LGBT
26/10/2020 02:00 -03

Esta é a minha jornada para 'sair do armário' e me tornar a pessoa que realmente sou

“O caminho nem sempre é bonito, mas é incrivelmente recompensador.”

Courtesy of Addison Rose Vincent
A autora em 2020.

Desde a Marcha pelos Direitos de Lésbicas e Gays, que aconteceu em Washington em 1987, o dia 11 de outubro marca o Dia Nacional da Saída do Armário. O objetivo é aumentar a conscientização sobre as pessoas LGBT e defender a ideia de que “a homofobia prospera no silêncio”.

“Sair do armário” é o processo pelo qual uma pessoa LGBT revela seu sexo, gênero ou sexualidade para outra pessoa. Num mundo em que jovens LGBTs são cinco vezes mais propensos a tentar o suicídio em comparação com jovens heterossexuais, em que 40% dos adultos transgêneros tentaram o suicídio e em que governos continuam a negar ou reverter direitos conquistados a duras penas, é claro que sair do armário ainda é uma decisão radical e importante.

Quando eu tinha 2 ou 3 anos, andava pela casa usando sapatos de salto alto da minha mãe e a camisas regata do meu pai, que para mim eram um vestido, pois eram compridas demais para mim. Sentia atração por coisas femininas: ajudava minha mãe a amarrar suas echarpes e brincava com as joias dela. Ela vendia Lady Remington ― a versão dos anos 90 da joalheria Mary Kay ou dos cosméticos Avon (que minha mãe também vendia!). Eu era sua pequena ajudante, modelando as amostras.

Não achei que tivesse algo errado comigo, mas quando fiquei um pouco mais velho meus pais tentaram me afastar dessas expressões e atividades femininas – para me proteger. Aos 5 anos, percebi que outras pessoas viam algo em mim que eu ainda não tinha entendido muito bem, e muitas vezes fui intimidado por ser muito feminina, muito suave, muito gay.

Courtesy of Addison Rose Vincent
A autora em 1993.

Cresci nos subúrbios de Windsor (Ontário, Canadá) e Detroit. Minha família alternou frequentemente entre os Estados Unidos e o Canadá durante minha juventude, e para mim sempre foi difícil fazer e manter amizades. Felizmente, minha família era rica e tive muitas oportunidades incríveis de educação e atividades extracurriculares. Aos 8 anos, eu estava em um time de beisebol, um time de futebol americano, um time de hóquei no gelo e um time de futebol. Isso me permitiu canalizar minha frustração e negação nas atividades físicas. Tornei-me uma pessoa incrivelmente competitiva e via cada vitória como uma forma de compensar o bullying constante.

Fiquei amigo de um menino chamado Adam, que era do meu time de beisebol. Frequentávamos a casa um do outro, adorávamos trocar cartas de Pokémon e nossas famílias ficaram próximas. Um dia, estávamos nadando na piscina da minha casa e, sem ninguém por perto, fizemos uma brincadeira: revelar nossos corpos um ao outro cada vez que mergulhávamos. Naquele momento, soube que o que diziam de mim era verdade. Fiquei apavorado. Eu sabia o que eu era ― e queria ser qualquer coisa, menos aquilo.

Conforme fui crescendo, lutei com minha identidade sexual (minha identidade de gênero nem era um conceito na minha cabeça naquele momento ― só imaginava que as pessoas pudessem ser heterossexuais, gays ou bissexuais). Sabia que sentia atração por outros meninos, mas me recusei a dar um nome ou a colocar um rótulo nesse sentimento. Também não falei dele para ninguém. Fui estudar numa escola de ensino médio só para meninos em Michigan, onde fui vítima de assédio sexual contínuo e agressões físicas ― às vezes sob o olhar apático do professor de educação física.

Mesmo que meus pais e minha irmã fossem incrivelmente amorosos e receptivos, guardei segredo sobre minha identidade e minhas experiências sexuais porque não sabia como eles reagiriam. Também queria evitar que minha vida em casa ficasse tão tumultuada quanto a da escola. Aos 14, comecei a ter experiências sexuais com outros caras, mas sempre cheio de vergonha e culpa. Tinha a preocupação constante de que alguém me tirasse do armário ou usasse isso contra mim.

