OPINIÃO
29/07/2019 08:27 -03 | Atualizado 29/07/2019 09:31 -03

Ruth de Souza, a Precursora

Ela veio antes de outras atrizes negras em um Brasil muito mais racista e elitista que o de hoje — e merece ser reverenciada.

Divulgação/TV Globo
Ruth de Souza morreu aos 98 anos no Rio de Janeiro neste domingo (28).

O Brasil precisa reconhecer seus heróis, seus mitos de verdade. Aquelas e aqueles cuja vida é um legado para outros brasileiros.

Ruth de Souza nasceu pouco mais de 30 anos após a abolição da escravidão de um país que não adotou qualquer política pública para os ex-escravos e lançou a condições de miséria e pobreza milhões de negros.

Filha de lavadeira e lavrador, tinha 11 anos quando teve contato com um filme — do Tarzan. Sem mesmo entender o que era, apaixonou-se à primeira vista pela sétima arte.

O sonho da menina negra e pobre do Rio de Janeiro virou fazer cinema.

“Queria ser atriz, mas naquela época não tinha atores negros. Muita gente ria de mim: ‘Imagina, ela quer ser artista! Não tem artista preto’. Eu ficava meio chateada, mas eu sabia que ia fazer; como, eu não sabia”, contou Ruth ao projeto Memória Globo.

Pois a jovem Ruth participou de uma das primeiras iniciativas culturais de resistência dos negros, organizada pelo ícone Abdias do Nascimento, — o Teatro Experimental do Negro (TEN), que descobriu existir por meio de uma revista.

Tornou-se a primeira atriz negra a encenar uma peça no Theatro Municipal do Rio de Janeiro em 1945. Num espaço completamente branco e elitizado, subiu ao palco com O Imperador Jones, justamente como membro do TEN.

Do teatro, foi para as telas de cinema e da TV. Aos 32, foi indicada a melhor atriz no Festival de Veneza por sua participação no filme Sinhá Moça. Concorreu com divas internacionais como Katharine Hepburn. Divas como a que ela se tornou.

“Ela veio antes de todas nós”, homenageou a atriz Taís Araújo pelo Instagram. Em 2004, Taís foi a primeira protagonista negra de uma novela contemporânea da TV Globo — mas 35 anos depois de Ruth ter estrelado A Cabana do Pai Tomás.

“Agradeço por abrir caminhos”, resumiu Adriana Lessa, outra atriz de destaque dos folhetins globais.

Como destacou a jornalista Cristina Padiglione, por décadas Ruth de Souza foi representante única de uma TV sem cotas e representatividade.

Ruth de Souza morreu ontem no Rio de Janeiro aos 98 anos.

Que honremos, portanto, esta precursora, que desbravou o teatro, o cinema e a teledramaturgia, quando nesses espaços quase não havia negros.

Que encantou plateias e audiências com sua diversidade de papéis.

E que inspirou milhões de negros brasileiros, quando a palavra representatividade nem era mainstream.

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