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15/12/2019 08:00 -03

Renan Calheiros vira um dos principais conselheiros de Alcolumbre

Presidente do Senado trata o emedebista como "meu presidente" e se afasta de grupo que o elegeu ao cargo.

Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil
Presidente do Senado, Davi Alcolumbre, aproxima-se do emedebista Renan Calheiros e, nos bastidores, lhe chama de "meu presidente".

“Estamos aqui para servir o povo brasileiro e não para nos servirmos dele: neste novo Senado que construiremos juntos, os anseios das ruas terão o protagonismo outrora deixado aos conchavos das elites partidárias assépticas ao interesse público.” A frase fez parte do discurso de posse do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP), no dia 2 de fevereiro deste ano. Dez meses se passaram, mas pouco se viu de nova política na Casa desde então. Ao contrário. Hoje o democrata segue mais unido que nunca com o velho MDB (antigo PMDB), tendo como um de seus principais conselheiros o senador Renan Calheiros — um dos principais derrotados pela eleição de Alcolumbre no início do ano.

O grupo que elegeu Alcolumbre ficou revoltado por ser deixado de lado e não ter atendidas demandas como a instalação do que ficou conhecida como CPI da Lava Toga, para investigar o poder Judiciário, ou o encaminhamento de dezenas de pedidos de impeachment de ministros do STF que há protocolados na Casa. Por isso, os descontentes fundaram um grupo apartidário: Movimento Muda Senado. Dele, fazem parte senadores de 9 dos 17 partidos com representação por lá: PSL, Podemos, Cidadania, Rede, Patriotas, PSD, PSB, PP e PSDB. 

Alcolumbre saiu da promessa de nova política ao aconselhamento do partido que venceu 17 das 19 eleições ao comando do Senado desde a redemocratização — o PMDB, atualmente MDB, perdeu somente neste ano e em 1997, quando ACM (então PFL-BA) ganhou a disputa contra Iris Resende (então PMDB-GO).

O atual presidente do Senado deixou os aliados lavajatistas para trás e se aproximou da velha político do ex-presidente que mais sentou na cadeira até então. Renan Calheiros ocupou a Presidência do Senado por quatro vezes — mesmo número do ex-senador José Sarney.

“Meu presidente”

De acordo com interlocutores e senadores próximos tanto de Alcolumbre, quanto de Renan, não raras vezes os dois são vistos se cumprimentando como grandes amigos. Até aí tudo bem. O Senado é um local de ânimos mais serenos que a Câmara. Essas mesmas pessoas relatam, porém, que o atual chefe do Senado trata o ex-comandante da Casa por “meu presidente”.

O democrata manteve em dois cargos-chave na Mesa Diretora do Senado indicados de Renan Calheiros presidente - ele ocupou o cargo pela última vez no biênio 2015/16. Um é o secretário-geral da Mesa, Luiz Fernando Bandeira de Mello Filho. A outra é Ilana Trombka, diretora-geral. 

A Secretaria da Mesa cuida das pautas, regimento, votações. É um dos cargos mais próximos do presidente da Casa. Bandeira fica ao lado de Alcolumbre no plenário durante as sessões e é responsável por auxiliá-lo nas estratégias regimentais nas votações. A Diretoria Geral é a área à qual cabe cuidar dos Recursos Humanos, como pagamentos e planos de saúde, ao patrimônio da Casa, como apartamentos dos senadores. Tudo passa por lá. 

Ao negar dar andamento aos anseios lavajatistas, como impeachment de ministros do Supremo ou CPI da Lava Toga, que já engavetou duas vezes, aliado ao fato de sua aproximação ao núcleo emedebista — especialmente Renan Calheiros, o líder na Casa, Eduardo Braga (AM), e o líder do governo no Senado, Fernando Bezerra (PE) —, Davi Alcolumbre faz um movimento arriscado: afasta os senadores que o colocaram na cadeira. Isso pode ter custos eleitorais. 

Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil
Interlocutores afirmam que Renan, que já presidiu o Senado por quatro vezes, virou um dos principais conselheiros de Davi.

Como o HuffPost informou no domingo (8), Alcolumbre e o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), articulam votar no ano que vem uma proposta de emenda à Constituição da reeleição para as Casas. Isso porque, atualmente, só se pode concorrer ao comando novamente em término de legislatura, o que não será o caso em 2021, quando ambos devem deixar suas cadeiras. 

Virando as costas para o núcleo que o apoiou em sua eleição neste ano e aproximando-se dos emedebistas, que praticamente monopolizaram o comando do Senado desde 1985, será que Davi Alcolumbre terá forças para manter seu poder e permanecer no cargo no biênio 2021/22? É o desejo dele, já que a Presidência do Senado serviria como nenhum outro cargo na Casa de palanque eleitoral — seu mandato de 8 anos termina em 2022 e seus planos passam atualmente pelo governo do Amapá. 

Camaleão

Fato é que, não foi apenas Alcolumbre que se adaptou ao migrar para o grupo de Renan. Há tantos anos no Senado - sua casa desde 1995 - e na política, o senador do MDB aprendeu que, para sobreviver a dias ensolarados, mas também a tempestades, é preciso capacidade de adequação.

Assim que derrotado, saiu de cena. Dizia a todos que o abordavam pelos corredores do Congresso: “O momento é de observação”. Passou 17 dias em silêncio em Murici, Alagoas, em sua fazenda. Não deu entrevistas e, por telefone, só com amigos. 

Renan nunca perdeu de vista a dimensão de seu capital político. E pensa sempre à frente. 

Quando derrotado por Alcolumbre, interlocutores lembravam que aquela não era sua primeira vez “no chão”. E lembravam de sua renúncia à Presidência do Senado, em 2007, para evitar a cassação depois de uma sucessão de denúncias, entre elas, de ter despesas pessoais pagas por lobista de construtora.

Na ocasião hibernou, retornou aos poucos, foi líder do MDB na Casa e, quando pensavam que não, lá estava ele novamente, em 2013, presidente do Senado pela terceira vez.

Atualmente, vive um momento de baixa política. Volta e meia vê-se nas redes sociais um movimento #forarenan. Semana passada, o STF o tornou réu pela primeira vez na Lava Jato no caso Transpetro. Há outros inquéritos contra ele  

Mas a aproximação com o presidente do Senado pode ser a pista de que Renan mantém a mesma estratégia que no passado o levou novamente ao poder.

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