POLÍTICA
02/02/2019 09:04 -02 | Atualizado 02/02/2019 09:04 -02

Rodrigo Maia: Um guia para entender a segunda reeleição do democrata

Como o parlamentar saiu da sombra da carreira política do pai e se tornou protagonista que agrada gregos e troianos.

Câmara dos Deputados
Rodrigo Maia foi eleito pela terceira vez seguida presidente da Câmara dos Deputados.

Em 2016, 10 anos depois de ter sido o segundo deputado mais votado do Rio de Janeiro, Rodrigo Maia (DEM) estava em crise quando ressurgiu praticamente das cinzas. Os tempos áureos de recordista de voto, líder e presidente do DEM estavam em um passado bem distante e ele dizia abertamente que queria desistir da política.

Foi aí que aconteceu uma cena de filme. Rodrigo Maia era a pessoa certa no lugar certo. Pelas mãos do ex-presidente da Casa Eduardo Cunha (MDB-RJ), preso na Operação Lava Jato, Maia voltou ao centro das notícias. Em 2015, Cunha articulou, entre outras coisas, a presidência da Comissão Especial da Reforma Política para o colega.

O democrata fazia questão de retribuir a parceria. Quando votou pelo afastamento de Dilma Rousseff (PT) da presidência da República, Maia disparou: “O senhor (Cunha) está entrando para a história deste País”.

A lua de mel terminou logo após o impeachment se concretizar e Michel Temer assumir a presidência. Nesse momento, Maia, que trabalhou ao lado de Cunha para afastar a petista, quis assumir a liderança do governo. Nos bastidores, Cunha, entretanto, trabalhou para o cargo ficar nas mãos de André Moura (PSC-SE).

Cunha foi preso, a presidência da Casa ficou vaga e dois candidatos despontaram: Maia, que já tinha se aproximado do Planalto, e Rogério Rosso (PSD-DF), nome de Cunha. Com ajuda de Temer, Rodrigo Maia foi eleito. Em 9 meses, Maia se consolidou na cadeira.

Claudio Araújo
Presidente do DEM, o prefeito de Salvador, ACM Neto, esteve ao lado de Rodrigo Maia na vitória. 

Ele se explica: “Em 2016, quando pedi voto, eu disse que era uma pessoa fechada, mas era um homem de palavra”.

A estranha amizade entre DEM e PCdoB

Amigo de Rodrigo Maia, o deputado Orlando Silva (PCdoB) citou ao HuffPost a condução de Maia das denúncias que colocaram em xeque a Presidência nas mãos de Michel Temer (MDB). “Ele conseguiu ser muito equilibrado em um momento crítico, quando todos queriam que ele encaminhasse o afastamento do presidente Temer.”

Nessa época, foi dado como certo que Maia seria presidente do País. A colegas do DEM, ele confidenciou que viu a oportunidade, com o emedebista fragilizado, mas não disse que ia fazer nada. E não fez.

“A marca dele foi o diálogo, ele conseguiu estabelecer diálogo entre diversos partidos, governo e oposição”, segue Orlando Silva. Nesta sexta-feira (1º), Maia conseguiu juntar 21 partidos em torno de sua candidatura. Foram dois blocos, um deles uniu além do PCdoB, o PDT.

A amizade com o PCdoB data de 2005, quando Maia era líder do DEM e Aldo Rebelo (PCdoB), presidente da Câmara. As longas reuniões de líderes uniram os dois. Um alinhado às pautas de direita e outro, às de esquerda. A proximidade com Rebelo trouxe Orlando Silva, hoje considerado um dos melhores amigos do presidente reeleito.

O relacionamento com a esquerda é citado por aliados como fator positivo. Parte pragmática do PT, por exemplo, votou no democrata. Líder do PSDB, Nilson Leitão (MT) afirmou ao HuffPost que chama atenção o livre trânsito do parlamentar. “Rodrigo tem um perfil de alguém que consegue navegar entre direita e esquerda, o que é essencial nesse momento do Brasil.” 

Para o tucano, o colega democratizou a Casa, manteve harmonia entre os poderes e evitou que a Câmara se tornasse puxadinho do Planalto. “Deu autonomia, independência, soube recuar, além de atender os líderes mesmo com posições antagônicas”, pontua.

Mercado financeiro

Eleito pela terceira vez presidente da Casa, Rodrigo Maia diz ter uma missão clara: aprovar reformas. Por mais que tenha bom relacionamento com a esquerda, sua pauta é liberal. E embora não tivesse sido um exímio funcionário quando trabalhou no mercado financeiro, ele mantém viva a experiência.

Para essa legislatura, seu discurso é reformista. “As reformas não são simples, mas elas são necessárias. Se nós não aprovarmos as reformas, pactuando essas reformas, todos os municípios brasileiros chegarão ao ponto que chegou Minas Gerais, onde os bombeiros trabalham naquela tragédia sem receber os seus salários.”

Rodrigo Maia é filho de Cesar Maia, ex-prefeito do Rio. Embora seja filho de um dos caciques do DEM — Cesar Maia esteve cotado para ser candidato à Presidência do País no início dos anos 2000 —, foi a mãe dele, Mariangeles, quem investiu para que Rodrigo entrasse para a política. Em 1999, ele foi eleito pela primeira vez para deputado federal e nunca mais deixou a Casa; hoje está no sexto mandato.

Maia é descrito como tímido, viciado em celular, de poucos amigos e bom de bastidor. Parece contraditório, mas a justificativa de quem convive com ele é que Maia é uma pessoa humana, que se emociona. Vê-lo gargalhar é algo raríssimo, um abraço é outra coisa praticamente impossível.