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24/01/2020 05:35 -03

Trechos do rio atingido em Brumadinho não têm sequer vida aquática, aponta relatório

Há um ano, rompimento de barragem da Vale despejou 12,7 milhões de metros cúbicos de rejeitos de minério nos rios Paraopeba e Alto São Francisco.

Handout . / Reuters
Técnicos da Fundação SOS Mata Atlântica percorreram 356 km do Paraopeba, passando por 21 cidades, e detectaram traumas da tragédia em todo o percurso.

Um ano depois da tragédia causada pelo rompimento da barragem Mina Córrego do Feijão da Vale em Brumadinho (MG), as bacias dos rios Paraopeba e Alto São Francisco não têm em nenhuma parte de sua extensão condições adequadas de uso pela população. 

Técnicos da Fundação SOS Mata Atlântica percorreram 356 km do Paraopeba, passando por 21 cidades, entre os dias 8 e 17 deste mês, e detectaram traumas da tragédia em todo o percurso. No desastre, foram despejados 12,7 milhões de metros cúbicos de rejeitos nos rios. 

Em 11 dos 23 pontos analisados não há sequer presença de vida aquática. O número de colônia de bactérias, que têm capacidade para decompor matéria orgânica, “diminuiu consideravelmente com a mudança drástica dos ecossistemas”.

Há na extensão dos rios presença de materiais pesados, como ferro, manganês e cobre, acima dos limites considerados seguros. O consumo de cobre, por exemplo, pode causar vômitos e náuseas. A SOS Mata Atlântica destaca ainda possibilidade de sintomas como tremedeiras das mãos, rigidez muscular e fraqueza, caso haja contaminação por manganês.

Na avaliação da professora Marta Marcondes, coordenadora do Laboratório de Análise Ambiental do Projeto Índice de Poluentes Hídricos (IPH), da Universidade Municipal de São Caetano do Sul (USCS), a quantidade de metais pesados e microorganismos encontrados é preocupante.

“Rejeitos de minério continuam na água e têm capacidade de trazer sérios problemas à saúde. Se forem acumulados nos tecidos de pessoas ou animais podem gerar doenças hepáticas, neurológicas, renais. Muitos desses elementos ficam dissolvidos na água e não decantam, às vezes são invisíveis”, afirmou ao HuffPost. 

A especialista destaca que essa alteração no microbioma do rio impacta na sua capacidade de se recuperar. “Esse organismo foi inteiro modificado. Os microorganismos que decompõem matéria e metal não estão mais lá”, diz.

Adriano Machado / Reuters
"Se [os rejeitos de minério] forem acumulados nos tecidos de pessoas ou animais podem gerar doenças hepáticas, neurológicas, renais", diz Marta Marcondes, da Universidade Municipal de São Caetano do Sul  

Segundo ela, se nada for feito, o rio não se recupera. “Sabemos que ele não se restabelece sozinho. Esse rejeito que está lá no rio de alguma maneira precisa ser retirado, e esse plano não foi apresentado. Ou outros tipos de organismo vão se fixar naquele rio. A vegetação das margens também precisa ser recomposta.”

Em nota, a coordenadora da expedição e gerente da causa Água da Fundação SOS Mata Atlântica, Malu Ribeiro, afirma que, na medida em que a equipe descia o rio, percebia-se que muito pouco está sendo feito.

“A água chega às propriedades rurais, ilhas e comunidades ribeirinhas por caminhões pipa e grandes cargas de água mineral envasada. Pelo rio, o que chega é a poluição que vai aumentando gradativamente com o período chuvoso, por conta do carreamento dos rejeitos e contaminantes, que vão impactando a região em áreas distantes do núcleo da tragédia.” 

Falta informação para os ribeirinhos e os sentimentos de impunidade e dor se somam à insegurança hídrica.Malu Ribeiro, da Fundação SOS Mata Atlântica

Na comparação com a análise feita no ano passado, logo após o desastre, a melhora é mínima, de acordo com estudo. O cenário só é um pouco melhor nos trechos onde há corredeiras e maior volume de água.

A turbidez da água — um dos parâmetros usados para avaliar sua qualidade —  apresentou melhora, mas ainda assim continua elevada. Além de alterar a cor da água, ela impede a passagem da luz e a fotossíntese, causando a morte da vida aquática no rio.

Ao longo do rio, a turbidez variou entre 5 e 13 vezes acima do limite máximo permitido pela legislação. Em 2019, nos piores trechos do rio, ela alcançou o índice de 96 vezes superior ao permitido.

Alerta antigo

Relatório anterior da SOS Mata Atlântica, divulgado em fevereiro do ano passado, já trazia um alerta sobre a contaminação por materiais pesados e destacava a necessidade de planejamento para recuperação das águas. 

Na época, o relatório descreveu um cenário lamentável. “Toda a paisagem foi devastada, coberta por uma lama densa cor de sangue. Não foi possível localizar o pequeno córrego afluente do rio Paraopeba, nem uma parte do enorme pontilhão da estrada de ferro, soterrados pela avalanche de lama”, dizia o documento. 

O rompimento da barragem Mina Córrego do Feijão, de rejeitos de mineração, em Brumadinho ocorreu em 25 de janeiro do ano passado. A tragédia deixou 259 mortos e 11 desaparecidos, além de ter atingido rios, mata e comunidades próximas.