03/03/2019 00:00 -03 | Atualizado 03/03/2019 00:00 -03

Rose Marcondes, a presidente da mais antiga escola de samba em atividade de SP

Neta dos fundadores da Lavapés faz de sua casa a sede da escola e briga para manter a essência das rodas de samba no Carnaval paulistano.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Rosemeire Marcondes é a 361ª entrevistada do "Todo Dia Delas", um projeto editorial do HuffPost Brasil.

“Tudo eu que dou o aval”, explica enquanto responde uma dúvida do marido, vice-presidente da escola de samba Lavapés, que passa apressado pela sala de casa. Depois, ajeita com cuidado um dos chapéus da bateria e avisa que mais tarde tem que sair para buscar umas partes de fantasias. Vai ser um dia de muita correria. Rosemeire Marcondes, 51 anos, é a atual presidente e neta da fundadora da agremiação. Desfilou pela primeira na Lavapés quando criança, deveria ter uns 8 ou 9 anos. Desde então, nunca mais deixou de viver o Carnaval, o samba e essa escola. Fundada em fevereiro de 1937, é considerada pela Uesp (União das Escolas de Samba Paulistanas) a mais antiga ainda em atividade da cidade. Hoje, a escola, que já ganhou mais de 20 títulos, acontece na casa de Rose. Literalmente.

Em cima da cama de um dos quartos estão as fantasias da comissão de frente. No cômodo do meio, que seria uma área de almoço e jantar da família, alguns troféus encostados no canto, quadros e outros prêmios na parede, máquina de costura bem no meio e armações do que parece ser uma coroa, peça de alguma fantasia, espalhadas pelas mesas de plástico. No fundo da casa está guardado tudo que já está pronto. Neste ano, o tema é “Pernambuco multicultural, festa de um povo feliz”. E assim a escola tem vivido há muitos anos. Desde que perdeu a quadra da agremiação, Rose cedeu a própria casa para abrigar o que pode da produção. “A escola passou a andar comigo. Para onde eu ia, a escola tinha que ir. Cheguei a morar em dois apartamentos e a montar a escola em apartamento e isso prejudica, os vizinhos não gostam. Mas estamos aqui”.

Nunca parei porque Lavapés é uma escola de resistência, resiste a tudo que passou, 80 anos é muita coisa.
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Ela assumiu a presidência no final da década de 90 quando sua avó faleceu e, junto com isso, o desafio de erguer a escola.

Mas não foi sempre assim. No início, a Lavapés chegou a viver momentos grandiosos e de sucesso. Fundada pelos avós e pelo tio de Rose, sempre foi sua avó, Madrinha Eunice, que comandava tudo. Após se apaixonarem pelo carnaval que viram na Praça 11, no Rio de Janeiro, em 1936, resolveram fundar um grupo em São Paulo e assim nasceu a escola. “Começou bem, veio num bom auge, nos anos 50 e 60 era a escola de samba melhor de se ver, era uma escola de vitórias, muita gente, muito público, muitos presidentes [de outras escolas] que saíram daqui”, lembra.

No entanto, depois que sua avó começou a ficar doente, a agremiação entrou em declínio e foi, aos poucos, caindo de grupo. Mas isso nunca interrompeu carnaval nenhum para Rose. Depois de passar pela ala mirim das baianas, ala das crianças, sair como passista, rainha de bateria e como intérprete de samba enredo, ela assumiu a presidência no final da década de 90 quando sua avó faleceu e, junto com isso, o desafio de erguer a escola. “Nunca parou, nunca deixou de desfilar, nunca deixou de curtir e está aqui até hoje. Chegamos no último grupo, perdi a quadra e é difícil agregar as pessoas dentro de uma casa, mas cheguei a levantar a escola, ficamos uns bons 10 anos no grupo 2, consegui fazer isso”. E Rose defende a importância dessa memória, que aprendeu com sua avó, por quem foi criada a vida inteira. “As pessoas veem só o hoje, esquecem que essas escolas antigas existem e fazem um trabalho. E a história é essa. Vivemos momentos muito enérgicos, fomos criados no mundo de samba, de festa e sempre com rodas de samba dos mais velhos e a gente acabou se apaixonando pelo samba e estamos até hoje”.

A escola passou a andar comigo. Para onde eu ia, a escola tinha que ir. Cheguei a morar em dois apartamentos e a montar a escola em apartamento.
Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
A dedicação é tanta, que ela coloca o seu dinheiro ali, assim como fazem seu marido, seus filhos e diversos amigos que apoiam a agremiação.

