11/01/2019 00:00 -02 | Atualizado 11/01/2019 00:00 -02

Rebeca Brandão, a defensora do livre acesso a espaços culturais no Rio de Janeiro

Produtora cultural tem ambição de transformar o espaço público em um organismo vivo e pulsante.

Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
Rebeca Brandão é a 310ª entrevistada do "Todo Dia Delas", um projeto editorial do HuffPost Brasil.

Imagine um espaço cultural, plural e diverso, dentro de um parque municipal, em plena zona norte carioca e aos pés de um favela? É a Arena Dicró. Entrar ali em um dia de recesso é uma experiência única. Mesmo sem atividades, espetáculos, oficinas ou residências, o lugar não perde a sua essência: crianças brincando, adolescentes conversando, moradores almoçando no restaurante no terreno. Ações que dão o tom de que aquele espaço tem dono, e não é o Estado nem quem o gere. Ao ver essa rotina pacata, mas comum, Rebeca Brandão, de 31 anos, se define como realizada. Em entrevista ao HuffPost Brasil, a coordenadora do espaço explica como foi o aperfeiçoamento da metodologia de gestão implantada e conta sua trajetória na produção cultural.

Filha de pais evangélicos e natural do Paraná, Rebeca aportou na Baixada Fluminense ainda aos 6 anos de idade. Com isso, define, toda a sua identidade territorial é da região, mas não foi formada de forma fácil. Formada em Filosofia, ela descobriu seu amor pela produção na Escola Livre de Cinema de Nova Iguaçu, onde cineastas da região usavam a história local como narrativa. A partir dali, percebeu que o caminho natural para um profissional formado em Filosofia não era muito a sua praia. Mas continuou o curso, unindo a paixão pela produção a todas as atividades universitárias: de eventos acadêmicos a choppadas: “Tudo que tinha produção, eu estava envolvida”, relembra.

Quando fui para a rua, minha cabeça girou e eu comecei a perceber a arte nesses lugares também.
Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
Com esse pensamento, Rebeca vê milhares de pessoas passar pelo palco, galeria e chão da Arena Dicró.

 

Logo no início da trajetória, trabalhou em uma galeria de arte, mas pouco depois veio a crise: “depois de ter entendido que a arte serve para um monte de coisas, eu estava vendendo quadro de 100 mil reais porque o cara acha que combina com a cor da parede dele”. Largou tudo. Foi para São Paulo, trabalhou durante as Jornadas de Junho de 2013 e se encontrou de vez nas ruas. “Eu não entendia como funcionava a cultura dos meus territórios quando eu estava aqui, como o samba que o trabalhador puxa no trem. Quando fui para a rua, minha cabeça girou e eu comecei a perceber a arte nesses lugares também”, conta Rebeca.

A volta para o Rio foi concomitante ao diagnóstico de bipolaridade. Rebeca explica que já havia percebido algumas alterações em seu comportamento e recebido dicas de amigos, mas ouvir o diagnóstico de um profissional da saúde foi a virada de chave. “Precisei entender o que era. Comecei o tratamento, e tem uma coisa de autoconhecimento para além dos remédios e da terapia. É saber que há uma limitação e que as pessoas não são responsáveis por isso, e que você precisa dar conta de viver assim. Não é um processo fácil, mas eu já tinha perdido coisas o suficiente para saber que eu não podia perder mais nada”, afirma.

A gente precisou tirar da cabeça das pessoas que o público não é nosso e sim do Estado.
Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
"Quando fui para a rua, minha cabeça girou e eu comecei a perceber a arte nesses lugares também."

 

A partir dali, ela conta, tudo começou: deu início às produções de eventos nas ruas, especialmente um sarau. O evento foi o pontapé que faltava para Rebeca entender que a “produção é linguagem”, e que dava para comunicar muito a partir dali. A produtora continuou a trabalhar na rua, até se tornar funcionária do Observatório de Favelas, que tem a gestão da Arena Dicró, uma das lonas e arenas do Rio de Janeiro. Rebeca cumpriu muitas funções, até se tornar gestora do espaço em 2017.

“Quando fui para a coordenação, me dediquei só à arena. Eu já tinha entendido que os desafios eram maiores do que eu tinha na produção de eventos na rua. Foi ali que fiz opção pela vida adulta, de pensar em gestão de política pública e como manter um equipamento cultural em área de conflito. Fazer gestão de equipamento cultural aqui não é como fazer na zona norte ou na zona sul”, explica ela. A Arena Dicró fica na entrada do Morro da Caixa D’Água, uma das favelas que compõem o Complexo da Penha.

