OPINIÃO
27/02/2020 07:30 -03 | Atualizado 27/02/2020 11:34 -03

Não existe outra maneira de tratar 'Salve-Se Quem Puder' senão por novela infantil

Defensores do folhetim das 7, não me “cancelem”: não a critico como se a narrativa infantil e mexicanizada fosse um defeito.

Reprodução/Globo
Deborah Secco, Juliana Paiva e Vitória Strada com a galinha Filipa em "Salve-se Quem Puder". 

Poderia ser uma novela do SBT, não fosse o elenco, repleto de atores conhecidos do grande público, e o aparato que a caracteriza como uma produção global. A trama, o texto, o perfil dos personagens e a interpretação de vários atores de Salve-se Quem Puder remetem às novelas infantis da concorrência. 

Passado um mês da estreia, o Serviço de Proteção à Testemunha e o furacão em Cancun foram diluídos em uma historinha muito aquém do que prometeram seus idealizadores (”uma comédia romântica repleta de ação, suspense e aventura″) e do que o horário das sete da Globo já apresentou de melhor outrora.

Reprodução/Globo
Juliana Paiva na pele da personagem Luna.

Contudo, existe outra característica que reforça a comparação entre Salve-se Quem Puder e as produções sbtianas: o forte apelo melodramático com base no modelo mexicano de novelas. Proposital: nas referências ao México (Cancun é uma das ambientações) e na narrativa. Luna (Juliana Paiva), uma das protagonistas, não é somente meio mexicana, meio brasileira, mas a personificação da mocinha clássica das novelas da Televisa.

A fala de Luna no capítulo de terça-feira (25/02), ao chegar à casa da mãe que ela acredita tê-la renegado no passado, resume o perfil da personagem e o teor de Salve-se Quem Puder: ”Então foi para isso, para morar numa mansão, que ela me abandonou!″ Qualquer semelhança com as heroínas de Verônica Castro, Victoria Ruffo, Thalía e Helena Rojo não terá sido mera coincidência.

A fala da personagem reflete o quão simplista é o texto de Salve-se Quem Puder: toda criança assimila, por outro lado, subestima a inteligência do público adulto. O apelo infantil estende-se ao antropomorfismo de Filipa: a galinha mascote é tratada pelos personagens como se humana fosse, dona de suas ações e sentimentos. Como em qualquer desenho animado.

Reprodução/Globo
A atriz Deborah Secco entre Rafael Cardoso e João Baldasserini. 

A aceitação de Salve-se Quem Puder é ótima: um mês no ar com média de quase 28 pontos no Ibope da Grande SP, um pouco abaixo do primeiro mês de Bom Sucesso, a trama anterior. 

Defensores de Salve-se Quem Puder, não me “cancelem”: não a critico como se a narrativa infantil e mexicanizada fosse um defeito. Esta é a sua proposta, para um público certo, contada em um estilo que seu autor, Daniel Ortiz, conhece bem: ele tem experiência na TV mexicana.

No entanto, eu, que cresci assistindo às novelas cômicas de Silvio de Abreu, Carlos Lombardi, Cassiano Gabus Mendes, Jorge Fernando e Guel Arraes dos anos 80, me ressinto por Daniel Ortiz, também um fã confesso dessas produções, usar tão pouco de suas referências e sucumbir a apelos fáceis para conquistar audiências, com narrativas simplórias e bichos que só faltam falar.

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