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01/02/2020 02:00 -03

'Sou britânica e moro na Europa. O Brexit está destruindo minha identidade'

Depois de uma década morando e trabalhando em países europeus, parece que o Brexit está arrancando um pedaço de mim. E não tem nada que eu possa fazer, escreve Candice Scobling.

HuffPost UK

Hoje é o dia que vai mudar tudo, apesar de muita gente achar que nada vai mudar.

Na superfície, 31 de janeiro de 2020, a data oficial da saída do Reino Unido da União Europeia, é apenas uma data. Afinal de contas, ela será seguida por um período de transição, os cidadãos poderão transitar entre países e vários acordos comerciais serão fechados. Mas, para centenas de milhares de britânicos que moram na Europa, como eu, e milhões de outros que têm conexões europeias – sem falar dos cidadãos europeus que moram no Reino Unido ―, este dia tem muito significado.

Para mim, ele significa sensações de perda, confusão, raiva e tristeza, além de um desejo de gritar com todas as minhas forças. Não é justo. Talvez eu esteja exagerando – obviamente existem problemas mais importantes no mundo. Por que isso me incomoda tanto? Eis por quê.

No meu coração, serei para sempre parte da UE – nunca achei que seria forçada a abandonar minha família europeia.

Cresci em Plymouth, estudei línguas europeias na universidade, passei um ano morando na França e virei professora de inglês na Espanha. Moro em Soria, no norte da Espanha, há 11 anos e declaro enfaticamente que sou europeia. De certo modo, sou cada país europeu que visitei ou no qual morei. Me sinto britânica, francesa e espanhola, mas também alemã, húngara, sueca e portuguesa. Sinto que faço parte da família de línguas e culturas e povos que abriram suas fronteiras e me deram boas vindas nos últimos 33 anos das minha vida.

Como professora de inglês do Ensino Médio, sempre ensinei aos meus alunos a importância da União Europeia. Ela permite a troca de bens e a livre movimentação de pessoas entre as fronteiras, cria uma rede segura de países vizinhos e respeita direitos humanos. Igualmente importante, a UE cria as condições para um intercâmbio cultural sem precedentes na história da humanidade, graças a programas como Erasmus, Comenius e o espaço Schengen. Tenho ex-alunos estudando em Londres, na University City College, no King’s College e no Imperial College. Fizemos viagens para Estrasburgo para o evento Euroscola, no Parlamento Europeu, e participamos do Parlamento Europeu da Juventude, que  reúne jovens de todo o continente. “Unidos na diversidade”, o lema da UE, deixa claro que somos mais fortes juntos que separados.

No meu coração, serei para sempre parte da UE – nunca achei que seria forçada a abandonar minha família europeia. Mas passei os últimos quatros anos atormentada pelo fantasma do Brexit. Passei a semana do referendo, em junho de 2016, num acampamento de línguas com meus alunos. Lembro de acordar com a comemoração da nossa família anfitriã. Era um casal que vivia de hospedar professores e estudantes de outros países ― e mesmo assim eles votaram a favor do Brexit. Diziam que era um grande dia para o país. Fiquei nauseada.

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A autora mora há 11 anos em Soria, na Espanha.

Na realidade, alguns de nós achavam que esse dia não chegaria nunca. Mas agora, às vésperas do Brexit, ainda estou considerando minhas opções. O Acordo de Retirada protege os direitos dos cidadãos da UE que moram no Reino Unido e vice-versa – poderemos continuar morando fora de nossos países de origem, basta um pequeno ajuste técnico em nosso status de imigração. Mas isso não significa que nossa movimentação será livre pela Europa, nem que continuaremos sendo considerados cidadãos da UE. Isso vai depender de acordos bilaterais a serem assinados no futuro. 

