. Será que eles estão sendo mais desobedientes que de costume?”, disse Denise Daniels, especialista em desenvolvimento infantil e criadora da The Moodsters, uma marca que trabalha com o fomento da inteligência emocional das crianças.

As crianças podem começar a forçar os limites, a manifestar níveis mais altos de agressividade, desobedecendo instruções recebidas ou entrando em mais discussões com familiares.

“Os pais podem observar mais mau humor, birras ou explosões emocionais, devido ao estresse da situação, somado ao fato de todos estarem convivendo mais estreitamente”, comentou Stephanie Lee, diretora interina sênior do Centro de Autismo e diretora sênior do Centro de TDAH e Transtornos Comportamentais do Child Mind Institute.

Sejam quais forem as alterações comportamentais ou de humor que ocorrerem, é importante que os pais entendam que podem ajudar a nutrir o bem-estar emocional de seus filhos nesta época.

Além de buscar orientação profissional, eles podem fomentar um diálogo aberto com seus filhos, validar os sentimentos destes, corrigir desinformações, exercer paciência, tranquilizar seus filhos, criar rotinas e outras fontes de estabilidade, facilitar a comunicação virtual com amigos e familiares, planejar atividades que possam ser realizadas em segurança ao ar livre e compartilhar oportunidades para ajudar outras pessoas e fazer uma diferença positiva no mundo, mesmo que seja de dentro de sua casa.

“Todas essas alterações comportamentais são comuns durante eventos estressantes como a pandemia de Covid-19, mas isso não quer dizer que não haja nada a ser feito”, disse Gurwitch. “Os pais e responsáveis têm um papel importante a exercer, ajudando seus filhos a se orientarem nessa ‘nova realidade’.”

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost UK e traduzido do inglês.