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19/01/2020 06:00 -03

Quando o uso de redes sociais por ministros se torna problema para o Planalto

Chefes das pastas foram instados por Bolsonaro a postar sem qualquer filtro, mas, no caso de alguns deles, como Alvim e Weintraub, a orientação virou dor de cabeça.

Ueslei Marcelino / Reuters
O próprio presidente e seu clã não são exemplos de uso responsável das redes sociais, mas, nos últimos meses, postagens de chefes de algumas das principais pastas caíram como bombas no Planalto.  

Ainda na época da transição, antes de tomar posse, o presidente Jair Bolsonaro, que se elegeu pelas “mãos” das redes sociais, praticamente exigiu de seus ministros que abrissem contas no Twitter. A justificativa era a necessidade de ampliar a transparência e divulgar os atos do governo.

No entanto, a tática se tornou também uma dor de cabeça para o Planalto diante da falta de filtros aliada ao descontrole de alguns integrantes do gabinete de Bolsonaro.

O próprio presidente e seu clã não são exemplos de uso responsável das redes sociais, mas, nos últimos meses, as postagens de chefes de algumas das principais pastas caíram como bombas no Planalto.

Na mais recente delas, um vídeo divulgado pelo agora ex-secretário de Cultura, Roberto Alvim, em que ele usava trechos de um discurso do ministro da Propaganda da Alemanha de Hittler, Joseph Goebbels, gerou uma repulsa tão grande que sua manutenção no posto foi insustentável.

Outro que escapou por pouco - até agora - da exoneração é o ministro da Educação, Abraham Weintraub, tão ativo quanto polêmico no Twitter. 

Os problemas com suas postagens vão além dos erros de português, que ganharam repercussão internacional. O titular do MEC é conhecido por abusar da ironia no Twitter e no Facebook. 

Reprodução
Ministro escreveu impressionante com "C" em resposta a um de seus aliados, o deputado Eduardo Bolsonaro. O tuíte foi apagado depois.

Segundo o HuffPost apurou, desde novembro, pelo menos, o presidente Bolsonaro vinha se mostrando insatisfeito com Weintraub. A pessoas próximas, reclamava que o ministro “causava demais” nas redes e ainda não havia entregado uma das principais bandeiras do primeiro ano na educação: a implantação das escolas cívico-militares. 

A situação ficou pior depois que Weintraub acusou universidades federais de plantarem maconha e também de terem laboratórios para manipulação de drogas. A repercussão foi péssima. O ministro foi novamente chamado ao Congresso - onde já foi convocado outras vezes - para se explicar. 

Depois de anúncios de sua demissão começarem a ser veiculadas na imprensa, o chefe decidiu que ele deveria, na verdade, sair de férias. Indicado pelo escritor Olavo de Carvalho, guru do bolsonarismo, Weintraub foi alçado ao posto de comandante do MEC para abafar outra crise na pasta. É essa relação, além do apreço do filho Eduardo Bolsonaro, que ainda o seguram à frente da pasta. 

Ministros sem filtro e a ‘lição’ com o caso Alvim

As redes sociais dos ministros são individuais e as postagem não passam pelo crivo do Planalto ou do presidente antes de publicadas. Após as inúmeras polêmicas vividas neste primeiro ano e quase um mês de governo - e não foram poucas - há apenas recomendações, e mesmo assim, pontuais e particulares. 

Quando há algo considerado como um “potencial problema”, a equipe da comunicação do Planalto encaminha a mensagem para o presidente, que decide como tratar o tema. Ou o próprio presidente já aciona o seu subordinado para reclamar. Mas tudo é decidido caso a caso. 

Na última sexta-feira (17), horas depois da publicação do vídeo por Alvim (que neste caso, foi na rede social da Secretaria de Cultura), Bolsonaro ligou para o então secretário para saber o que havia acontecido. Se contentou com a resposta e mandou que ele seguisse com sua agenda normalmente.

Como o HuffPost mostrou, o mandatário não iria demiti-lo não fosse a proporção da repercussão negativa que o caso tomou nas horas seguintes. Pesaram, especialmente, a força da comunidade judaica e uma ligação feita pelo presidente do Senado, Davi Alcolumbre, que é judeu e exigiu o afastamento. 

O caso de Alvim tocou em um tema delicado e deixou lições para todos na Esplanada, afirmaram ao longo da sexta-feira interlocutores no Palácio do Planalto: os integrantes do governo têm liberdade e podem evocar a retórica do presidente - como o ódio à esquerda, “nós contra eles” e “fake news” -, mas é preciso ter cuidado com o teor. 

Um assessor disse ao HuffPost que o desenrolar do caso Alvim mostra que o Planalto não quer assuntos que “possam criar crises para o governo” e que ministros não estão nos cargos para causar problemas, “mas para solucioná-los”.