É frustrante não saber o que vai acontecer comigo e ao mesmo tempo sentir-me tão incompreendida. Muita gente diz que eu deveria estar feliz, que o Brexit não vai me afetar, já que poderei continuar morando e trabalhando na Espanha. Mas por que tenho a sensação de que serei uma cidadã de segunda classe?

A ideia de ter de trocar minha linda carteira de residente que diz “Cidadã da União Europeia” por uma azul de “Estrangeira” está acabando comigo. Costumava brincar com meus amigos americanos aqui na Espanha que me pediam ajuda com seus vistos: “Sinto muito, não faço ideia”. Toda vez que vou para a Inglaterra, um dos meus colegas da escola faz piada perguntando se, na volta, poderei entrar de novo no país. É tudo na brincadeira, mas tem um fundo de verdade. Já tive pesadelos em que não consigo ver minha família ou sou impedida de voltar para a Espanha – meus direitos supostamente estão sendo protegidos pelas decisões de um bando de políticos que não conheço ou em quem não confio.

Nenhum dos responsáveis pelo processo do Brexit parece entender o quanto dói ter arrancada à força parte da sua identidade – sem que se possa fazer nada além de respirar fundo e esperar acontecer.

Falando um pouco de política, outra questão envolve o direito ao voto. Como britânica e cidadã da UE, posso votar nas eleições do meu país e nas eleições europeias. Depois do Brexit, não poderei mais votar nas eleições da UE. E, a partir de 2023, também não poderei mais votar no meu país, pois completarei 15 anos morando no exterior. Ficarei sem voz política. (Apesar de sentir-me sem voz política há tanto tempo que não sei se essa perda do direito de votar vai fazer tanta diferença.) Direitos que tive durante toda a minha vida estão sendo tirados de mim em um instante, e não é minha culpa – votei contra o Brexit, a decisão não foi minha.

Algumas pessoas, é claro, podem conseguir dupla nacionalidade em algum país da UE. Essa seria a solução ideal. Mas não para mim: a Espanha não reconhece a dupla nacionalidade com o Reino Unido. Isso significa que, se você obtiver nacionalidade espanhola (o que você pode requisitar depois de dez anos morando no país), será obrigado a renunciar à cidadania britânica. Portanto, eu posso virar espanhola e europeia, mas teria de rejeitar minha identidade britânica. Ou então posso continuar sendo britânica, mantendo o direito de morar e trabalhar na Espanha, mas não seria mais cidadã da União Europeia. 

A decisão me atormenta há muito tempo. Tenho até mesmo a papelada pronta para pedir a cidadania espanhola. Amo a Espanha, uma parte importante da minha vida está aqui, e me sinto tão espanhola quanto britânica. Mas lá no fundo sou britânica e tenho medo de que, se virar cidadã espanhola, isso pode prejudicar meu contato com minha família no futuro. Por isso, ainda não segui adiante com esse plano.

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A autora com seu parceiro, Fernando, e o cachorro do casal, Koda

Na volta da Inglaterra depois das festas de fim de ano, tive um momento de melancolia no aeroporto de Madri. Tinha de escolher qual fila de imigração pegar. Subitamente, dei-me conta de que no futuro não poderei ficar mais na fila da UE, mas sim na de “todos os outros passaportes”. Como posso, do dia para a noite, ser “estrangeira” e “outra” em minha própria casa?

Mas é claro que nada vai acontecer do dia para a noite – na realidade, o processo do Brexit está se arrastando há um tempão. Para mim, foram quatro anos de fortes emoções. Da incredulidade diante do resultado às preocupações com o que aconteceria, a esperança de que talvez ele nunca se concretizasse e a inevitável sensação de tristeza com a chegada deste dia. Acima de tudo, o sentimento inegável de que sou apenas uma pequena parte disso, já que nenhum dos responsáveis pelo processo do Brexit parece entender o quanto dói ter arrancada à força parte da sua identidade – sem que se possa fazer nada além de respirar fundo e esperar acontecer.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost UK e traduzido do inglês.