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20/02/2020 03:00 -03

Como as divergências sobre a reforma administrativa quase tiraram Guedes do governo

Presidente conseguiu segurar seu Posto Ipiranga, ao menos por enquanto, mas ainda falta consenso sobre texto.

Ueslei Marcelino / Reuters
Ministro da Economia defende reforma ampla e irrestrita. Ala militar tem convencido Bolsonaro de texto mais brando.

As especulação sobre uma reforma ministerial continuam em Brasília — assessores de segundo e terceiro escalões questionam quem será o próximo da Esplanada que o presidente Jair Bolsonaro vai trocar. Na terça-feira (18), ele surpreendeu a todos quando, em meio justamente à cerimônia de posse de outros dois ministros, afirmou que Paulo Guedes, o guardião da Economia, permanece no cargo “até o último dia”. Implícito, um afago ao jogador cansado e desestimulado por vários sinais trocados que tem recebido nos últimos tempos. 

“Se Paulo Guedes tem alguns problemas pontuais e sofre ataques, é muito mais pela sua competência do que por possíveis deslizes, que eu também já cometi muito no passado. O Paulo não pediu para sair, tenho certeza de que ele vai continuar conosco até o último dia. Ele não é militar, mas foi um jovem aluno do Colégio Militar de Belo Horizonte”, afirmou o presidente na cerimônia em que empossou o general Walter Braga Netto na Casa Civil e Onyx Lorenzoni no Ministério da Cidadania.

Após a declaração, dispensou empresários, convidados e políticos que participariam de uma outra cerimônia na sequência, para lançamento de um novo programa, o Brasil Mais, para receber Guedes ao lado dos ministros Luiz Eduardo Ramos (Secretaria de Governo) e Augusto Heleno (Gabinete de Segurança Institucional). 

Ouviu reclamações de seu Posto Ipiranga, como apelidou o ministro da Economia durante a campanha eleitoral, sobre a forma como a agenda econômica vinha sendo tocada pela equipe política do governo. O principal ponto de conflito é a reforma administrativa

Na reunião de terça, Guedes chegou a falar em deixar o governo. Foi convencido a permanecer. As ameaças do ministro de sair da Esplanada quando algo lhe desagrada não são novidade, afirmam interlocutores. Ele é conhecido por ter “o pavio curto”. 

Foi assim, por exemplo, na viagem à Índia, ao ouvir reclamações do chefe sobre o andamento do PPI (Programa de Parcerias de Investimentos). Desde sempre queria a gestão do modelo e, conforme relatos ao HuffPost, o chefe da Economia articulou o quanto pode para conseguir. Culminou com o esvaziamento final da Casa Civil, que antes estava incumbida do PPI, e posterior afastamento de Onyx da pasta. 

Bolsonaro sabe que Guedes é mais uma peça fundamental a seu governo. Apesar de falas controversas que geram polêmica vez ou outra - comparou servidores públicos a “parasitas” e negou que a alta do dólar seja um problema, já que em épocas de baixa da moeda, “empregadas domésticas estavam indo à Disneylândia” -, a saída do ministro, avalia-se internamente, seria um péssimo sinal a investidores. Esse custo, acreditam nomes próximos ao ministro, é o que o segura nos momentos em que ele bate de frente com o presidente. 

Reforma administrativa

A gota que faltava para o copo de Guedes transbordar desta vez foi a ideia do Planalto de duas semanas atrás, quando a ala militar aventou desistir de enviar a reforma administrativa ao Congresso. A intenção era deixar que os parlamentares dessem seguimento a algum projeto já em tramitação por lá, e o governo apenas fizesse sugestões ao Legislativo. 

Não apenas houve reação dos congressistas, que reclamaram de o governo querer jogar a responsabilidade pela reforma para o Parlamento, como Guedes não gostou. Ele, inclusive, já vinha insatisfeito com o assunto há algum tempo. 

Desde o início das conversas há divergências entre as equipes econômica e política sobre o tema, mas elas têm se acirrado nos últimos meses. O ministro defende uma reforma ampla, irrestrita e profunda do Estado brasileiro.

Bolsonaro tem sido convencido por seu núcleo mais próximo, militarista, de que algo nesses termos poderia paralisar a máquina pública e não passaria no Congresso. Por isso, a saída seria um texto mais brando.

Guedes não se convence disso. Segue insistindo com o presidente da câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), de quem se aproximou muito no primeiro ano de governo. 

De fato, apesar das reuniões com os presidentes da Câmara e do Senado, respectivamente, Maia e Davi Alcolumbre (DEM-AP), há resistência no Parlamento.

Em ano eleitoral, pode até haver interesse do comando das Casas em acelerar a proposta, mas nem mesmo lideranças acreditam que os parlamentares vão se indispor com uma fatia expressiva do eleitorado, representada pelos servidores púbicos. Foi o que o HuffPost mostrou no dia 5 de janeiro. Haverá obstáculos além da vontade política: o tempo. Os congressistas só trabalham este ano mais quatro meses até as eleições, em outubro, e retornam, em seguida, depois do pleito. 

Dentro do próprio governo isso é reconhecido. O secretário especial da Previdência e Trabalho, Bruno Bianco, destacou a dificuldade da reforma administrativa em entrevista na terça ao programa Pânico, na Jovem Pan. 

“Mexer com status da pessoa é difícil. E também mexer com as carreiras. Embora as pessoas que já estão trabalhando não serão atingidas, a carreira como um todo vai ser atingida. E os grupos de pressão são feitos por representantes de carreiras. Existe um lobby muito forte. E esse grupo não quer que a carreira perca poder. Se baixar um salário inicial de uma carreira, mesmo que seja para quem está entrando agora, essa carreira vai perder status e poder. Por isso existem esses grupos de pressão”, avaliou o secretário.

Após o mal-estar com Guedes em torno da possibilidade de desistir de enviar a reforma administrativa, o presidente garante que ela será mandada ao Congresso em breve. Havia dito que isso se daria ainda nesta semana, mas o envio foi adiado para depois do Carnaval. E após os festejos não significa na próxima semana, já que os parlamentares emendam o feriado — não retornam ao trabalho na Quarta-feira de Cinzas, mas somente na semana POSTERIOR. Ou seja, o ministro da Economia ainda vai esperar ao menos mais duas semanas para saber como sua esperada reforma se desenrola.

Enquanto isso, há negociações para acelerar outra reforma, a tributária. O mundo ideal para Guedes é que ambas caminhem juntas. A análise econômica é que, se votadas como espera sua equipe, as reformas implicariam um resultado extremamente positivo na balança para os gastos do governo. 

Numa demonstração de que nem tudo está perdido, o Congresso instalou na quarta-feira (19) uma comissão mista para elaborar um texto único da reforma tributária, juntando as propostas da Câmara e do Senado. O colegiado terá 45 dias para emitir um parecer.