Talvez esse seja o segredo para conseguir colocar a escola na rua, sempre, mesmo com dificuldades. Neste ano, são 400 integrantes e um carro alegórico. O que não diminui em nada o esforço e empenho de Rose. E sua atuação vai além da de apenas presidir e “dar o aval para tudo”. Ela faz o que precisar. “Corto, costuro, normal. Até gosto desse agito porque ser presidente não é só ficar vendo, tem que colocar a mão na massa, eu acho legal isso, eu gosto disso. Gosto de estar junto com todo mundo. Ou vamos todos juntos ou não vamos”. 

Na casa de Rose, todo mundo vai. Tanto que além dela e o marido, que está na diretoria, todos os seis filhos também atuam. Um deles, de pé torcido e andando de muleta, já fazia os planos com a mãe para ver como ia desfilar. Porque não estar na avenida não é uma opção para ninguém ali. Mesma situação de Rose. Com dores no nervo ciático caminha devagar e diz que neste ano deve sair no cantinho da escola, mas estará lá, sem falta. Em geral, gosta de sair perto da bateria, “o coração de qualquer escola”.

E seguem assim, conciliando a rotina corrida do carnaval com outros trabalhos, porque tem isso ainda. Apesar da paixão, Rose não vive do samba. “Sou cozinheira no dia a dia, mas me dedico mais ao samba, mas não vivo dele. A verdade é que a escola é que vive de mim [risos]”. Ela coloca o seu dinheiro ali, assim como fazem seu marido, seus filhos e diversos amigos que apoiam a agremiação.

Corto, costuro, normal. Até gosto desse agito porque ser presidente não é só ficar vendo, tem que colocar a mão na massa. Gosto de estar junto com todo mundo. Ou vamos todos juntos ou não vamos.
Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
"Essa é a essência que não podemos perder. Nós fazemos Carnaval”.

Mas tudo bem. Faz porque gosta. Faz porque para ela, é mais do que uma festa de quatro dias ou algumas horas de desfile. É muito mais do que isso. “O carnaval é uma coisa maravilhosa, aprendi isso. É uma das melhores festas do planeta. É uma diversão para o povo, para o público, é um momento para descarregar tudo, viver, curtir e brincar de uma forma construtiva, bacana e familiar. Acho que é uma grande família onde todo mundo se diverte junto, seja do mais velho ao mais novo”. E, para completar, tem o amor pelo samba. “Gosto do samba de modo geral. Sou presidente da Lavapés, mas gosto de todas as escolas de samba, cada uma com o seu jeito, com o seu batuque, eu gosto disso”.  

Por isso se dedica dessa forma e, além de todo o trabalho duro, ainda está disposta a ajudar qualquer um que precise. “Ajudo outras escolas, se está faltando gente, ligam para cá, pedem e juntamos um pessoal e vai porque é Carnaval! Essa é a essência que não podemos perder. Nós fazemos Carnaval”.

O carnaval é uma coisa maravilhosa. É uma das melhores festas do planeta, é uma grande família onde todo mundo se diverte junto, seja do mais velho ao mais novo.
Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Rose admite que, apesar do clima de festa, às vezes pensa em parar diante de tantas dificuldades.

E, por causa disso, espera que a essa festa continue sendo cada vez mais valorizada. “Acho que os órgãos públicos tem que defender esse trabalho cultural, porque isso é uma coisa nossa, do nosso país, do nosso Brasil e temos que defender não só o teatro, a ópera e o cinema, mas o samba, a roda de samba, tem que ter uma defesa da nossa cultura popular brasileira e o Carnaval é isso”. 

Faz a sua parte. Mas admite, apesar do clima de festa, que às vezes pensa em parar. Continuar assim, sem incentivo e apoio é difícil. Reconhece toda a trajetória e a memória de sua avó que está ali em cada detalhe. Mas sabe também que tudo tem seu tempo. “Esse ano eu pensei em parar e estou bem séria com isso se as coisas não chegarem como eu quero. Nunca parei porque Lavapés é uma escola de resistência, resiste a tudo que passou, 80 anos é muita coisa e ele resistiu a tudo, não é justo, mas se eu não levar da forma que eu quero é melhor parar. E seu eu parar, paro em paz”.

Isso porque Rose aprendeu que pode até tirar o bloco da rua. Mas o samba - e o legado - não acabam e não morrem nunca.

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Ana Ignacio

Imagem: Caroline Lima

Edição: Andréa Martinelli

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil e CUBOCC

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