OPINIÃO
08/01/2020 05:00 -03 | Atualizado 08/01/2020 05:00 -03

'Retrato de uma Jovem em Chamas' mostra que amor é chama que arde e que, sim, se vê

Filme de Céline Sciamma usa o olhar como ferramenta da descoberta de nossos próprios anseios.

Por mais que no último ano as mulheres tenham se destacado em grandes festivais de cinema mundo afora, como em Cannes, por exemplo, a temporada 2020 de premiações de cinema e TV está ignorando esse fato.

No último Globo de Ouro não havia nenhuma mulher entre os concorrentes ao prêmio de Melhor Direção. Uma tendência seguida também na recém-publicada lista de candidatos ao Bafta, o “Oscar britânico”.

Mas elas seguem mostrando sua força. Entre os filmes mais aguardados de 2020 há vários protagonizados e/ou dirigidos por mulheres. Dois deles estreiam nesta quinta-feira (8) nos cinemas brasileiros: Adoráveis Mulheres, da americana Greta Gerwig, e Retrato de uma Jovem em Chamas, da francesa Céline Sciamma.

Prêmio de Melhor Roteiro em Cannes, Retrato de uma Jovem em Chamas ratificou o status de grande promessa de Sciamma, que apareceu para o mundo com o ótimo Tomboy, em 2011. O feminino sempre foi muito presente em seu cinema, e aqui não é diferente.

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Adèle Haenel e Noémie Merlant como a retratada Héloise e a artista Marianne em "Retrato de uma Jovem em Chamas".

Porém, em Retrato de uma Jovem em Chamas, Sciamma vai ainda mais fundo em questões como identidade, sexualidade e patriarcado, usando a arte como vetor para contar uma história de e para mulheres. Uma história que combina urgência, sutileza, revolta e ternura.

Na trama, Marianne (Noémie Merlant) é uma jovem pintora na França do século 18 que é contratada por uma mulher que quer que ela pinte um retrato de sua filha Héloise (Adèle Haenel) para poder apresentá-la a seu futuro marido na Itália. Mas Héloise se opõe ao casamento e rejeita posar para qualquer artista. Assim, Marianne finge ser uma companheira de caminhadas dela para poder estuda-la e pintar seu retrato à noite. No entanto, ela vai ficando cada vez mais próxima de Héloise e passa a concordar com o desejo de sua modelo.

A arte tem um papel fundamental em Retrato de uma Jovem em Chamas. É a partir do olhar da artista e de sua retratada que as personagens se comunicam entre si e com o público. E tanto Merlant quanto Haenel conseguem passar tudo o que sentem e pensam por meio do olhar.

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Amor é fogo que arde e se vê.

O filme de Sciamma analisa a questão da identidade pela percepção de como enxergamos uma obra, fazendo da arte o fator que revela quem somos em meio a tantas camadas. Uma tese defendida com paixão pela diretora e que explode na tela com uma beleza arrebatadora em sua última cena.

Retrato de uma Jovem em Chamas é, sem dúvidas, um dos melhores filmes de 2019. Uma obra necessária - até obrigatória - em um mundo que volta a fletar com pensamentos retrógrados aos avanços obtido a fórceps pelas mulheres há pelo menos dois séculos.