NOTÍCIAS
26/03/2020 16:06 -03 | Atualizado 26/03/2020 16:24 -03

Ala ideológica reforça discurso de Bolsonaro que minimiza pandemia de coronavírus

Presidente não está sozinho nessa. Guru do bolsonarismo, Olavo de Carvalho tem repetido que coronavírus é "invenção".

O presidente Jair Bolsonaro não está sozinho no discurso que minimiza a pandemia de coronavírus no Brasil. Enquanto o mundo luta contra o novo vírus, com quase 500 mil pessoas contaminadas e mais de 22 mil mortes, o mandatário chama atenção para os efeitos negativos das medidas de controle da doença na economia. Ficar em casa, principal recomendação de cientistas e da OMS (Organização Mundial da Saúde) para desacelerar o ritmo com que o vírus se espalha, tem como efeito colateral o congelamento da atividade econômica. 

Ao lado de Bolsonaro — e contra governadores e prefeitos que frisam a recomendação de isolamento social — estão ministros e personalidades como o guru ideológico do governo, Olavo de Carvalho. Para ele, o vírus é uma “invenção”. 

Olavo tem compartilhado notícias e até gravado vídeos em que defende essa teoria. Essa linha de raciocínio é replicada pela família Bolsonaro ao acusar a China de provocar a pandemia por interesses econômicos - o que gerou o mal estar com os chineses após comentário do filho do presidente e deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP). 

O olavismo virou uma corrente aliada ao bolsonarismo, com adeptos entre os apoiadores do presidente e com grande influência. E sua narrativa tem abastecido redes sociais e grupos de WhatsApp ― ferramentas que ajudaram o bolsonarismo a chegar ao poder. O grupo ideológico do governo e que gravita em torno do presidente ajuda a disseminar o discurso conveniente a Bolsonaro neste momento. 

No momento em que o grupo fala em “invenção”, a OMS adverte que, do dia 11, quando o novo coronavírus passou a ser considerado uma pandemia até o início desta semana, o ritmo de disseminação do vírus está acelerando. Segundo a entidade, ainda é possível reverter o quadro com a realização de testes e respeito à quarentena.

“Distância social e isolamento em casa são medidas defensivas para vencer o coronavírus”, afirmou o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus. 

Justamente o contrário é o que chegou a ser defendido pelo presidente da Fundação Palmares, Sérgio Camargo. Para ele, isolamento é “a maior imbecilidade da história da humanidade”. Em uma postagem em seu Twitter na terça (23), antes mesmo de o presidente dizer que é preciso voltar à normalidade, Camargo defendeu isolamento apenas para grupos de risco e finalizou: “Ao trabalho, brasileiros”. A mensagem foi apagada minutos depois.

Reprodução @sergiodireita1
Presidente da Fundação Palmares fez postagem na terça, mas apagou.

Na mesma linha, o ministro do Turismo, Marcelo Álvaro Antônio gravou um vídeo para elogiar o chefe. “Não é momento para oportunismo, sensacionalismo ou caça às bruxas. É hora de adotar postura de enfrentamento com consciência, como fez o presidente Jair Bolsonaro”.  

Ele mencionou a queda na taxa de ocupação de hotéis para justificar a preocupação do governo com a economia, afirmando que isso se alastra, neste momento, para todos os setores. “Você já parou para pensar o que o desemprego em massa pode ocasionar no nosso País? Objetivo é salvar vidas em decorrência tanto do coronavírus, quanto econômica. Caminho árduo e exige coragem.” 

O ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, que em outubro, no auge de outra crise, do vazamento de óleo na costa brasileira, acusou o Greenpeace de ser responsável pelo vazamento que havia provocado o desastre ambiental, também tem dado apoio ao discurso do presidente.  

No pronunciamento que fez três dias depois, Bolsonaro criticou até mesmo o fechamento de escolas. “O que se passa no mundo tem mostrado que o grupo de risco é o das pessoas acima dos 60 anos. Então, por que fechar escolas? Raros são os casos fatais de pessoas sãs, com menos de 40 anos de idade. 90% de nós não teremos qualquer manifestação caso se contamine”, disse em pronunciamento, no dia 24. 

Médicos, no entanto, alertam que crianças são vetores da covid-19 e, embora muitas não apresentem sintomas da doença. Mais um argumento para a necessidade de o maior número possível de pessoas se manter em casa. O que não é suficiente para convencer o assessor especial da Presidência Arthur Weintraub.

Irmão do ministro da Educação, Abraham Weintraub, Arhtur tem minizado a pandemia e feito comparações com a época do governo PT.

Os filhos do presidente têm sido os maiores aliados do pai na guerra nas redes. Também na terça, Eduardo Bolsonaro compartilhou em seu Twitter um vídeo de Roberto Justus. “Quinze mil mortes para sete bilhões de habitantes é um número muito pequeno”, disse o empresário no vídeo compartilhado pelo 03. 

Carlos Bolsonaro também vem afirmando que apenas idosos e demais pessoas que integram o grupo de risco devem ficar em casa - o que não é a orientação do próprio Ministério da Saúde. 

Até mesmo Flávio, que sempre manteve um comportamento mais tímido e ponderado nas redes sociais, tem se mostrado aguerrido em endossar o discurso do pai e dos irmãos. 

Além de integrantes do governo e filhos, o grupo que endossa as falas de Bolsonaro conta ainda com aliados no Congresso, como o deputado Hélio Lopes (PSL-RJ). Ele é amigo antigo do mandatário, nas urnas, seu nome era ‘Hélio Bolsonaro’. Na quarta (25), gravou um vídeo pedindo que o povo “não abandone o presidente” e dizendo que Bolsonaro “está sem dormir” buscando soluções para o problema. 

Outro aliado é o deputado Marco Feliciano (Podemos-SP), que tem incentivado a retórica de “alarmismo” sobre as medidas que vêm sendo adotadas. 

Também o ex-ministro da Cidadania Osmar Terra (MDB-RS) aplaude os passos de Jair Bolsonaro.