OPINIÃO
07/09/2019 06:00 -03 | Atualizado 07/09/2019 06:00 -03

Você já correu algum risco hoje?

Os riscos que todos nós enfrentamos, nos hospitais ou além deles, podem impactar nossas vidas, mas os riscos sociais que essas crianças e famílias enfrentam deixam marcas muito profundas.

Divulgação/Alcione Ferreira/Doutores da Alegria
Doutores da Alegria tentam animar criança internada em hospital público.

Você correu algum risco hoje? Calma, a gente não está falando de se equilibrar em cima de um andaime ou de alimentar um jacaré esfomeado.

No dicionário, correr risco é estar sujeito a passar por um episódio temerário que pode trazer alguma consequência. O risco é um tipo de ameaça cujo antídoto é a segurança, uma condição artificial de estabilidade e de certeza assumida como racional. 

O risco está em cada canto e no vocabulário de um hospital. Uma cirurgia de risco. Uma gravidez de risco. O risco de queda.

Profissionais de saúde e pacientes administram este jacaré faminto a todo tempo, com precauções de segurança e de contato, por exemplo, mas também dividem responsabilidades. Cabe ao médico avaliar o risco de um exame invasivo, mas cabe ao paciente assumir que fez o preparo corretamente antes do exame.

O ator ou a atriz que tem o palhaço como profissão no hospital também corre riscos que certamente não correria se tivesse escolhido somente o palco do teatro. 

O risco de contar uma piada que não faz rir – ah, esse todos correm! Mas da UTI ao pronto atendimento, há o risco iminente de pegar uma gripe ou entrar em contato com uma superbactéria. De encontrar uma enfermeira que tem medo de palhaço. De entrar numa disputa pela atenção de um bebê com a tela de um celular e perder. De conseguir improvisar uma resposta para “palhaço, por que foi acontecer justo com o meu filho?”. O risco de se afeiçoar a uma criança que está em cuidados paliativos. Ou o risco de sentir saudade de quem já teve alta.

Muitas das crianças que encontramos nos hospitais públicos estão em situação de vulnerabilidade e risco social. São meninas e meninos que vivem em condições precárias de moradia e saneamento, com desigualdade de oportunidades de aprendizagem e de acesso ao ambiente escolar e cujos familiares enfrentam problemas econômicos. 

Correr riscos faz parte do caminhar da vida, mas estar em risco social coloca essas crianças em um processo de exclusão, de discriminação, sem condições de usufruir dos mesmos direitos fundamentais dos outros cidadãos.

Essas crianças empinam pipas em cima de lajes correndo o risco de sofrer um acidente, como já vimos várias vezes, mas elas não escolheram correr o risco de beber água contaminada ou de morar em um barranco que pode desabar. Assim como seus pais, elas nasceram em um contexto de pobreza que vem se perpetuando na sociedade brasileira. 

Divulgação/André Stefano/Doutores da Alegria
Para os Doutores da Alegria, surpreender a enfermeira também pode ser um risco num hospital.

Os riscos que todos nós enfrentamos, nos hospitais ou além deles, podem impactar nossas vidas, mas os riscos sociais que essas crianças e suas famílias enfrentam deixam marcas muito profundas. E se a segurança é o antídoto para o risco casual, o antídoto contra a perpetuação de desigualdades de uma geração para outra, segundo o economista James Heckman, consagrado com um prêmio Nobel de Economia, são políticas públicas para a primeira infância. 

Ele acompanhou e pesquisou pessoas expostas a estímulos no início da vida e descobriu que, no longo prazo, elas conseguiram melhorar seu desempenho escolar, obter salários mais altos, alcançar melhor saúde e menor envolvimento com crimes – benefícios que, segundo constatou Heckman, estenderam-se à geração seguinte. 

Ter uma rede forte de assistência social que as acolha e desenvolver políticas públicas para combater a pobreza é tarefa do Estado. Atuar com pessoas em situação de vulnerabilidade social foi uma escolha da associação Doutores da Alegria e é tarefa nossa garantir que essas crianças tenham o direito à cultura assegurado enquanto estão internadas. E compartilhar com a sociedade, por meio de criações artísticas, o que vivenciamos nestes encontros.

Acreditamos que, no ambiente hospitalar, a arte do palhaço fortalece a convivência, ressignifica o enfrentamento à doença, resgata vínculos e humaniza. Antídotos potentes... E com alto risco de contaminação!

Este artigo é de autoria de articulista do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Assine nossa newsletter e acompanhe por e-mail os melhores conteúdos de nosso site.