MULHERES
17/01/2020 02:41 -03 | Atualizado 17/01/2020 02:42 -03

'Operação Abafa': Leia trecho exclusivo do livro de Ronan Farrow sobre caso Harvey Weinstein

Farrow foi um dos jornalistas responsáveis por revelar o escândalo sexual na indústria cinematográfica americana; Livro chega às livrarias brasileiras nesta sexta (17).

Reuters/Montagem/HuffPost
Harvey Weinstein (à esq), é acusado por Ronan Farrow (à dir), em livro, de criar uma rede de fontes falsas e de levantar informações falsas sobre jornalistas para barrar investigações sobre assédio sexual em Hollywood.

“Quando eu me preparava para sair, aquele encontro de repente virou algo que não era mais uma reunião. Essas coisas acontecem muito rápido e muito devagar. Acho que qualquer outra sobrevivente diria a mesma coisa... de repente, sua vida dá uma volta de noventa graus na outra direção. É um abalo muito forte.”

O depoimento acima foi dado pela atriz Rose McGowan, 46, uma das primeiras celebridades a denunciar abusos sexuais cometidos pelo produtor veterano de Hollywood Harvey Weinstein, 67, ao jornalista Ronan Farrow.

Farrow publicou, em 2017, na revista The New Yorker, (assim como Jodi Kantor e Megan Twohey no jornal The New York Times) depoimentos que jogaram luz sobre o maior escândalo sexual da indústria cinematográfica norte-americana ― envolvendo mais de 80 vítimas ―e impulsionaram o movimento Me Too (“Eu também”, em tradução para o português). 

Quase três anos depois, no mesmo momento em que o julgamento tão esperado de Weinstein tem início em Nova York, o livro em que Farrow narra os bastidores da reportagem que revelou casos de estupro e assédio do produtor chega às livrarias brasileiras nesta sexta-feira (17).

Brad Barket/Invision/AP
O jornalista Ronan Farrow, que conhece o universo de Hollywood de perto por ser filho do diretor Woody Allen e da atriz Mia Farrow.

Em Operação Abafa - Predadores Sexuais e a indústria do silêncio (Todavia, 2020), Farrow narra ao leitor como o “boato” que tinha em mãos se transformou em uma reportagem ― que, se não fosse real, poderia ser o roteiro de um filme dramático de Hollywood ― e que ela são é só sobre violência sexual, mas também sobre uma rede de silenciamento que se estendeu até quem tentava investigar profundamente o magnata de Hollywood. 

Ele conta que, Weinstein, a par da apuração de Farrow e temendo a repercussão que teria caso a reportagem fosse publicada, contratou detetives para seguir o jornalista, implantou fontes falsas e fez uma série de ameaças. Farrow chegou a alugar um cofre no porão de um banco onde depositava as gravações, contatos de fontes e anotações da apuração com um bilhete: “caso algo aconteça comigo, faça essa história ser publicada”.

Uma das principais peças desse quebra-cabeça foi Rose McGowan. A atriz tinha 23 anos quando Weinstein a convocou para uma reunião de trabalho a ser realizada em um restaurante, mas depois foi transferida para o quarto de hotel do produtor. Ao fim de meia hora de conversa, Weinstein a despiu e a obrigou a fazer sexo oral nele. Após o escândalo vir à tona, McGowan escreveu o livro Coragem (Harper Collins, 2018) e processou novamente Weinstein por tentar invalidar sua acusação de estupro.

RW/MediaPunch/IPx
Rosanna Arquette (à esq.) e Rose McGowan (ao centro) participam de ato no primeiro dia do julgamento de Harvey Weinstein, em Manhattan, Nova York. 

“McGowan disse que falou com uma advogada criminalista e que pensou em denunciar Weinstein à justiça. A advogada a mandou calar a boca. ‘Ela disse que eu tinha feito uma cena de sexo num filme’, ela lembrou. ‘Ninguém acreditaria em mim.’ McGowan optou por não prestar queixa. Em vez disso, negociou um acordo financeiro. Ao assiná-lo, perdeu o direito de processar Weinstein. ‘Foi muito doloroso’, ela disse. ‘Na época, eu pensava que 100 mil dólares era um monte de dinheiro. Eu era uma criança.’”, conta Farrow, em Operação Abafa.

Segundo Farrow, McGowan acreditava que, após o incidente descrito acima, tinha sido colocada em uma espécie de “lista negra” dos produtores de Hollywood, justamente por não concordar com os termos sexuais em que os acordos pareciam ser firmados. “Depois disso, trabalhei em pouquíssimos filmes. E eu estava num ótimo caminho profissional”, ela relata a Farrow.