Courtesy of Addison Rose Vincent
A autora em 2007.

No verão de 2009, eu estava com 16 anos, quase 17, e estava cansado de me esconder. Estava começando o último ano do ensino médio e sabia que não ficaria em Michigan por muito mais tempo. Naquele ano, matriculei-me em uma aula de inglês focada em Shakespeare, dada por um professor que era gay, segundo os boatos. Ele e minha família já se conheciam: fazíamos trabalho voluntário na mesma igreja.

Quando lemos Romeu e Julieta, chorei pensando em como esses dois personagens tão apaixonados tiveram de esconder seus sentimentos de suas famílias e do mundo. Eles estavam dispostos a fugir, fingir suas mortes e, no fim, realmente morrer só para poder estar com a pessoa amada, pois sabiam que o relacionamento não seria aceito. Eu me enxergava nesses personagens e temia um destino parecido para mim. O professor percebeu que eu estava tendo dificuldades nas aulas e sugeriu que a gente conversasse uma ver por semana para checar meu progresso.

Foi durante uma dessas conversas que comecei a chorar e contei para ele que era gay. Foi muito difícil externar essas palavras, mas assim que o fiz senti um alívio enorme. Finalmente tinha contado para alguém em quem pudesse confiar! Numa estranha reviravolta do destino, naquela mesma tarde reparei num pôster que estava meio escondido atrás de uma estante na sala de aula. Ele dizia: “11 de outubro - Dia Nacional da Saída do Armário!” Chequei o calendário. Era 11 de outubro de 2009. Olhei para o professor, e nós dois sorrimos.

Courtesy of Addison Rose Vincent
A autora em 2020.

No verão seguinte, ainda não tinha contado para mais ninguém, mas meus dois melhores amigos estavam ansiosos para ser os próximos a saber. Um mês depois da formatura, estávamos deitados no quintal da casa de um deles, conversando sobre nossos planos para a faculdade, quando de repente eles perguntaram quando eu finalmente sairia do armário. Fiquei chocado com a pergunta e hesitante em responder, sem saber como eles reagiriam. Mas eles insistiram. Lembro de me sentir brava e frustrada por eles exigirem que eu me revelasse, afinal de contas eu é que enfrentaria as consequências de viver num mundo homofóbico. Mas também entendi que era hora de contar para mais gente – apesar de não me sentir seguro fazendo isso em Michigan.

Procurei vaga em várias universidades da Califórnia, porque achava que o estado era progressista e um lugar seguro (ou pelo menos mais seguro) para ser abertamente gay. Acabei decidindo estudar na Chapman University. No primeiro dia de orientação, quando todos os calouros estavam reunidos perto do estádio de futebol para uma atividade em grupo, umas meninas que conheci quando me mudei para o alojamento me perguntaram: “Você é gay?” Pela primeira vez na minha vida, respondi a essa pergunta ― que sempre me deu medo ― com um sonoro “sim!” De repente, os portões do estádio se abriram e todo mundo entrou correndo. O ano letivo havia começado oficialmente, e um novo capítulo da minha vida junto com ele.

Courtesy of Addison Rose Vincent
Addison no casamento com o marido, Ethan, a mãe (à direita) e a mãe de Ethan (à esquerda) em 2019.

Depois de me abrir para as meninas durante a orientação, passei a contar que era gay para todo mundo que conhecia – imediatamente após conhecer a pessoa. Estava muito empolgado por finalmente conseguir mostrar quem eu realmente era, mas ainda não tinha contado para minha mãe e meu pai ou meus amigos em Michigan. Decidi falar com meus pais durante uma visita deles. Nas semanas antes de eles chegarem, eu estava tão nervoso com o que poderia acontecer que comecei a montar uma “rede de segurança” de recursos e amizades à qual recorreria caso minha família me renegasse. Mas, qualquer que fosse o resultado da conversa, sabia de uma coisa: jamais voltaria para Michigan.

