POLÍTICA
09/02/2019 01:00 -02

O pesadelo de Renan Calheiros: Senador enfrenta sucessão de derrotas

Renan é excluído do comando de comissões após perder presidência do Senado

Jonas Pereira/Agência Senado
"Quero dizer que Davi [Alcolumbre] não é Davi. É Golias, e ele é o novo presidente do Senado, pois eu retiro minha candidatura. Não vou me submeter a isso", disse Renan Calheiros.

Na vida pública desde 1978 e 4 vezes presidente do Senado, Renan Calheiros (MDB-AL) tem hoje um papel na Casa que até pouco tempo atrás era impensável. 

Renan viu sua influência diminuir com o início dos trabalhos dos parlamentares eleitos na onda da renovação política. Além de perder a disputa para presidente da Casa, o senador ficou de fora da distribuição dos principais cargos.

Em um movimento para garantir espaço ao partido, o líder do MDB, Eduardo Braga (MDB-AM) deve aceitar o acordo com o grupo do novo presidente do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP), e indicar Simone Tebet (MDB-MS) para presidência da CCJ (Comissão de Constituição e Justiça), a principal da Casa, por onde passam todas as propostas. A escolha oficial será na próxima semana.

Opositora de Renan na bancada com 13 integrantes, a maior do Senado, Tebet sofreu uma derrota entre os correligionários, mas se recuperou. O grupo resolveu indicar o alagoano como candidato à presidência do Senado, porém, diante de cada vez mais votos declarados para seu principal adversário, Renan renunciou no último sábado (2) e a vitória ficou com Alcolumbre, aliado de Tebet.

Na articulação para retribuir o apoio de legendas aliadas, o novo presidente acertou que o PSDB ficaria com o comando da CCJ. O partido, contudo, abriu mão do posto para o MDB, desde que não indicassem alguém da ala de Renan.

Após a divisão na votação do fim de semana, senadores relataram à reportagem, reservadamente, que há um desejo entre os emedebistas aliados ao alagoano de “virar a página” para brigar por espaços no Senado e alinhar o relacionamento com o governo de Jair Bolsonaro. Alcolumbre é próximo ao ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni.

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Após eleição da presidência do Senado, MDB quer virar a página para brigar por espaços na Casa e alinhar o relacionamento com o governo de Jair Bolsonaro.

Renan Calheiros sem cargo de comando

Nas últimas articulações por posições do MDB na Casa, Renan foi descartado. Aliados negam que haja um movimento de isolamento deliberado, mas duas ações do parlamentar repercutiram mal na bancada.

A primeira foi a renúncia à candidatura para presidência do Senado sem conversar com os correligionário antes. Na avaliação de um emedebista, poderia ser apresentada uma nova candidatura para um eventual segundo turno ou o apoio a outro nome, como Esperidião Amin (PP-SC).

O alagoano retirou seu nome ao perceber que não teria votos suficientes para vencer. O estopim foi a decisão da bancada do PSDB de mostrar a cédula de votação. 

O segundo fator foi um tuíte do parlamentar no último domingo (3), em que mencionava a jornalista Dora Kramer, da Veja, autora de um texto sobre sua derrota no Senado. A publicação, que cita o pai de Tebet e faz insinuações de conteúdo sexual, foi apagada pelo senador e causou um clima de constrangimento. “O tuíte ultrapassou todos os limites”, relatou um emedebista à reportagem.

Após abandonar a disputa, Renan viajou para Alagoas, no último domingo (3), onde esteve em contato com o filho, o governador Renan Filho (MDB). O parlamentar não compareceu ao Senado na última semana e deve voltar a Brasília apenas na próxima terça-feira (12).

Apesar da saída intempestiva, senadores não apostam que o alagoano irá apostar no revanchismo contra o governo, articulando para dificultar a votação de propostas como a reforma da Previdência. Nas últimas semanas, o emedebista se mostrou alinhado à pauta econômica do Palácio do Planalto, incluindo encontros com o ministro da Economia, Paulo Guedes.

Jefferson Rudy/Agência Senado
Após abandonar a disputa pelo comando do Senado, Renan Calheiros viajou para Alagoas no último domingo (3) e só deve voltar a Brasília na próxima terça-feira (12).

Renan Calheiros já se recuperou de outras crises

Em um momento de baixa, Renan se destaca por sua capacidade de voltar ao comando da cena política após derrotas. Em 2007 renunciou à presidência do Senado depois do “Renangate”, mas, 2 anos depois, estava na lista de figuras mais influentes do País e retomou o cargo em 2013.

No escândalo de 11 anos atrás, o parlamentar foi acusado de receber dinheiro ilícito de lobistas, que teriam pago inclusive a pensão alimentícia de uma filha de Renan com a jornalista Mônica Veloso. O emedebista foi absolvido da acusação em setembro pelo STF (Supremo Tribunal Federal).

Réu por peculato, Renan chegou a ser afastado da presidência do Senado em dezembro de 2016, mas conseguiu se recuperar. Na contramão de caciques de seu partido que foram derrotados nas urnas, como o atual presidente do Senado, Eunício Oliveira (MDB-CE), o alagoano conquistou com folga mais 8 anos de mandato.

Na campanha de 2018, foi cabo eleitoral do PT e usou o discurso para se distanciar do governo de Michel Temer, com altos índices de impopularidade. O senador também é lembrado por sua capacidade de articulação entre aliados e adversários e pelo conhecimento das demandas de cada parlamentar e do funcionamento dos jogos de poder em Brasília. Antes dos governos petistas, foi parte da base de Fernando Collor e integrou a gestão do PSDB.

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Aliada do novo presidente do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP), Simone Tebet (MDB-MS) deve conseguir presidência da CCJ (Comissão de Constituição e Justiça).

MDB perde espaço na Mesa Diretora do Senado

Na disputa pelos cargos da Mesa Diretora do Senado, o MDB perdeu espaço. Com mandato de dois anos, os postos incluem funções administrativas que podem impactar no ritmo de tramitação de propostas legislativas.

A sigla pleiteava a primeira secretaria ou a vice-presidência, mas ficou com a quarta secretaria. O indicado foi Eduardo Gomes (TO), do grupo de Renan. O cargo é responsável por contar os votos e auxiliar o presidente na apuração das eleições. A primeira secretaria ficou com Sérgio Petecão (PSD-AC). Já a vice-presidência, com Antonio Anastasia (PSDB-MG), que abriu mão da CCJ para Tebet.

Todos integrantes da Mesa também fazem parte da Comissão Diretora da Casa, que dá redação final às propostas de iniciativa do Senado e aquelas originadas na Câmara dos Deputados e alteradas por emendas aprovadas pelos senadores. 

Com a definição da Mesa após votação na última quarta-feira (6), o MDB foca agora outros espaços. Além da CCJ, deve indicar Marcelo Castro (MDB-PI) para a Comissão Mista de Orçamento (CMO).

O senador Fernando Bezerra Coelho (MDB-PB), por sua vez, é cotado para líder do governo. Alcolumbre sondou o líder da bancada, Eduardo Braga, com aval do ministro Onyx Lorenzoni. A movimentação pode aproximar a legenda das pautas governistas, como a reforma da Previdência.