Cenário em Santa Elena de Uairén é de total abandono, com comércio desabastecido e sem turistas.
Grasielle Castro/ HuffPost Brasil
Cenário em Santa Elena de Uairén é de total abandono, com comércio desabastecido e sem turistas.
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30/04/2019 08:18 -03 | Atualizado 30/04/2019 08:20 -03

Santa Elena de Uairén, retrato da crise

Cidade venezuelana que já foi ponto de partida para ecoturismo e atraía turistas para compras ganhou ares de cidade-fantasma.

Demorou, mas a crise venezuelana tomou Santa Elena de Uairén, cidade mais próxima ao Brasil, na divisa com Pacaraima, Roraima.

Em 2015, quando o resto do país já enfrentava os efeitos da maior inflação do mundo, em torno de 160%, a região ainda era descrita como um paraíso para compradores compulsivos e fãs de ecoturismo.

Até o ano passado, moradores de Santa Elena relatavam que a realidade na cidade ainda era diferente da Venezuela como um todo. “Se você seguir adiante, há fome”, destaca uma reportagem da Amazonia.org de março de 2018.

Em 2019, no entanto, Santa Elena já é um retrato fiel da crise que fez mais de 30,7 mil venezuelanos migrarem só para o Brasil.

Um dos primeiros afetados foi o free shop, que era um dos principais atrativos da cidade. O antes badalado centro de compras está praticamente abandonado. Com as fronteiras fechadas e a escassez de produtos no país, o movimento acabou. Os brasileiros que eram os responsáveis por fazer Santa Elena lembrar a paraguaia Ciudad del Este sumiram. 

Hoje, o prédio do free shop está fechado e os seus arredores, desertos. A imagem é semelhante em dois dos principais hotéis da cidade. O Anaconda, que já foi um grande hotel de luxo, está fechado. O Garibaldi, no centro da cidade, parcialmente. O cenário, no entanto, é de abandono: As portas estão gradeadas e o restaurante não funciona mais, mas ainda é possível ver poucas pessoas transitando pelo local. 

Reprodução/DutyFree
O free shop de Santa Elena de Uairén, quando ainda era um ponto de atração para brasileiros.

Além de pouso para compradores, os hotéis costumavam ser frequentados por turistas que buscam as belezas naturais da região. Além de ponto de partida para a trilha do Monte Roraima, a cidade é próxima a cachoeiras como as do Jaspe e do Pacheco, na “Gran Sabana”. 

O brasileiro Leandro Freitas, funcionário do governo de Roraima, era um dos turistas atraídos pelos passeios. Ele costumava visitar a cidade, mas diz que faz tempo que não volta. ”É um país lindo, vivia cheio de turistas, mas está se deteriorando.” 

Segundo Freitas, o turismo na região seguia vivo até uns dois anos atrás, mas agora a crise já devastou tudo. “Passei o ano novo de 2017 para 2018 na Ilha de Margarida [situada no mar do Caribe, na costa venezuelana] e os sinais foram tristes. Não tinha comida e era tudo muito caro. Lembro que fiquei assustado porque naquela época decidimos fazer um macarrão e pagamos R$ 33 em meio quilo de carne, uma carne que nem sabemos a procedência”, lembra. 

Em abril de 2016, o funcionário público Sérgio Otávio também esteve em Santa Elena. Pernoitou na cidade para fazer a trilha do Monte Roraima. Ele conta que ficou assustado quando reparou que havia um mercado todo gradeado “como nesses lugares perigosos”, em que as pessoas compravam os produtos por entre a grade.   

“Só que não tinha alimento. Até quando nós saímos do Brasil para fazermos a trilha pediram para que levássemos pasta de dente, essas coisas. No supermercado, tinha gente por toda a extensão da grade, uma fila enorme, parecia briga. O guia nos disse que era só o pessoal fazendo compra.”

Visitantes como Freitas e Otávio já não aparecem com a mesma constância. É difícil ver um brasileiro nas ruas de Santa Elena, que chegou a ter cerca de 30 mil habitantes.

Os restaurantes vazios e supermercados sem clientes traçam um cenário de cidade-fantasma. Pelos muros, sobraram estampados alguns símbolos do chavismo. 

Carlos Garcia Rawlins / Reuters
Santa Elena de Uairén sempre foi ponto de partida para ecoturismo na região.