Segundo o assessor, “não dá pra ficar com a mangueira de incêndio o tempo todo ligada”, porque “integrantes do governo não sabem como se portar”. ”É um bom-senso que se esperava de cada um, mas nem sempre tem sido assim”, disse.

Outro ministro que o Planalto tem acompanhado de perto as postagens é o do Meio Ambiente, Ricardo Salles. Na ocasião do óleo na costa brasileira, por exemplo, sugeriu que um navio da ONG Greenpeace era responsável pelo vazamento em alto mar. A publicação gerou forte reação nas redes sociais e até na comunidade internacional. 

As postagens do chanceler Ernesto Araújo também são vistas como possível foco de problemas. Embora alinhado com o clã Bolsonaro, o chefe do Ministério das Relações Exteriores por vezes se excede e eleva o tom nas redes sociais. O mesmo ocorre com Osmar Terra, da Cidadania. Suas postagens contra discriminalização de drogas têm sido monitoradas com mais atenção pelo potencial de provocar polêmicas desnecessárias. 

A ‘voz da razão’ em cada situação 

No caso de Alvim, o telefonema de Alcolumbre e a relação com a comunidade judaica - alertada pelos ministros próximos - fizeram a cabeça do presidente pela demissão do ministro. No caso de Weintraub, são Olavo de Carvalho, o guru da família, e Eduardo Bolsonaro os responsáveis por sua manutenção no MEC.  

Ueslei Marcelino / Reuters
Equipe ministerial que tomou posse em 1º de janeiro de 2019. Desses, alguns já foram limados, como Vélez e Santos Cruz. 

O presidente não é homem de um só conselheiro. Mas na hora de aperto, é geralmente o ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), Augusto Heleno, quem Bolsonaro, que não gosta de ser mandado, ouve.

Foi dele a voz da razão em um momento determinante no ano passado, que poderia ter rendido ao mandatário bastante desgaste em sua popularidade. 

Como HuffPost informou em setembro, Jair Bolsonaro havia decidido demitir Sergio Moro. O presidente começou a demonstrar insatisfação tanto no trato com o próprio comandante do Ministério da Justiça, como em atitudes, ao intervir em sua pasta - caso das trocas que desejava fazer diretamente, saltando a hierarquia, da Superintendência da Polícia Federal no Rio. 

O ápice veio com a liminar dada pelo presidente do STF (Supremo Tribunal Federal), Dias Toffoli, na qual ele suspendeu investigações que tinham por base informações de órgãos de controle, como Receita Federal e o antigo Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras), agora UIF (Unidade de Inteligência Financeira). Isso beneficiou diretamente o primogênito do presidente, o senador Flávio Bolsonaro (sem partido-RJ), cuja investigação no Ministério Público do Rio de Janeiro no caso conhecido como “rachadinha” ficou paralisada por quatro meses. 

Na ocasião da liminar, Moro esteve com Toffoli e pediu a suspensão da decisão. O presidente se irritou e reclamou com seu ministro. Depois, uma operação da PF contra o líder do governo no Senado, Fernando Bezerra (MDB-PE), por suspeita de desvios de dinheiro de obras públicas voltou a azedar a relação. 

Nesse meio tempo, interlocutores do Planalto contaram ao HuffPost que Bolsonaro estava decidido a demitir seu ministro mais popular e, inclusive, era apoiado pelo grupo mais radical que mantém próximo de si, a ala ideológica. 

O recuo veio após um alerta do general Augusto Heleno, que lembrou sobre os prejuízos de dispensar o ex-juiz, que virou símbolo da Operação Lava Jato. O chefe do GSI disse ao mandatário que isso representaria uma vitória do discurso da esquerda, em especial do PT. Venceu. 

Exemplos a serem seguidos

A ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, Damares Alves, é um exemplo do que o Planalto considera um bom uso das redes sociais. Considerada outra das ministras mais populares entre apoiadores de Bolsonaro, ela usa seu Twitter para anunciar os programas da pasta, mas também faz comentários sobre políticas públicas e até mesmo sobre convicções pessoais compartilhadas com Bolsonaro. 

Embora em alguns casos Damares até provoque grande alvoroço na internet, não se considera no Planalto que ela ultrapasse limites. “Há uma linha que não se deve ultrapassar, e ela é muito tênue”, disse um interlocutor do governo.

Outros integrantes do gabinete de Bolsonaro que são ativos nas redes mas não são motivo de preocupação são Tarcísio Gomes (Infraestrutura), Rogério Marinho (Secretaria Especial da Previdência) e Tereza Cristina (Agricultura). Ao contrário, são vistos como muito positivos suas entregas e trabalho nos bastidores.