ASSOCIATED PRESS
Megan Twohey (à esq.), Jodi Kantor (no centro) e Ronan Farrow (à esq.) posam para foto após receberem o prêmio Pulitzer de jornalismo de serviço à sociedade -- por jogar luz sobre o maior escândalo sexual da indústria cinematográfica.

Enquanto Weinstein foi demitido da produtora que ele mesmo havia ajudado fundar, a “The Weinstein Company”, e expulso de organizações renomadas do universo cinematográfico norte-americano, no início de 2018, os repórteres do Times e da New Yorker receberam o Prêmio Pulitzer pelo serviço público prestado à sociedade. O livro de Jodi Kantor e Megan Twohey, Ela Disse: Os bastidores da reportagem que impulsionou o #MeToo, foi publicado no Brasil em 2019.

No último dia 6 de janeiro, teve início o julgamento do ex-magnata de Hollywood. Mesmo com a gravidade e proporção do caso, Weinstein será julgado apenas por dois casos mais recentes ― considerando que os demais crimes, cometidos entre os anos 80 e 90, já prescreveram. A sentença, que pode chegar a 20 anos de prisão ou até a prisão perpétua, pode demorar cerca de dois meses para ser dada.

Divulgacão
Capa de "Operação Abafa", de Ronan Farrow, lançado no Brasil nesta sexta-feira (17).

Leia trecho de Operação Abafa - Predadores Sexuais e a Indústria do Silêncio:

A casa de Rose McGowan era o modelo arquetípico de uma casa de estrela de cinema: um conjunto de caixas cor de bronze, em estilo Mid-Century Modern, empilhadas nos fundos de um bosque de ciprestes no alto das colinas de Hollywood. Do lado externo, um amplo terraço com banheira de hidromassagem e vista panorâmica de Los Angeles. Por dentro, a decoração quase sugeria um propósito de revenda da casa: nenhuma foto de família, apenas peças de arte.

 

Próximo à porta ficava um antigo letreiro em neon recuperado, em formato de chapéu-coco derby, com os dizeres “o derby: entrada das damas”. Não muito longe, num lance de escadas que dava para a sala de estar, na parte superior, um quadro de uma mulher numa gaiola, banhada por luz. Ao lado de uma lareira de tijolos brancos, na sala de estar, um modelo em bronze do personagem de McGowan no filme Planeta Terror apontava sua perna de metralhadora.

 

A mulher diante de mim não era a mesma que eu conhecera sete anos antes. Ela parecia abatida, e havia uma rigidez estampada no seu rosto. Estava quase sem maquiagem e vestia um suéter bege folgado. Cabelo raspado em estilo militar. Tinha quase abandonado a carreira de atriz por outra na música. Às vezes essa música vinha acompanhada por vídeos performáticos e surrealistas dela mesma. Dirigiu um curtametragem, Dawn, que foi exibido em Sundance em 2014. No filme, que se passa por volta de 1961, dois jovens atraem um adolescente reprimido para uma área isolada. Lá eles o golpeiam na cabeça com uma pedra e depois o matam a tiros. 

 

McGowan teve uma infância difícil. Cresceu no culto “Meninos de Deus”, no interior da Itália, onde as mulheres eram ásperas e os homens eram brutais. Um desses homens, ela me contou, cortou uma verruga de seu dedo, sem nenhum aviso, quando ela estava com quatro anos de idade, e depois a deixou, atordoada e sangrando. Por um tempo, durante a adolescência, ela viveu como sem-teto. Quando começou a ficar famosa, em Hollywood, pensou que tinha deixado para trás o risco de abusos. Disse que, certa vez, durante o Festival de Cinema de Sundance de 1997, pouco antes do ataque de Weinstein, ela se virara para um grupo de câmeras que a seguiam e dissera, “Acho que finalmente cheguei na vida mansa”. Na sala de estar, diante das câmeras, ela contou que seu agente havia marcado a reunião em que o suposto ataque ocorreu, e que o local do encontro fora mudado repentinamente, do restaurante do hotel para uma suíte. Relembrou como foi a primeira hora, bem normal, com o homem que ela conhecia apenas como seu chefe. Contou dos elogios dele à sua performance em Pânico, filme que ele produziu, e em outro, Fantasmas, que ela ainda estava filmando. Então chegou à parte principal da história, uma parte que — era visível — ainda mexia muito com ela.

