24/01/2019 00:00 -02 | Atualizado 24/01/2019 00:00 -02

Renata Cianella, a professora que ensina a arte da marcenaria só para mulheres

Carioca perseguiu o sonho de ser marceneira e hoje ensina outras mulheres a lutarem pelo que acreditam.

Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
Renata Cianella é a 323ª entrevistada do "Todo Dia Delas", um projeto editorial do HuffPost Brasil.

Aos 14 anos, Renata Cianella já se aventurava com ferramentas, madeiras, parafusos e pregos. Influenciada por seu pai, desenvolveu paixão por criar coisas e inventar soluções para pequenos problemas da casa. Mas não era coisa de menina. Hoje, aos 30 anos, Renata abandonou a carreira no direito e comanda um workshop direcionado a mulheres que ouviram, durante muito tempo, que trabalhar com marcenaria não era para elas. Ela largou o escritório, transformou a sala da casa em que mora com sua mãe em um ateliê tomado de madeiras ― principalmente recicladas ― e em apenas um ano, já acumula 90 alunas e uma certeza: “Mulheres sentem-se mais confortáveis com outras mulheres”.

Mesmo com uma paixão despertada ainda na adolescência, ela teve de ficar adormecida por muito tempo. Naquela época, Renata pegava escondido ferramentas e restos de madeira. Ainda no colégio, começou a vender caixinhas que julgava ser como porta jóias. “Nunca tive apoio de alguém me ensinando como fazer, e nem tinha tutorial no Youtube. Aprendi sozinha e fazia tudo no meu quarto para não incomodar ninguém.”

Aprendi sozinha e fazia tudo no meu quarto para não incomodar ninguém.
Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
Ela percebeu que reprimir o que fazia de melhor (e que mais a fazia feliz) não era a melhor forma de viver.

Com a chegada da vida adulta, de um diploma universitário e de uma carreira de prestígio, Renata conta que teve de deixar seu sonho de lado: “Comecei a faculdade de Direito, mas por uma pressão de ter ‘status’, sabe? Eu gostava de estudar mas eu não queria estar ali”, afirma. E lembra que, naquela época, já montava e desmontava guarda-roupas de amigos, fixava algo na parede para familiares. Até que teve um estalo. Ela percebeu que reprimir o que fazia de melhor (e que mais a fazia feliz) não era a melhor forma de viver. Então, trocou de vez os ternos e reuniões por avental e ferramentas.

“Eu via como era distante da realidade das minhas amigas uma mulher usar uma furadeira. Elas até queriam usar, mas tinham medo de ligar na tomada, tomar choque, se machucar. E isso não era assim para mim. Decidi ensinar a elas, e logo veio a sugestão de um workshop de manutenção residencial.”

Faz diferença ter uma professora mulher, porque a pessoa se sente mais à vontade.
Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
Renata também criou o Estúdio Criativo Ipê, que é meio um coletivo de mulheres, meio uma multimarcas.

Mas com o passar do tempo, conta Renata, a ideia de um workshop gigante, com milhares de pessoas, no maior centro de eventos do Rio se adaptou à sua realidade. “Um amigo me disse que quanto mais eu botava esse projeto para o futuro, mais distante ficaria para começar a fazer. E falou uma frase que me marcou para sempre: ‘o que você pode começar a fazer agora com o que você tem hoje?’ Esta frase entrou na minha vida para sempre. Eu ouvi essa frase e uma luz acendeu. Por que para mil pessoas e não para cinco?”, relembra a marceneira, que entendeu que podia fazer pequenas revoluções com o conhecimento e a coragem que já tinha na mão.

Então, Renata abriu a primeira turma com apenas cinco vagas. E só foram três pessoas. Na segunda turma, as mesmas cinco vagas, mas com somente duas presenças. Mesmo assim, ela não desistiu. Ela sabia que existia essa lacuna no mercado, e era questão de tempo até o curso cair na boca de outras mulheres inquietas com o machismo, como ela. “Eu já participei de outros workshops, que era com público misto e principalmente com homens ensinando. A gente se sente mais à vontade com mulheres, essa é a real. Em oficinas mistas, alguns homens que estavam lá também para aprender mas tinham alguma breve noção queriam apagar aquela mulher que chegou sem saber nada”, relata. No seu curso, não: “Faz diferença ter uma professora mulher, porque a pessoa se sente mais à vontade. É muito uma troca”.

As mulheres topam fazer uma atividade dita masculina para afrontar mesmo.
Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
Renata conta que seu público é bem diverso: são desde donas de casa, aposentadas e até estudantes de arquitetura.

Renata conta que seu público é bem diverso: são donas de casa, aposentadas, estudantes de arquitetura, gente que quer colocar em prática o que desenha ou os tutoriais que vê na internet. Ali, todo mundo tem espaço. Desse acolhimento, troca e suporte entre mulheres que lutam contra o machismo, Renata também criou o Estúdio Criativo Ipê, que é meio um coletivo de mulheres, meio uma multimarcas. O objetivo principal é reunir pequenas produtoras e microempreendedoras que passaram pelo curso de marcenaria e querem espalhar seus produtos por feiras livres do Rio de Janeiro, dividindo os custos físicos e emocionais de empreender e ser mulher. “Rola uma curadoria, um grupo de suporte, trocamos material, damos dicas, emprestamos ferramentas”, explica.

A procura pelo seu curso, que hoje acontece de forma itinerante, principalmente, e sempre tem as vagas esgotadas se dá principalmente à luta contra a imposição de uma sociedade machista, opina Renata. “As mulheres topam fazer uma atividade dita masculina para afrontar mesmo. Quem vai dizer que eu não posso? E é também necessidade, porque é chato depender de outra pessoa para fazer algo na sua própria casa. É a vontade de fazer, se sentir capaz, se sentir independente. Não precisa ser para ganhar dinheiro, pode ser só para decorar a casa ou presentear alguém”, afirma.

Eu tive que provar para minha família que eu não era feliz no Direito para depois poder viver do que eu gostava.
Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
"Não importa o status daquilo, o que importa é quanto aquilo te feliz."

Em todas as aulas, Renata também ouve relatos de suas alunas que enfrentam dificuldades em se estabelecer como profissionais de uma área masculina, principalmente diante da sua própria família. Com a experiência acumulada de quem largou o escritório para viver “cortando suas madeirinhas” com muito prazer, ela repete um conselho quase como mantra.

 “Eu tive que provar para minha família que eu não era feliz no Direito para depois poder viver do que eu gostava. Por que tem que ser assim? Por que as pessoas desvalorizam o que dá prazer? Não importa o status daquilo, o que importa é quanto aquilo te feliz. Porque você, sim, ser brilhante naquilo que você faz: você vai conquistar e se bastar”, finaliza.

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Lola Ferreira

Imagem: Valda Nogueira

Edição: Andréa Martinelli

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil e CUBOCC

O HuffPost Brasil lançou o projeto Todo Dia Delas para celebrar 365 mulheres durante o ano todo. Se você quiser compartilhar sua história com a gente, envie um e-mail para editor@huffpostbrasil.com com assunto “Todo Dia Delas” ou fale por inbox na nossa página no Facebook.

Todo Dia Delas: Uma parceria C&A, Oath Brasil, HuffPost Brasil, Elemidia e CUBOCC.