No comando do espaço, Rebeca começou a criar, junto com a jovem equipe ― a maioria não passa dos 30 anos ― em uma metodologia para que os moradores do entorno sentissem que são parte do espaço: “Nossa metodologia é de aproximação, que pensa que isso é um espaço comum e não um espaço público. A gente precisou tirar da cabeça das pessoas que o público não é nosso e sim do Estado. Sem ter aproximação, a gente não conseguiria fazer nada do que a gente faz. Ia ser um elefante branco, ou a classe média ia esperar grandes shows”, define.

Eu sei que a metodologia funciona, mas não quando eu olho para os indicadores. Eu sei que funciona quando escuto esse retorno das pessoas.
Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
Rebeca cumpriu muitas funções, até se tornar gestora do espaço "Arena Dicró" em 2017.

 

Mas a Arena Dicró não é só um elefante branco mesmo. No último ano, quase 60 mil pessoas passaram pelas atividades geridas ou recebidas no espaço, como oficinas, palestras, shows, eventos, matinês, etc. Além disso, há uma rede de articulação cultural e social com vários outros atores da região da Penha. Para Rebeca, o que faz a diferença mesmo é a percepção das pessoas. “É unânime entre elas que a gente trabalha para que esse seja um espaço delas. Eu sei que a metodologia funciona, mas não quando eu olho para os indicadores. Eu sei que funciona quando escuto esse retorno”, explica.

Ciente de que seu cargo é “de passagem”, Rebeca defende que o espaço esteja aberto à licitação pública: “Apesar de gostar muito, não perco de vista que é um momento. Mas a gente não pode colocar menos do que a gente é em nada que a gente faz”.

 

Não adianta chegar de disco voador na periferia.
Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
"A gente não acha que o produtor é o cara que, ao resolver problemas, criou estratégias e deu o tom do projeto também."

 

E tudo que constitui Rebeca passa, claro, pela sua formação em Filosofia. Ela conta que fez toda a diferença, já que o fato de pensar a produção cultural veio das cadeiras da universidade, e pensar a sua atual profissão como linguagem também. “A gente está acostumado, dentro das artes, a entender que produtor é o cara que resolve problema. A gente não acha que o produtor é o cara que, ao resolver problemas, criou estratégias e deu o tom do projeto também”, aponta.

Co-gestor do espaço, junto com a prefeitura do Rio, o Observatório de Favelas tem um caráter de pensar políticas públicas funcionais para reduzir a desigualdade. Rebeca conta que essa ideia deu “match” com o que ela pensa do papel da cultura. “Não daria para gente fazer a gestão aqui sem pensar em reduzir desigualdade. A cultura e a produção cultural são muito orgânicas. Não adianta chegar de disco voador na periferia. Ou você come um quilo de sal, ou não vai funcionar. Tenho privilégio de trabalhar no Observatório, e também tenho o privilégio de estar em uma equipe que trabalha junto comigo para fazer a Arena funcionar”, define.

 

Esse espaço para mim e qualquer pessoa que entra aqui é uma mola propulsora.
Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
A preocupação dela é tornar aquele espaço mais do que um palco, mas um organismo vivo e pulsante.

 

Com esse pensamento, Rebeca vê milhares de pessoas passar pelo palco, galeria e chão da Arena Dicró, mas não tem saudosismo nem tutela. A gestora realmente acredita que aquele é um espaço de criação, motivação e, principalmente, pontapé para que outros profissionais da arte e da cultura se encontrem. Como aconteceu com ela. 

“Esse espaço para mim e qualquer pessoa que entra aqui é uma mola propulsora. E raízes sólidas dão árvores mais bonitas. Para a próxima gestão, já me basta que saibam que não dá para fazer qualquer coisa aqui. Tem gente que mora aqui e se sente dona desse espaço, e não estou falando por mim. Eu estou fazendo no máximo uma zeladoria. Nosso trabalho prioritário é atendimento ao público”.

A julgar pelos sorrisos de quem sobe o Parque Ary Barroso para chegar até ao acolhedor terreno da arena, a preocupação de Rebeca em tornar aquele espaço muito mais do que um palco, mas um organismo vivo e pulsante, tem dado certo.

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Lola Ferreira

Imagem: Valda Nogueira

Edição: Andréa Martinelli

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil e CUBOCC

O HuffPost Brasil lançou o projeto Todo Dia Delas para celebrar 365 mulheres durante o ano todo. Se você quiser compartilhar sua história com a gente, envie um e-mail para editor@huffpostbrasil.com com assunto “Todo Dia Delas” ou fale por inbox na nossa página no Facebook.

Todo Dia Delas: Uma parceria C&A, Oath Brasil, HuffPost Brasil, Elemidia e CUBOCC