ENTRETENIMENTO
11/08/2020 13:17 -03

'Rede de Ódio': O Taxi Driver das fake news

Filme polonês transporta a descida ao inferno do clássico de Scorsese para o momento de propagação de ódio nas redes sociais.

Travis Bickle tenta, mas não consegue se ajustar à sociedade, que o repele. Ele não entende porque Betsy o acha esquisito. Sua raiva cresce cada vez mais e toma conta de sua alma. Armado até os dentes, ele quer justiça. Para isso, ele precisa matar o senador Charles Palantine.

O jovem e pobre interiorano Tomasz Giemza vai a Varsóvia para estudar direito na grande universidade da capital, mas ele não pertence a esse mundo, que o repele. Ele não entende porque Gabi não o aceita como amigo na rede social. Ela e sua família o acham esquisito. Sua raiva cresce cada vez mais e toma conta de sua alma. Armado até os dentes com as ferramentas de um gabinete do ódio de dar orgulho aos Bolsonaro, ele quer justiça. Para isso, ele precisa matar o candidato a prefeito Pawel Rudnicki.

Há muito em comum entre a história de Taxi Driver (1976), clássico cult de Martin Scorsese, e Rede de Ódio (2020), filme polonês comprado pela Netflix que estreou no catálogo da plataforma há duas semanas, no final de julho.

Tanto o Travis de Robert De Niro quanto o Tomasz de Maciej Musialowski se sentem rejeitados, vítimas injustiçadas. Eles “não ligam” para política, mas querem que as autoridades os ouçam. Querem mostrar o quanto estão indignados e, para tal, usarão o que for preciso para alcançar seu objetivo, seja qual for a consequência. 

Pessoas excluídas que usam uma nova identidade para serem notados, ouvidos, são recorrentes na ainda curta filmografia de Jan Komasa. Há pouco mais de dois meses, outro filme do cineasta polonês estreou em streaming no Brasil. Em Corpus Christi (2019) ele contou a história de Daniel, um ex-interno de uma instituição para jovens infratores que fingia ser padre e impactava a vida dos moradores de um pequeno vilarejo atingido por uma tragédia.

No entanto, diferente de Daniel, que busca aceitação pela redenção, Tomasz Giemza persegue o mesmo objetivo pela manipulação. Belamente interpretado por Musialowski, seu personagem é quase que literalmente um vampiro. Ele não se doa aos outros como o penitente Daniel, mas suga o que há de pior no ser humano e destila esse veneno nas redes sociais em forma de fake news.

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Maciej Musialowski e Vanessa Aleksander como Tomasz e Gabi em "Rede de Ódio".

Em Rede do Ódio, Tomasz (Musialowski) é um estudante de direito que tem seus estudos bancados por uma família rica, os Krasucka, que se afeiçoaram a ele quando passavam férias em uma fazenda no interior. Ele é apaixonado pela filha mais nova, Gabi (Vanessa Aleksander), mas ela, assim como seus pais, acham ele um jeca esquisito.

Expulso da universidade por plágio, ele busca desesperadamente por um emprego que banque a imagem de sucesso que ele tenta passar aos Krasucka e encontra essa oportunidade ao conhecer Beata Santorska (Agata Kulesza), dona de uma “agência de marketing” que é, na verdade, uma verdadeira fábrica de fake news a serviço de clientes que querem acabar com sua concorrência. Seja ela uma simples influencer ou um político.

Ao cair nas graças de sua mentora, Tomasz é designado para promover uma campanha de desinformação contra um candidato à prefeitura de Varsóvia, o liberal Pawel Rudnicki (Maciej Stuhr), político de esquerda a favor do acolhimento de refugiados que é um grande amigo dos Krasucka.

Tomasz também lembra muito outro personagem derivado de Bickle: Louis Bloom, de O Abutre (2014). Assim como acontece com o protagonista do filme de Dan Gilroy, Komasa não deixa nunca claro o que estamos vendo na tela. Se é a “realidade” ou uma projeção da mente distorcida de Tomasz. Nada mais conectado com o momento em que vivemos, em que o ficcional parece mais real que a própria realidade.

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O que é real e o que é desinformação? Maciej Stuhr como o político Pawel Rudnicki.

Essa clara ambivalência é o tempo todo ressaltada por Komasa e por muitas vezes nos pegamos até torcendo para o psicopata Tomasz. A chave aqui está no próprio título do filme. No mundo atual, o ódio é o sentimento que nos separa, mas que também nos une. E Tomasz se aproveita disso.

Há momentos em que Komasa e o roteirista Mateusz Pacewicz (que voltam a trabalhar juntos após Corpus Christi) forçam um pouco demais em busca de uma verossimilhança de um universo jovem extremista que eles não parecem estar muito familiarizados. Mas no final, se encaixam na construção de um quadro geral sobre o constante estado de incitação online do ódio. 

Aliás, falando em final... A conclusão do filme polonês não é surpreendente por tudo o que nos é colocado na tela, mas causa, sim, uma boa dose de espanto. Por questões semelhantes, Coringa (2019), outro “filhote” de Taxi Driver, também deu muito o que falar. Seria Rede de Ódio um filme perigoso? Estaria ele glamourizando o ódio? Há muito o que se discutir sobre isso, mas uma coisa é certa: a relação entre o que é certo e o que é errado nunca esteve tão tênue.