22/02/2019 00:00 -03 | Atualizado 22/02/2019 00:00 -03

Sandra Santos, a cozinheira que ilumina a vida de mães de jovens infratores no Rio

"Eu cansei de ver mulheres machucadas, desmaiando de fome e cansaço."

Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
Sandra Santos é a 352ª entrevistada do "Todo Dia Delas", um projeto editorial do HuffPost Brasil.

Cozinheira do Centro de Atendimento Intensivo Belford Roxo, no Rio de Janeiro há 25 anos, Sandra Santos, 54, já viu a morte de perto. Diabética, ela entrou em coma quando sua glicose ultrapassou os quatro dígitos, numa escala em que o normal é dois. Quando acordou, sua vida mudou, pessoal e profissionalmente. Era o ano de 2010. E, após se recuperar, escolheu não só não abandonar as panelas que alimentam diariamente os jovens que cumprem medidas socioeducativas no loca, mas percebeu que esse cuidado deveria se estender às suas mães. Assim nasceu a Casa Mãe Acolhedora, local onde ela recebe mulheres e semeia o amor diante das dificuldades do sistema prisional. 

Sair da rua é importante, porque é uma humilhação.
Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
O impacto positivo que causa na vida dessas mulheres é algo que emocionada  Sandra a todo momento.

Evangélica, Sandra toca a casa que é supra religiosa, ou seja, não faz distinção para o acolhimento. Toda quarta-feira, o pequeno imóvel abre as portas, serve café, almoço e realiza também um culto evangélico. Semanalmente, de 30 a 80 mulheres participam da atividade, Mas ela alerta que isso depende da época do mês: quanto mais próximo do dia comum de recebimento de salário, maior a presença.

No primeiro cômodo da casa, ela mantém um espaço aberto, onde é realizado o culto. Na sala, uma mesa com os cadernos de pedido de oração e presença. No quarto, um bazar que empresta e aluga roupas para mulheres que chegam para visitar os internos do Belford Roxo, que fica em frente à casa. Dependendo do lugar que a pessoa senta para assistir ao culto, consegue enxergar as pixações de exaltações a facções criminosas ou que clamam pela liberdade de alguns presos.

A experiência como funcionária do lugar foi fundamental para Sandra atender ao que ela chama de “chamado de Deus” e cuidar dessas mães, que vez ou outra são barradas por causa da vestimenta, por exemplo. “Sair da rua é importante, porque é uma humilhação. Quando ela chega na unidade e não pode usar a roupa que está usando, não como trocar. Eu cansei de ver mulheres machucadas, angustiadas, com fome, desmaiando de cansaço.”

Eu cansei de ver mulheres machucadas, desmaiando de fome e cansaço.
Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
Evangélica, Sandra toca a casa que é supra religiosa, ou seja, não faz distinção para o acolhimento.

No início, Sandra tinha o apoio de mais quatro amigas, e com o passar dos anos mais voluntários foram chegando para ajudar no funcionamento do espaço. Na quarta-feira que a reportagem do HuffPost Brasil visitou o espaço, estava sendo inaugurado o “momento da autoestima”, em que mulheres recebiam cuidados relacionados à pele, cabelo e maquiagem: “Acho importante porque elas sempre falam que o maior sonho é fazer a sobrancelha, mas tirar dinheiro para isso faz falta no orçamento.”  

Enxergar aquelas mulheres, que têm apenas quatro horas semanais para estar com seus filhos, como humanas, é parte fundamental de seu trabalho. E ela observa que, nos últimos anos, as mulheres encontram na Casa um refúgio para acolher suas dores.

A situação dos jovens infratores

As palavras “situação cruel, caos, colapso, precariedade, condições sub-humanas” foram usadas em audiência pública do Ministério Público do Rio de Janeiro (MP-RJ) em 2016, para criticar severamente o sistema de ressocialização de jovens e a superlotação das unidades para menores infratores do Degase (Departamento Geral de Ações Sócio Educativas), no Rio de Janeiro.

Segundo dados do MP, à época, o número chega a 250% em algumas unidades. Não há dados atualizados sobre a questão.

Já pesquisa do CNJ divulgada em 2018, aponta que hoje existem mais de 22 mil jovens internados nas 461 unidades socioeducativas em funcionamento em todo o País.

São Paulo é o Estado com o maior número de menores internados, mais de 6 mil, seguido pelo Rio de Janeiro, em que o número chega a 2 mil.

“Se o tratamento que elas recebem do Estado não é bom, imagine o que os filhos recebem? Se ela é xingada de mãe de bandido, imagine o que ela pensa que não fazem com o filho dela? Ela fica muito mais presa do que o menino. Aqui na Casa, ela tem o seu valor, recebe um abraço, tem uma acolhida. Há mulheres que só têm a única alimentação do dia aqui.Isso reflete lá dentro.”

Se o tratamento que elas recebem do Estado não é bom, imagine o que os filhos recebem?
Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
Nos últimos anos, ela observa que as mulheres encontram na Casa um refúgio para acolher suas dores.

O impacto positivo que causa na vida dessas mulheres emociona Sandra, principalmente por ver que boa vontade e amor ao próximo são os melhores ingredientes para tudo na vida. “Uma assistente social falou para mim que sou a farol daquelas vidas. Eu sou a cozinheira da unidade e tive um olhar de amor para essas mulheres. O Estado tem capacidade financeira e pode fazer, mas a cozinheira ser o farol dentro de um sistema imenso, é muito gratificante.”

Impulsionada pelo reconhecimento da unidade e das mulheres que acolhe, Sandra iniciou a graduação em Serviço Social, depois de flertar com a Psicologia. Prestes a se aposentar, ela conta que quando sair da cozinha, irá continuar trabalhando ali. Sem, claro, esquecer das mulheres que deram à luz aqueles meninos.

“A gente desconstrói também a ideia da mãe culpar o filho por ter que entrar lá. Ele já está pagando pelo que fez, então não é justo jogar mais carga de culpa em cima dele. Esta casa, a cada dia, é uma experiência nova, e me ensinou muito.”

São todos muito bem-vindos, porque queremos acolher a alma, a pessoa, a mulher.
Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
"Custei a entender isso, mas o que importa é fazer o bem.”

O maior ensinamento foi deixar de ser uma “religiosa” apenas, para exercer o amor em sua prática mais verdadeira. Mãe de três filhos, ela conta que a experiência também os aproximou, e agora ela tem mais tempo para cuidar de todos, que apesar de adultos, continuam “debaixo da asa da mamãe”.

A palavra de ordem da sua vida hoje? Generosidade, sem restrição de fé. “Não tem nenhuma restrição religiosa, estamos aqui para acolher. São todos muito bem-vindos. Queremos acolher a alma, a pessoa, a mulher. Todo mundo tem algo que acredita, e acredita no que faz bem. Custei a entender isso, mas o que importa é fazer o bem.”

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Lola Ferreira

Imagem: Valda Nogueira

Edição: Andréa Martinelli

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil e CUBOCC

O HuffPost Brasil lançou o projeto Todo Dia Delas para celebrar 365 mulheres durante o ano todo. Se você quiser compartilhar sua história com a gente, envie um e-mail para editor@huffpostbrasil.com com assunto “Todo Dia Delas” ou fale por inbox na nossa página no Facebook.

Todo Dia Delas: Uma parceria C&A, Oath Brasil, HuffPost Brasil, Elemidia e CUBOCC.