LGBT
09/02/2019 12:58 -02 | Atualizado 11/02/2019 15:39 -02

Por que 'RuPaul's Drag Race' mudou o que é ser drag queen, segundo 3 drags brasileiras

Em fevereiro de 2009, estreava a primeira temporada do reality show que ganhou o mundo.

Divulgação
Lorelay Fox, Ravena Creole e Penelopy Jean explicam como o reality norte-americano mudou a vida de cada uma.
Todos nascemos pelados. E o resto é drag.Ru Paul, na música "Born Naked"

Há dez anos, RuPaul Charles dava o pontapé inicial no que se tornaria o maior programa de televisão LGBT de todos os tempos. A primeira temporada de RuPaul’s Drag Race foi ao ar em fevereiro de 2009. À época, o reality show, que buscou referências de America’s Next Top Model e Project Runway, reuniu nove drag queens na disputa pelo título de honrar de próxima “drag superstar” dos Estados Unidos.

O formato pegou e lá se foram dez anos. Nascido na Logo TV, o maior canal LGBT americano, o programa passou a ser exibido no gigante de entretenimento VH1 em 2017. O show ganhou até um spin off, a RuPaul’s Drag Race: All Stars - hoje na sua quarta temporada - que reúne as drags mais icônicas que passaram pela passarela da “Mama Ru” para uma nova disputa pela coroa. 

Reprodução/LogoTV
A primeira temporada de RuPaul’s Drag Race foi ao ar em fevereiro de 2009 na Logo TV.

E o sucesso é tanto que, em 2018, o programa venceu pela terceira vez consecutiva o prêmio de “Melhor Apresentadora de Reality Show” no Emmy Awards. A décima primeira temporada da corrida original, com um time de 14 rainhas inéditas, estreia no dia 1º de março de 2019.

É claro que o Brasil não ficaria de fora do febre que virou a Drag Race. Por aqui, o reality também virou uma paixão e os fãs brasileiros marcam presença nas redes sociais das drags favoritas de cada temporada. 

O programa também mudou a cena drag local e é considerado um “divisor de águas” por algumas artistas brasileiras. 

Mike Blake / Reuters
Em 2018, o programa venceu pela terceira vez consecutiva o prêmio de “Melhor Apresentadora de Reality Show" no Emmy.

Em conversa com o HuffPost Brasil, as queens Penelopy Jean, Lorelay Fox e Ravena Creole comemoram os 10 anos de Drag Race e contam como o programa mudou suas vidas.

“O programa fez surgir uma nova geração de drags” 

Arquivo Pessoal
Penelopy Jean afirma que foi o reality show comandado por RuPaul o responsável por mudar a sua vida.

Há dez anos a drag queen Penelopy Jean começava a nascer na cidade de São Paulo, pouco antes do primeiro episódio de RuPaul’s Drag Race ir ao ar nos Estados Unidos. Tudo começou em tom de brincadeira, para marcar presença em festas da noite paulistana, conta o criador de Penelopy, Renato Ricci, 32 anos. Natural de Poços de Caldas, Minas Gerais, Ricci conta que foi o reality show americano que mudou a perspectiva sobre aquilo que fazia apenas por hobby.  

“Comecei a ver o programa na segunda temporada, em 2010. Tinha um blog que disponibilizava os episódios com legenda em português.  E foi o que me fez realmente ver que era possível trabalhar com isso e ser um artista drag. Aquilo acendeu uma chama”, afirma.

No ano seguinte, passou a trabalhar como DJ e drag queen no circuito de baladas pop da cidade. As performances vieram na sequência, junto com sua consolidação como cover de Lady Gaga. O encontro com Gaga veio por acaso, em uma festa em tributo a outra diva do pop, Madonna. “Fiz uma maquiagem e um look e todo mundo começou a me chamar de Lady Gaga na festa. Isso me despertou para essa possibilidade. Comecei a pesquisar melhor a caracterização e fazer shows como cover dela em 2012”, conta. 

E também me fez ver que eu poderia ir além, buscar as minhas referências para construir a minha personagem.

A carreira de Penelopy vem se consolidando desde então. Hoje ela apresenta, ao lado das drags Rita von Hunty e Ikaro Kadoshi, o programa Drag Me As a Queen, do canal E!, que estreia da segunda temporada no dia 18 de março. No ano passado, também foi jurada do programa Canta Comigo, da TV Record. “Se alguém me dissesse naquela época, ‘daqui a um tempo você vai estar na TV como drag’, eu ia dar risada. Era algo muito distante”, afirma Ricci.  

