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20/05/2020 10:35 -03 | Atualizado 20/05/2020 11:50 -03

Com vídeo surreal, Bolsonaro anuncia que Regina Duarte deixa Secretaria de Cultura

Ao lado do presidente, atriz diz que assumirá a Cinemateca de São Paulo e diz que não foi "fritada" por Bolsonaro; Na última semana, braço-direito de Regina Duarte foi exonerado.

NurPhoto via Getty Images
“Pode ter um presente melhor que esse? Obrigada, presidente!”, disse Regina no vídeo, ao dizer que assumirá a Cinemateca, em São Paulo.

O presidente Jair Bolsonaro anunciou, na manhã desta quarta-feira (20), por meio de um post no Twitter a saída de Regina Duarte do posto de secretária de Cultura. Em um vídeo surreal, a atriz aparece ao lado do presidente no Palácio da Alvorada, faz piada com as notícias de que estava sendo “fritada” por Bolsonaro e se diz muito feliz com o convite para assumir a Cinemateca em São Paulo.

“Pessoal, eu vim aqui perguntar para o presidente se ele está me fritando, porque eu li isso numa imprensa que eu não acredito mais, mas, de qualquer forma, queria que ele me dissesse pessoalmente: ‘tá me fritando, presidente?’”, diz, rindo.

O presidente responde: “Regina, toda semana, tem um ou dois ministros que, segundo a mídia, estão sendo fritados. O objetivo é sempre tentar desestabilizar a gente e jogar o governo no chão. Não vão conseguir. Jamais ia fritar você.”  

Só que Bolsonaro vinha, de fato, fritando Regina Duarte.

E nos últimos 35 dias, caíram 4 integrantes do primeiro escalão do governo – dois ministros da Saúde, Luiz Henrique Mandetta e Nelson Teich, o ministro da Justiça e Segurança Pública, Sergio Moro, e Regina, nesta sexta – todos eles, incluindo um longo processo de desautorização pública comandada pelo próprio presidente, a chamada fritura.

No fim de abril, apenas dois meses depois de Regina assumir o posto, o presidente criticou publicamente a atriz, que, em meio à pandemia do coronavírus, está trabalhando de sua casa, em São Paulo. O presidente afirmou que a subordinada tinha “dificuldade” em lidar com o quadro do antigo ministério que, segundo Bolsonaro, tem “muita gente de esquerda”.

“Infelizmente a Regina está trabalhando pela internet ali e eu quero que ela esteja mais próxima. Uma excelente pessoa, um bom quadro, é também uma secretaria que era ministério, muita gente de esquerda, pregando ideologia de gênero, essas coisas todas que a sociedade, a massa da população não admite e ela tem dificuldade nesse sentido”, disse o presidente.

Depois dessas declarações, Regina Duarte foi a Brasília para uma reunião com Bolsonaro, mas permaneceu no cargo.

Em meio ao desgaste, o governo Bolsonaro chegou a reconduzir ao cargo de presidente da Funarte o maestro Dante Mantovani, que havia sido demitido pela secretária de Cultura assim que ela assumiu a pasta, no início de março. A decisão, publicada no Diário Oficial nesta terça (5), não foi assinada por Regina, mas pelo ministro-chefe da Casa Civil, Walter Braga Netto. 

No mesmo dia, contudo, o governo federal voltou atrás e tornou sem efeito a nomeação de Mantovani, que ficou conhecido por relacionar o rock ao aborto e ao satanismo.

Na última semana, o braço-direito de Regina Duarte, foi exonerado. O secretário-adjunto Pedro Horta, que não agradava à ala ideológica do governo, teve a demissão assinada também por Braga Netto. Ele tinha sido nomeado por Regina logo que ela assumiu o posto.

A demissão de Horta também veio depois de uma entrevista de Regina Duarte à CNN Brasil, na qual ela minimizou a tortura cometida sistematicamente durante a ditadura militar. “Sempre houve tortura, não quero arrastar um cemitério. Mas a humanidade não para de morrer, se você falar de vida, de um lado tem morte. Por que olhar para trás? Não vive quem fica arrastando cordéis de caixões, acho que tem uma morbidez neste momento. A Covid está trazendo uma morbidez insuportável, não tá legal!”, disse.

Regina interrompeu a entrevista depois que um vídeo com críticas da atriz Maitê Proença foi exibido. “Dei chilique aqui. Telespectadores, desculpe o chilique. Estão desenterrando a fala da Maitê para quê? Quem é você que está desenterrando fala de dois meses atrás?”

A apresentadora explica que a mensagem não é antiga, mas daquele dia. Ao ouvir o esclarecimento da âncora, a atriz interrompe e diz: “Não, não, quero ouvir”. “Vocês estão desenterrando mortos. Estão carregando um cemitério nas costas. Vocês devem estar cansados. Fiquem leves.” 

‘Presente’ de Bolsonaro

O rebaixamento de Regina Duarte para a Cinemateca de São Paulo foi definido pela atriz, no vídeo, como um “presente” de Bolsonaro a ela. 

“Acabo de ganhar um presente, que é o sonho de qualquer pessoa de comunicação, de audiovisual, de cinema, de teatro... Um convite para fazer Cinemateca, que é um braço da cultura, que funciona lá em São Paulo”, diz Regina. “Pode ter um presente melhor que esse? Obrigada, presidente!”

Depois de já ter criticado o fato de Regina não ir trabalhar em Brasília, Bolsonaro se diz “chateado” que a atriz “se afastará do nosso convívio em Brasília” e pede que ele a acompanhe toda vez que for a São Paulo. Regina agradece e diz que assim poderá ficar mais perto de sua família.