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04/03/2020 15:12 -03 | Atualizado 04/03/2020 17:06 -03

Regina Duarte assume Cultura cobrando promessa de 'carta branca' de Bolsonaro

Nova secretária usou discurso de pacificação, afirmando-se como um canal de “diálogo” com o setor, e presidente lembrou seu "poder de veto".

Adriano Machado / Reuters
“Regina, todos os meus ministros também receberam [carta branca]. (...) Obviamente, em alguns momentos, eu exerço o poder de veto em alguns nomes", disse Bolsonaro.

A posse de Regina Duarte na Secretaria Especial de Cultura nesta quarta-feira (4) foi marcada pela pouca presença de artistas e discursos contrapostos dela e seu novo chefe, o presidente Jair Bolsonaro. Enquanto a nova secretária fez questão de apostar na pacificação, afirmando-se como um canal de “diálogo” com o setor, o mandatário não abriu mão da retórica que lhe é usual para o tema: politizar. 

Regina aproveitou o momento para destacar - e cobrar publicamente - que aceitou o convite porque recebeu “carta branca” do presidente. “O convite que me trouxe até aqui falava em porteira fechada, carta branca. Não vou esquecer não, hein presidente! Foi com esses argumentos que me estimulei e trouxe para trabalhar comigo uma equipe apaixonada, experiente, louca para colocar a mão na massa”, afirmou em seu discurso.

Não afeito a ser colocado contra a parede, o chefe fez questão de responder à nova subordinada que os demais ministros também receberam a mesma promessa de porteira fechada, mas que ele interveio “em todos os ministérios” para “proteger autoridades”.

“Regina, todos os meus ministros também receberam [carta branca]. No início têm liberdade para escolher quem você quer. Obviamente, em alguns momentos, eu exerço o poder de veto em alguns nomes. Já o fiz em todos os ministérios, até porque, para proteger autoridades que, por vezes, desconhecem algo que chega ao nosso conhecimento. Isso não é perseguir ninguém. É colocar todos os ministérios, as secretarias, na direção que foi tomada pelo chefe do Executivo”, disse Bolsonaro. 

Este não foi o único momento em que os dois se opuseram. Ao falar sobre “o que é cultura”, a nova secretária do governo fez uma série de menções, muitas delas, inclusive, já rechaçadas pelo presidente, como “malícia sexy” em filmes. 

“A cultura de um país é sua alma. Seu passado, seu presente, seu futuro. E assim como a família, é sólida - quando a família cultiva seus valores, suas raízes, quando a família gera seus frutos. Assim, uma nação tem que nutrir e zelar pela cultura de seu povo. Democratizando, repartindo com equilíbrio as fatias do fomento para que todas as regiões do país possam ter viabilizadas e expostas a sua produção. E para que toda a população possa desfrutar da nossa magnífica expressão cultural”, afirmou.

É aquilo que retratam naquele espelho, às vezes distorcido, a nossa vida. Romance, suspense, humor, malícia sexy. Tem aqueles que a gente olha e recomenda. E tem aqueles que a gente reprova, acha impróprio, bota a boca no trombone.”

Ela ainda continuou: “Mas pode acreditar, presidente, que a gente tem neste nosso Brasil de meu Deus uma cultura de ponta. Uma coisa de dar orgulho na gente. Artes plásticas, pintura, escultura, artesanato, moda, museus, poesia, literatura.”

O presidente já deu início à sua fala, logo após Regina, dizendo: “Ao longo das últimas décadas, a cultura perpetuada para nós não era aquilo que a maioria do povo queria e almejava. Ela foi cooptada pela política de modo que foi usada para interesses políticos partidários. E obviamente muita gente se rebelava contra isso. Na minha cabeça de um ex-capitão do Exército brasileiro, estava patente que essa não era a cultura que realmente deveria ser desenvolvida para o público do Brasil.”

Cruzada cultural

Regina Duarte assume a vaga de Roberto Alvim, demitido em 17 de janeiro, após o ex-secretário ter postado um vídeo nas redes sociais do órgão se valendo de retórica nazista. Bolsonaro, de início, apenas telefonou para o então subordinado e o advertiu. Chegou a dizer que todo o “barulho” era “coisa da esquerda”. Só decidiu pelo afastamento frente à repercussão negativa e, especialmente pressão do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP), que é judeu.

A atriz fez uma série de exonerações publicadas no DOU (Diário Oficial da União) nesta quarta de indicados do “guru” bolsonarista Olavo de Carvalho. Na terça (3), o escritor fez uma postagem no Facebook em que critica Regina e afirma que, se ela quer se livrar de indicados dele, “a principal pessoa que ela teria de botar pra fora seria ela mesma”. Na quarta, ele afirmou na rede social ter errado em “aplaudir a indicação”. 

A cruzada ideológica do governo na cultura vem numa crescente desde a eleição do presidente.

Bolsonaro acabou com o Ministério da Cultura e só criou a Secretaria Especial de Cultura após forte pressão da classe artística. Inicialmente no Ministério da Cidadania, o órgão foi transferido para o Ministério do Turismo em novembro do ano passado. 

Em agosto, depois que Jair Bolsonaro criticou produções audiovisuais de temática LGBT que haviam sido pré-selecionadas em um edital para TVs públicas e cinema, o governo suspendeu o processo de seleção

O mandatário nega censura, mas defende que a seleção ocorra com base no conteúdo das obras para definir os projetos a serem beneficiados pelo governo. 

“A gente não quer investir em questão de ideologia, a gente quer fazer uma cultura sadia. E que você, pai e mãe, tenham prazer em assistir um filme, ir ao teatro, ao cinema. Saber que seus filhos menores, quando forem ao cinema não vão ser agredidos com uma coisa que não condiz com a cultura brasileira”, disse em uma de suas lives semanais no Facebook, esta do dia 16 de janeiro.