 

“Quando eu me preparava para sair, aquele encontro de repente virou algo que não era mais uma reunião”, disse. “Essas coisas acontecem muito rápido e muito devagar. Acho que qualquer outra sobrevivente diria a mesma coisa... de repente, sua vida dá uma volta de noventa graus na outra direção. É — é — um abalo muito forte. E o cérebro quase não consegue acompanhar o que acontece. De repente, você está nua.” McGowan tentava manter a compostura. “Eu comecei a chorar. Não sabia mais o que estava acontecendo”, ela recordou. “E eu sou muito pequena. A outra pessoa é muito grande. O resto você pode imaginar.”

 

“Foi uma agressão sexual?”, perguntei.

 

“Sim”, ela disse apenas.

 

“Foi um estupro?”

 

“Sim.”

 

McGowan disse que falou com uma advogada criminalista e que pensou em denunciar Weinstein à justiça. A advogada a mandou calar a boca. “Ela disse que eu tinha feito uma cena de sexo num filme”, ela lembrou. “Ninguém acreditaria em mim.” McGowan optou por não prestar queixa. Em vez disso, negociou um acordo financeiro. Ao assiná-lo, perdeu o direito de processar Weinstein. “Foi muito doloroso”, ela disse. “Na época, eu pensava que 100 mil dólares era um monte de dinheiro. Eu era uma criança.” Ela considerou a oferta, por parte dele, “uma confissão de culpa”.  McGowan começou a descrever um sistema — composto de assistentes, agentes e bambambãs da indústria cinematográfica — ao qual ela, com raiva, acusou de cumplicidade. Contou que os funcionários evitaram fazer contato visual quando ela entrou na reunião e depois quando saiu. “Não conseguiam nem olhar pra mim”, falou. “Ficaram encarando o chão, aqueles homens. Não conseguiam sequer me olhar nos olhos.” Também lembrou do momento em que, após o incidente, encontrou o ator com quem coestrelou Fantasmas, Ben Affleck. Viu-a naquele estado claramente confuso e disse, “Puta que pariu, eu já falei pra ele parar de fazer isso”.

 

McGowan acreditava que, após o incidente, fora colocada numa “lista negra”. “Depois disso, trabalhei em pouquíssimos filmes. E eu estava num ótimo caminho profissional. Quando finalmente fiz outro filme — foi vendido para Weinstein na parte da distribuição”, disse, referindo-se a Planeta Terror. Na experiência de qualquer sobrevivente, as memórias viram fantasmas. Para aqueles cujos agressores são famosos, existe o sentimento adicional do inescapável. “Era só abrir o jornal”, McGowan disse, “e lá estava Gwyneth Paltrow dando [um] prêmio a ele.” Weinstein era “onipresente”. Ainda por cima, houve os tapetes vermelhos e festinhas de imprensa, onde ela teve que posar ao lado dele, sorrindo. “Naqueles momentos, tive a sensação de sair do meu corpo de novo”, contou. “Grudei um sorriso falso no rosto.” A primeira vez que o viu após o suposto ataque, ela vomitou numa lata de lixo.

 

Diante das câmeras, McGowan ainda não pronunciava o nome de Weinstein. Ela ainda estava tomando coragem. Mas deixou pistas ao longo da entrevista e pediu que os telespectadores “ligassem os pontos”. “Harvey Weinstein te estuprou?”, perguntei. A sala ficou num silêncio sepulcral. McGowan fez uma pausa. “Jamais gostei dessa palavra”, ela disse. “Não gosto nem de pronunciá-la.”

 

Em off, comigo, ela já havia pronunciado o nome de Weinstein. Disse-me que, em parte, sua preocupação era ter certeza de que alguma rede de notícias iria até o fim com a pauta, caso ela caísse em maus lençóis legais. Respondi com franqueza: aquele seria um processo legal bastante difícil na NBC. Eu precisaria de cada detalhe que ela pudesse me dar. “Me garanta que os advogados vão assistir a essa entrevista”, ela me pediu. “Ah, eles com certeza vão assistir”, respondi, dando uma risada maldosa. “Mas eles precisam assistir”, ela disse, fitando a câmera com lágrimas nos olhos. “Não apenas ler. Espero que também tenham coragem. Vou te dizer por quê: o que aconteceu comigo, aconteceu com a filha deles, a mãe, a irmã deles.”

Operação Abafa - Predadores sexuais e a indústria do silêncio

Lançamento: 17 de janeiro de 2019

Preço: R$ 59,90 (págs. 464); ebook R$ 39,90

Autor: Ronan Farrow

Editora: Todavia

Tradutoras: Ana Ban, Fernanda Abreu, Juliana Cunha