POLÍTICA
17/01/2020 11:52 -03 | Atualizado 21/01/2020 00:56 -03

Secretário de Cultura é demitido após vídeo com referências nazistas

A exoneração de Roberto Alvim foi pedida pelos presidentes da Câmara e do Senado e até Olavo de Carvalho criticou o secretário: 'talvez não esteja muito bem da cabeça'.

O secretário de Cultura, Roberto Alvim, cavou a própria cova. Após divulgar um vídeo nas redes sociais oficiais da Secretaria de Cultura em que repete parte do discurso de Joseph Goebbels, ministro da Propaganda da Alemanha nazista, Alvim foi exonerado.

O presidente Jair Bolsonaro demitiu o secretário após a repercussão negativa do vídeo, que anunciava uma premiação. Ele informou a lideranças do Congresso no fim da manhã de sexta-feira (17), após ser cobrado por isso.

Pouco depois das 13h, a demissão foi formalizada. Em nota, o presidente afirmou que a permanência de Alvim se tornou “insustentável” ainda que ele “tenha se desculpado”. 

“Reitero nosso repúdio às ideologias totalitárias e genocidas, bem como qualquer tipo de ilação às mesmas. Manifestamos também nosso total e irrestrito apoio à comunidade judaica, da qual somos amigos e compartilhamos valores em comum”, completa o texto, assinado pelo próprio Jair Bolsonaro.

O ministro do Turismo, Marcelo Álvaro Antônio, que está acima de Alvim, havia sido informado da decisão do mandatário e o Planalto passou boa parte da manhã tentando costurar a nota em que informou a demissão.

A ideia inicial era não citar o vídeo, porém, a repercussão, sobretudo ante a comunidade Judaica, tornou essa omissão impossível. O presidente foi cobrado pessoalmente pelo presidente do Congresso Nacional, Davi Alcolumbre, que é judeu.  

No início da tarde o vídeo de Alvim foi retirado do ar.

O presidente da Câmara, Rodrigo Maia, havia pedido na manhã desta sexta, via rede social, a cabeça de Alvim. “O secretário da Cultura passou de todos os limites. É inaceitável. O governo brasileiro deveria afastá-lo urgente do cargo”, escreveu Maia no Twitter.

Davi Alcolumbre, soltou nota em que classifica o vídeo como “acintoso, descabido e infeliz ”. “Como primeiro presidente judeu do Congresso Nacional, manifesto veementemente meu total repúdio”, escreveu.

Ele ainda afirmou ser “totalmente inadmissível, nos tempos atuais, termos representantes com esse tipo de pensamento”. “E, pior ainda: que se valha do cargo que eventualmente ocupa para explicitar simpatia pela ideologia nazista e, absurdo dos absurdos, repita ideias do ministro da Informação e Propaganda de Adolf Hitler, que infligiu o maior flagelo à humanidade”.

Antes disso, Davi Alcolumbre telefonou para Jair Bolsonaro reclamando do vídeo de Alvim e também pediu o afastamento dele do cargo. Ouviu do presidente que a “esquerda estava exagerando” na repercussão do caso, mas que concordava que o secretário de Cultura havia feito uma “declaração infeliz”. 

Além da pressão dos líderes do Congresso, pesou na decisão a reação de Olavo de Carvalho, guru do Bolsonarismo, nas redes sociais: ”É cedo para julgar, mas o Roberto Alvim talvez não esteja muito bem da cabeça. Veremos”, escreveu Olavo em sua conta no Facebook. 

Ao usar trechos do discurso do ministro nazista, Alvim atingiu, especialmente, a comunidade judaica, em grande parte apoiadora de Bolsonaro.

Em nota, o presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Dias Toffoli, também criticou o secretário. “Há de se repudiar com toda a veemência a inaceitável agressão que representa a postagem feita pelo secretário de Cultura. É uma ofensa ao povo brasileiro, em especial à comunidade judaica”, disse.

No vídeo, Goebbels e ópera de Wagner

No vídeo, o secretário afirma que “a cultura não pode ficar alheia às imensas transformações polutas que estamos vivendo”. “A arte brasileira da próxima década será heróica e nacional. Será dotada de grande capacidade de envolvimento emocional e será igualmente imperativa, posto que profundamente vinculada às aspirações urgentes de nosso povo, ou então não será nada”, completa.

A frase é semelhante à do ministro nazista. “A arte alemã da próxima década será heróica, será ferreamente romântica, será objetiva e livre de sentimentalismo, será nacional com grande páthos e igualmente imperativa e vinculante, ou então não será nada”, disse Joseph Goebbels em discurso para diretores de teatro documento no livro Joseph Goebbels: Uma biografia, do historiador alemão Peter Longerich.

Outra referência do nazismo é a música de fundo, da ópera Lohengrin, de Richard Wagner, obra que Hitler disse ter sido decisiva em sua vida, em sua autobiografia.

PSOL quer que Alvim responda judicialmente 

O PSOL soltou uma nota em que diz que sua bancada na Câmara entrará com representação na Procuradoria Geral da República contra Alvim.

Segundo o partido, ainda que seja exonerado, ele deve responder judicialmente por suas declarações.

“O caso configura a prática de apologia ao crime (art. 287 do Código Penal) e incitação ao crime (art. 287 do Código Penal), assim como também se enquadra na lei de racismo, que pune a pratica e incitação a discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional, inclusive a propaganda relacionada ao nazismo (art. 20 da lei nº 7716/1989)”, diz o texto divulgado pelo PSOL.

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