Meus pais chegaram. Mostrei o campus a eles, levei-os a restaurantes que já conhecia e até os apresentei aos meus novos amigos ― vários dos quais estavam hesitantes por medo de me tirar do armário. Foi só no domingo à noite, a última noite em que meus pais estavam comigo, que criei coragem.

Liguei para meu pai e disse que tinha algo urgente para contar a eles. Fui ao hotel onde eles estavam hospedados e sentei na cama. Eles pareciam muito preocupados e, quando na hora de falar, comecei a chorar incontrolavelmente. Mal conseguia pronunciar as palavras “Sou gay”, mas eles entenderam o que eu estava tentando dizer. Meu pai olhou para mim e disse: “Nós já sabíamos e te amamos muito”. Eles me abraçaram e me consolaram, e me fizeram prometer que contaria tudo para eles dali em diante. Compartilhar minha identidade sexual com eles permitiu que nós todos ficássemos mais à vontade para mostrar nossas vulnerabilidades. Desde então, eles vêm me apoiando em cada passo de minha jornada.

Um ano depois, quando estava estudando no exterior, comecei a curtir drag e a aprender mais sobre identidades de gênero, transgêneros (identificar-se com um gênero diferente daquele que lhe foi atribuído no nascimento) e pessoas não-binárias (uma identificação que não se limita aos gêneros binário masculino ou feminino). Liguei para minha irmã e meus pais para contar a eles o que tinha aprendido e como isso fazia sentido para mim. Eles também foram muito compreensivos e me apoiaram nessa jornada de gênero. Quando finalmente me assumi transfeminina não-binária, em 2013, minha família e amigos já entendiam o que eu estava sentindo, porque tínhamos estabelecido uma comunicação honesta, aberta e vulnerável. Então, para eles, foi menos um anúncio formal ou oficial e mais uma confirmação do que tínhamos conversado.

Courtesy of Addison Rose Vincent
Addison com o marido, Ethan, em 2020.

Embora alguns parentes e amigos de infância tenham me rejeitado, muito mais gente me aceita e me celebra por quem eu sou ― por quem sempre fui, mas nem sempre tive as palavras para expressar! E esses têm sido os relacionamentos que valem a pena cultivar.

Hoje, estou casado e feliz com meu melhor amigo Ethan, apoiado por minha família e cercado por uma comunidade que me empodera ― todas as coisas que eu nunca poderia ter imaginado quando era criança enrustida. Também é incrível quantos amigos surgiram desde que saí do armário e quantas pessoas eu conheci porque elas foram inspiradas a elas mesmas se abrir depois de ver uma das minhas postagens nas redes sociais ou um vídeo em que fui apareci.

Ainda assim, minha jornada não terminou quando eu falei da minha orientação sexual ao meu professor de inglês ou quando compartilhei meus pronomes de gênero pela primeira vez com meus pais. Depois de aprender que devemos nos assumir várias vezes para várias pessoas diferentes, sei que estou numa jornada sem fim para voltar a ser quem realmente sou: a pessoa que sempre fui, mas passei muito tempo tentando esconder.

Ainda estou desaprendendo a vergonha acumulada ao longo da minha vida por causa da homofobia e da transfobia tão arraigadas em nossa cultura. Também estou lentamente reencontrando o caminho que a minha criança interior sempre foi destinada, e ainda está ansiosa, para trilhar. O caminho nem sempre é bonito, mas é incrivelmente recompensador e me permitiu conectar comigo mesmo, com meu marido, com minha família e com meus amigos de maneiras mais autênticas.

Espero que minha história, jornada e existência empoderem os outros a também sair do armário. Se você ainda está escondido, saia quando estiver pronto ― não quando outra pessoa achar que você deve fazê-lo, por mais que elas te conheçam muito bem e te amem. E saiba que você não está sozinho, que tem mais apoio do que imagina, que é perfeito do jeito que é e que sua vida é importante. Hoje, estou comemorando você, não importa onde você esteja em sua jornada pela Estrada dos Tijolos Amarelos.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.

Este artigo é de autoria de articulista do HuffPost e não representa necessariamente ideias ou opiniões do veículo. Assine nossa newsletter e acompanhe por e-mail os melhores conteúdos de nosso site.