OPINIÃO
29/05/2019 15:40 -03 | Atualizado 29/05/2019 15:40 -03

'Rocketman', sobre Elton John, só brilha quando foge de fórmula de 'Bohemian Rhapsody'

Lampejos de criatividade não chegam a salvar totalmente a cinebiografia do astro, mas as músicas redimem qualquer coisa.

Desde que foi anunciado pela primeira vez, Rocketman, cinebiografia de Elton John que estreia nos cinemas brasileiros nesta quinta-feira (30), começou a ser comparado com Bohemian Rhapsody, filme que conta a história de Freddie Mercury e de sua banda, o Queen.

O que não é de se estranhar, já que ambas produções retratam a trajetória de ícones do pop/rock e que têm até algo a mais em comum: o cineasta Dexter Fletcher, que dirigiu Rocketman e finalizou Bohemiandepois da demissão de Bryan Singer.

Mas a pergunta que paira no ar é: Seria então Rocketman o novo Bohemian Rhapsody? A resposta não é tão simples. Em alguns aspectos, o filme sobre Elton - infelizmente - segue a cartilha utilizada na história sobre Freddie, já em outros - para a nossa alegria -, foge completamente.

Entre a boa e a má notícia, começaremos pela boa. Rocketman ganha muitos pontos ao utilizar as músicas da parceria Elton/Bernie Taupin para contar trechos da vida do cantor bem ao estilo dos musicais da Broadway, algo que combina muito com a persona extravagante de Elton.

Por vezes, a escolha chega até a flertar com o realismo fantástico, como em um show específico em que a performance do artista é tão mágica e contagiante que faz a plateia literalmente flutuar.

Já a má notícia é quando ele se assemelha demais a Bohemian, entregando-se a uma estrutura quadrada de ascensão/queda/redenção das mais batidas, com direito a figuras caricaturadas de pais ausentes, empresário malvado e situações clichê como o protagonista afundando em uma piscina para mostrar que chegou ao fundo do poço.

Divulgação
Taron Egerton se sai bem na ingrata tarefa de interpretar uma estrela do calibre de Elton John sem cair na imitação pura e simples.

Assistir Rocketman é realmente uma experiência conflitante. Se, por um lado, temos momentos cheios de lirismo e sincera emoção, em outro, temos cenas em que o diretor trata o espectador como estúpido, ressaltando momentos-chave na carreira de Elton com uma câmera lenta que grita: “Olha só, esse momento é muito importante para ele, preste atenção!”

Isso sem falar na forma careta com que o filme julga as atitudes do cantor o tempo todo, puxando a orelha do filho pródigo que caiu na armadilha dos vícios. Um sermão sem fim.

Pelo menos em Rocketman, a orientação sexual do cantor é tratada como se deve, sem julgamentos ou tabus. Algo que não aconteceu em Bohemian, que parecia ter vergonha do fato de Mercury ser gay, “pegando leve” em cenas de beijos e relações sexuais para agradar uma plateia conservadora.

Mas assim como em Bohemian, há a questão da música. E aí não há o que se discutir. As canções da dupla Elton/Taupin são absolutamente incríveis. É impossível não cantar junto e se emocionar com Your Song, Tiny Dancer, Rocketman, Bennie and the Jets, Goodbye Yellow Brick Road, entre MUITAS outras.

A conclusão é que Rocketman traz alguns bons lampejos de criatividade, coisa que (desculpe, pessoal), Bohemian Rhapsody não consegue nem arranhar. Porém, assim como o filme sobre Freddie Mercury, apela demais para lugares comuns. Mas ambas produções trazem uma arma secreta essencial para conquistar o sucesso: o poder da música. No final de tudo, o que os fãs querem mesmo é curtir por algumas horas algumas das melhores canções do século 20.