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27/02/2019 07:00 -03 | Atualizado 27/02/2019 07:00 -03

Tragédia de Brumadinho deixou rio em 'cor de sangue’ e contaminado por materiais pesados

“Perder um rio não tem preço. Como ficaremos agora, sem rio, sem peixe, sem nossa gente?”

Adriano Machado / Reuters
“A lama de rejeitos de minério e contaminantes mudou drasticamente a geografia e a paisagem na região do Alto Paraopeba", diz relatório.

Além das centenas de mortos e desaparecidos, atragédia de Brumadinhotambém deixou em “cor de sangue” o rio Paraopeba, um dos principais afluentes do São Francisco. Invadido por uma onda de 14 toneladas de rejeitos que carregou tudo que havia pela frente, o rio está contaminado por materiais pesados e completamente impróprio para qualquer tipo de uso.

As informações são do relatório Observando os Rios, do SOS Mata Atlântica, sobre a qualidade da água na bacia do rio após o rompimento da barragem Córrego do Feijão em 25 de janeiro, divulgado nesta quarta-feira (27).

“A lama de rejeitos de minério e contaminantes mudou drasticamente a geografia e a paisagem na região do Alto Paraopeba. Enterrou nascentes, cursos d’água; ceifou vidas humanas, fauna e flora; devastou florestas nativas da Mata Atlântica e a vegetação natural, e tingiu de cor de sangue um dos mais importantes mananciais da Região Metropolitana de Belo Horizonte, formador da Bacia Hidrográfica do rio São Francisco”, diz trecho do estudo.

A equipe que fez a pesquisa conta que a primeira impressão ao chegar ao local foi de tristeza, por encontrar tudo completamente destruído. “Toda a paisagem foi devastada, coberta por uma lama densa cor de sangue. Não foi possível localizar o pequeno córrego afluente do rio Paraopeba, nem uma parte do enorme pontilhão da estrada de ferro, soterrados pela avalanche de lama.”

O relato destaca que o entorno do rio, que era cercado por uma floresta, estava irreconhecível. Não era possível identificar que o lamaçal no Alto Paraopeba era onde ficavam muitas árvores nativas da Mata Atlântica, o ribeirão Ferro-Carvão e a pousada Nova Estância, que desapareceram junto com a pequena estrada que ligava a região do Instituto Inhotim ao bairro Córrego do Feijão.

O que era água ganhou uma cor intensa “que deixou o rio semelhante a uma massa de bolo de chocolate”, como moradores ribeirinhos descreveram aos pesquisadores. Nessa mesma região, havia peixes, animais mortos e organismos em decomposição e um odor intenso que causou incômodo às comunidades ribeirinhas.

Seu Antônio, um pescador assentado em Pompéu, que acompanhou a equipe técnica na Cachoeira do Choro, em Curvelo, desabafou:

“Perder um rio não tem preço. Um peixe de dois quilos produz cem mil filhotes e um pescador em cinco piracemas não consegue pegar cem mil peixes. Aí vem a poluição, em menos de um segundo, e destrói um milhão de peixes, filhotes, peixes com ovas e mata tudo... Como ficaremos agora, sem rio, sem peixe, sem nossa gente?”.

Aí vem a poluição, em menos de um segundo, e destrói um milhão de peixes, filhotes, peixes com ovas e mata tudo...Seu Antônio, pescador assentado em Pompéu
Handout . / Reuters
Invadido por uma onda de 14 toneladas de rejeitos, o rio está contaminado por materiais pesados e completamente impróprio para qualquer tipo de uso.

A equipe técnica se deparou com um deserto em lugares turísticos, colônias de pescadores e áreas de lazer ao longo do rio, que costumavam lotar em períodos de calor, como esta época do ano. “Sem banhistas, sem pescadores, sem peixes e sem aves pescadoras”, diz o texto.

O relato destaca ainda que a cor verdadeira do rio, cristalina e em tons de verde, foi vista na sexta-feira, dia 8 de fevereiro, na região do Reservatório de Retiro Baixo. “Mas, no dia seguinte, o mesmo lugar já estava completamente diferente, tingido de lama.”

 

Contaminação por materiais pesados

Em todos os 22 pontos de coleta dos 305 quilômetros do rio, analisados entre os dias 31 de janeiro e 9 de fevereiro, foram registrados índices de concentração de materiais pesados acima do permitido pela legislação brasileira.

“Os metais presentes na água em quantidades nocivas ao ambiente, à saúde humana, à fauna, aos peixes e aos organismos vivos, em toda extensão monitorada do rio, são: ferro, cobre, manganês e cromo.”

O índice de qualidade da água obtido em 10 pontos foi ruim e, em 12 pontos, foi péssimo. O que significa que a água está imprópria para uso.

O alerta já havia sido feito pelas secretarias de Saúde, de Meio Ambiente e de Agricultura de Minas Gerais. “A orientação de não se utilizar a água bruta do rio, sem tratamento, é válida para qualquer finalidade: humana, animal e atividades agrícolas”, diz nota conjunta dos órgãos.

Desde o rompimento da barragem, a Agência Nacional de Águas (ANA), junto com o Serviço Geológico do Brasil, monitora as condições do rio. Ao mesmo tempo, a Vale negocia com a Secretaria de Meio Ambiente de Minas Gerais um plano de recuperação do rio. 

Tipos de contaminação

Cobre: O metal Cobre é tóxico quando não está ligado a uma proteína e é assim que ele se encontra nas amostras de água analisadas. O consumo de quantidades relativamente pequenas de cobre livre pode provocar náuseas e vômitos. Se os sais de cobre, não ligados a proteínas, forem ingeridos em grandes quantidades, podem lesar os rins, inibir a produção de urina e causar anemia devido à destruição de glóbulos vermelhos (hemólise).

Manganês: A contaminação por manganês ocorre por ingestão. Existe o risco de seres humanos apresentarem sintomas como rigidez muscular, tremores das mãos e fraqueza. Pesquisas realizadas em animais constataram que o excesso de manganês no organismo provoca alterações no Sistema Nervoso Central e ainda pode levar à impotência por danificar os testículos.

Cromo: Metais pesados (cromo, cobre e manganês), são reconhecidamente poluentes severos e podem causar diversos danos ao organismo, desde interferências no metabolismo e doenças, até efeitos mutagênicos e morte.

Fonte: SOS Mata Atlântica

 

Recuperação do rio

Apesar do estado do rio, a ONG afirma que é possível recuperá-lo. Para isso, afirma que é essencial que sejam adotadas medidas efetivas de remediação aos danos ambientais, de ressarcimento das comunidades das famílias e atividades econômicas afetadas. Aponta a restauração florestal como preponderante, especialmente da mata ciliar.

“É fundamental que a legislação brasileira, sobretudo o Licenciamento Ambiental e o Código de Mineração, não seja flexibilizada para atender a pressões setoriais.” 

O estudo inclui ainda como agravante a sensação de impunidade e injustiça após a tragédia da Samarco, Vale e BHP, responsáveis pela barragem de Mariana, que rompeu em 2015 e atingiu a bacia do rio Doce.

Para o SOS Mata Atlântica, esse caso coloca em xeque a “capacidade das instituições brasileiras de adotar medidas eficazes de monitoramento sistemático, controle e uso de tecnologias mais modernas, capazes de evitar que tragédias anunciadas como essas se repitam no Brasil”.