OPINIÃO
10/07/2019 00:01 -03 | Atualizado 10/07/2019 00:01 -03

Como a ficção nos tornou humanos, dos sapiens aos palhaços

Desde a revolução cognitiva, vivemos em uma realidade que mescla o que há de concreto e imediato com o imaginário.

Vamos a uma breve viagem no tempo: há 70 mil anos, a espécie humana começou a dominar praticamente cada canto do planeta. Os Homo sapiens já tinham nossa aparência atual e eram sensíveis, criativos e inteligentes.

Entre 70 e 30 mil anos atrás, os sapiens criaram formas mais complexas de pensar e se comunicar – o que o historiador israelense Yuval Noah Harari chamou de “revolução cognitiva”, imposta, provavelmente, por mutações genéticas acidentais que provocaram conexões inesperadas no cérebro humano.

Com uma linguagem incrivelmente versátil, os sapiens puderam se organizar em grupos cada vez maiores e trocar informações sobre tribos, caças e pequenas invenções. Mas também partilharam histórias fantásticas, lendas, mitos e deuses. Foi um verdadeiro despertar do imaginário coletivo humano, algo de que nenhuma outra espécie foi capaz!

O surgimento da ficção acompanhou o desenvolvimento dos sapiens e suas civilizações, estabelecendo uma rede de símbolos que, segundo Harari, é o que compõe a cultura humana. Desde a revolução cognitiva, vivemos em uma realidade que mescla o que há de concreto e imediato, como árvores, rios e leões, com o imaginário, que pode abrigar desde deuses mitológicos aos conceitos de capitalismo e democracia. Criamos, assim, um habitát simbólico para nós mesmos.

“Mitos e ficções habituaram as pessoas, praticamente desde o momento do nascimento, a pensar de determinadas formas, a se comportar com base em certos padrões, a desejar certas coisas e a seguir certas regras. Nesse contexto, criaram instintos artificiais que permitiram que milhões de estranhos cooperassem de maneira efetiva. Essa rede de instintos artificiais é o que denominamos ‘cultura’.” 

Yuval Noah Harari em Sapiens — Uma breve história da humanidade(Editora L&PM)

Vamos dar um salto para o mundo contemporâneo e, mais especificamente, para a atuação dos Doutores da Alegria, que nasceram como tal há apenas 28 anos.

Divulgação/Lana Pinho
Interação entre palhaça e criança no Hospital M'boi Mirim, em São Paulo

Quando um artista se usa da máscara do palhaço para fingir ser médico no hospital, atuando com crianças, ele também está usando uma linguagem incrivelmente versátil para mergulhar na ficção de forma coletiva.

A criança internada habita a realidade dura do hospital. O leito que não é seu, o quarto muitas vezes compartilhado com estranhos, os remédios que entram pelas suas veias, os fios, os exames, as dores e os choros. O palhaço traz o mundo ficcional para dentro do hospital e, de repente, uma extração de miolo mole ou um diagnóstico de riso frouxo fazem todo o sentido.

No mês de junho, levamos as festas típicas de São João, um grande símbolo da nossa cultura, para as alas pediátricas de quase 20 hospitais. A intervenção se dá na forma de um cortejo musical seguido de uma apresentação dos palhaços.

Pelos corredores, encontramos crianças e profissionais de saúde enfeitados: trança, roupa xadrez, bigode de mentirinha e chapéu de palha. No teto tem bandeirinha e no chão tem quadrilha.

Naquela celebração coletiva, o mundo da ficção se mistura ao mundo concreto e algo de ancestral toma nossos corpos. Vez ou outra, quando termina o cortejo e a energia baixa, a gente se pega emocionado, elaborando os afetos que trocamos com adultos e crianças.

A máscara do palhaço sai de cena e dá lugar a um rosto humano que traz a sua própria história, seus afetos e símbolos, mas carrega também uma memória e uma ancestralidade que nos conectam como espécie e que explicam muito do que somos e das relações que estabelecemos.

Nego Júnior
A atriz Layla Ruiz pouco antes de se tornar a Dra. Pororoca.

Do encontro entre palhaços e crianças surgem narrativas capazes de criar memórias que atravessam o período de internação – fato que evidenciamos em mensagens de ex-pacientes. Eles nos contam como ressignificaram a doença, como ficaram com lembranças divertidas do hospital e até mesmo como a experiência os influenciou a se tornarem profissionais de saúde. E já que contar histórias está em nosso DNA, não nos furtamos a registrar esses causos em publicações, em vídeos, no Blog e, claro, no teatro.

Terminando a viagem no tempo, que tal refletir sobre as ficções, mitos e histórias que fazem parte das nossas vidas neste momento? Que imagens e símbolos representam genuinamente a nossa cultura? Você se lembra quando algo de ancestral tomou seu corpo e mexeu com as emoções? Conta a sua história, vai.

Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.