Para ele, foi o reality show comandado por RuPaul o responsável por mudar a sua vida. “O programa fez surgir uma nova geração de drags e transformou a cena drag no Brasil. E também me fez ver que eu poderia ir além, buscar as minhas referências para construir a minha personagem”, diz o artista.

“Foi fazendo drag que perdi a timidez” 

HuffPost Brasil
Ravena faz diversos trabalhos e considera que a cultura drag ultrapassou barreiras, e também é valorizada fora da comunidade LGBT.

Quando começou a montar um visual poderoso, com direito a peruca, maquiagem e muita atitude, para frequentar as festas da noite carioca,  o maquiador Robson Dinair não sabia que fazia drag. “A gente botava uma roupa, maquiagem, uma peruca. Era uma coisa meio carnaval. Depois que conheci RuPaul que percebi ‘ah, isso que eu faço é drag’”, conta.

Ele tem 31 anos, nasceu em Feira de Santana, Bahia e mora no Rio de Janeiro desde os 17 anos. Em 2014 concebeu sua persona, a drag queen Ravena Creole. Quando a Drag Race estourou no Brasil, mudou sua relação com aquilo que até o momento fazia apenas por diversão.

“Foi a partir desse momento que comecei a pensar em fazer drag profissionalmente. No começo era só por diversão, nem pensei que isso poderia virar o meu trabalho como é hoje em dia. Hoje esse é o meu trabalho”, diz. Também foi em 2014 que, com um grupo de drags iniciantes, criou o canal Drag-se TV, no Youtube.

O drag saiu do nicho da boate e está atingindo outros locais que antes não chegava.

“Foi fazendo drag que perdi a timidez e descobri vários aspectos sobre mim que eu nunca descobriria”, conta. Para a artista, o reality show também foi capaz de transformar a cena drag que já existia na cidade. “O cenário que já existia antes no Rio de Janeiro, que já era forte, cresceu. Era mais underground, não chegava a ser mainstream como RuPaul. Foi Rupaul que abriu as portas para o pessoal conhecer o que é ser drag”, afirma.

Hoje Ravena faz diversos trabalhos e considera que a cultura drag ultrapassou barreiras, e também é valorizada fora da comunidade LGBT. “Eu faço casamento, formatura. Um monte de coisas. Esse boom todo deu uma visibilidade maior para o nosso trabalho. O drag saiu do nicho da boate e está atingindo outros locais que antes não chegava”, diz.

Ravena vê com bons olhos que cada vez mais pessoas passem a fazer drag. “A gente percebe que logo após toda temporada de RuPaul começam a surgir novas drags, elas se inspiram e isso tá renovando a cena o tempo inteiro. Tem também grandes nomes de drags nacionais e isso ajuda a manter essa cultura consolidada”, comemora.

“Hoje em dia as pessoas voltaram a querer ser drag”

Tricia Vieira/Divulgação
Para Lorelay Fox, o seriado foi um "divisor de águas". 

Lorelay Fox acompanhou de perto toda a transformação que o reality show trouxe para a cena drag de São Paulo. Hoje jurada do programa Superbonita, do canal GNT, e com mais de 500 mil inscritos em seu canal no Youtube, ela conta que viu a cena drag da sua cidade natal Sorocaba, no interior do estado, nascer e morrer, ao longo dos seus primeiros dez anos de performance.

Por trás de Lorelay, está o publicitário Danilo Dabague, de 32 anos. Para ele, foi o programa de RuPaul que deu um novo fôlego para o movimento. Como eu me monto muito tempo antes do programa, eu vi muito essa transformação. Eu tenho certeza absoluta que fez toda a diferença para todo o movimento drag que a gente está vendo agora, de Pabllo [Vittar], de Gloria Groove, foi o Rupaul que trouxe isso”, afirma.

O seriado mostra como é a realidade, o dia a dia por trás das personagens.

Dabague considera que o show tem motivado toda uma nova geração de drag queens. “Mesmo dentro do meio LGBT a gente não tinha aceitação que tem hoje. Hoje em dia as pessoas voltaram a querer ser drag, coisa que 5 anos atrás não se via, tinha muito preconceito. E foi sem dúvida o seriado que abriu portas para as pessoas olharem pra drag com uma visão artística”, diz.

A humanização dos artistas que estão por trás das personagens é vista como um dos pontos chaves para a popularização do show. “O seriado mostra como é a realidade, o dia a dia por trás das personagens. Isso trouxe uma visão de encantamento muito grande. Tanto é que eu viajo o Brasil inteiro fazendo palestras e shows e consigo ver a nova onda de drags que está surgindo por causa do seriado. Então, sem dúvida, foi um divisor de águas.”

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