Comida

Por que sou obcecado por programas de culinária se eu nunca cozinho?

Para muita gente que assiste a esses programas, não tem nada a ver com aprender a cozinhar.

Kerianne Vianden é apaixonada por comida desde que se entende por gente.

“Meus pais dizem que eu pulei comida de bebê e fui direto para a massa de pizza”, diz a redatora ao HuffPost. Ela também se lembra da época do ensino médio, quando fazia listas de todos os lugares em que queria comer em um dia, a maioria deles inspirada em Diners, Drive-Ins and Dives de Guy Fieri, seu programa de comida favorito na época (e até hoje um dos top 10).

Vianden, hoje adulta, está mais apaixonada que nunca por esse tipo de programa. Ela adorava Man V. Food (quando o programa ainda estava no ar) e o reality show Chopped, seu predileto hoje em dia. Quando quer curtir um dia mais relax, Vianden assiste Barefoot Contessa.

Mas cozinhar? De jeito nenhum.

“Para cozinhar é preciso ter muita paciência. Não é para mim”, afirma ela. “Prefiro morrer (OK, na verdade não) a esperar horas para que minha comida ― que demora 10 minutos para comer ― finalmente fique pronta.”

Vianden não está sozinha. Molly Galler, uma blogueira de Boston que escreve sobre comida, detesta todos os passos do processo de cozinhar: encontrar as receitas, comprar os ingredientes, preparar e esperar um século para a comida ficar pronta – sem falar na pilha de panelas e louças sujas na pia.

“E nem me fale das receitas que você tem de começar no dia anterior”, diz Galler.

Ina Garten, também conhecida como “The Barefoot Contessa”, ficou famosa por conduzir os telespectadores a um estado mental de relaxamento com os jantares que ela prepara em sua casa.
Ina Garten, também conhecida como “The Barefoot Contessa”, ficou famosa por conduzir os telespectadores a um estado mental de relaxamento com os jantares que ela prepara em sua casa.

Mas muitos dos programas favoritos de Galler são de culinária. “O primeiro programa de culinária com o qual eu fiquei realmente obcecada foi Top Chef”, diz ela. Desde então, seu repertório também inclui Food Network Star e Great Food Truck Race ― ela sempre os assiste quando eles passam pela primeira vez na TV. Galler também grava todos os episódios de Chopped.

“Também assisto The Pioneer Woman se estiver passando na hora”, acrescenta Galler.

É claro que ninguém precisa adorar cozinhar para assistir a programas de culinária, mas mesmo assim: por que as pessoas amam tanto um tipo de programa se elas não têm o menor interesse reproduzir o que aparece na tela?

Para muitos dos fãs dos programas de culinária, não se trata de aprender a cozinhar.

Os fãs de programas de culinária geralmente se enquadram em duas categorias: aqueles querem aprender a cozinhar e também gostam do aspecto de entretenimento da TV, e aqueles que prestam atenção em tudo, menos nas instruções. Eles podem até curtir as informações passadas pelos chefs, mas o que os atrai são as sensações.

“Alguns pacientes falam disso comigo”, diz Ashwini Nadkarni, psiquiatra associada do Brigham and Women’s Hospital, em Massachusetts. “Eles dizem que os programas de culinária são fascinantes ― apesar de a pessoa ter ódio pela cozinha ― porque os fazem acreditar nas possibilidades”.

Conhecido como consumo indireto ou consumo por procuração, o processo de assistir a um programa de culinária pode ser mais satisfatório para quem odeia a cozinha do que o processo de cozinhar e comer na vida real – porque, mesmo que você não faça questão de cozinhar, provavelmente gosta de comer.

“Os seres humanos têm uma ótima capacidade de simular experiências multissensoriais usando somente elementos visuais, porque um terço do nosso córtex é dedicado exclusivamente à visão”, diz Matt Johnson, professor de psicologia e fundador do blog de neuromarketing PopNeuro.

“Quando assistimos alguém preparando uma refeição deliciosa, simulamos e imaginamos o sabor daquela comida”, afirma ele. “É um pedacinho dessa experiência gustativa deliciosa, sem nenhuma das desvantagens, como as calorias ou a inevitável limpeza que vem depois.”

Os programas de culinária preenchem o vácuo emocional que você acredita que o amor pela culinária “deveria” ocupar.

Considerando a forte pressão da sociedade para que façamos tudo e sejamos tudo, os especialistas dizem que esses programas podem ajudar a preencher um vazio para as pessoas que não gostam de cozinhar, mas se perguntam se um dia virão a curtir essa atividade.

Guy Fieri ficou tão famoso que ganhou uma estrela na Calçada da Fama de Hollywood, em Los Angeles, 22 de maio de 2019
Guy Fieri ficou tão famoso que ganhou uma estrela na Calçada da Fama de Hollywood, em Los Angeles, 22 de maio de 2019

“Definitivamente me senti pressionada achando que deveria gostar de cozinhar”, afirma Vianden. Ela diz que, quando vê no Instagram uma foto de um prato de massa feita em casa, a sensação é que “preparar refeições caseiras geralmente está relacionado com felicidade e vida saudável”.

Para alguns, isso pode criar a esperança consciente ou inconsciente de que um dia tudo vai entrar nos eixos ― energia, desejo, dinheiro, tempo ― e finalmente começará uma jornada culinária parecida com a que vemos na TV.

É o caso de Cat Soroush, executiva-sênior de contas do Zazil Media Group em Nova York e fanática por programas de culinária. “Sempre peço que minha colega compartilhe comigo suas receitas. Sei que provavelmente não vou fazê-las, mas gosto de acreditar que vou ― um dia!”

Essas pequenas esperanças podem ajudar a lidar com a preocupação de atender às demandas da sociedade. “A mente se livra da pressão e do estresse, dizendo: ‘Posso não fazer isso agora, mas um dia vou fazer’”, diz Carla Marie Manly, psicóloga e autora de Aging Joyfully (Envelhecendo com Alegria, em tradução livre).

Afirmações como esta permitem que você drible de maneira saudável as pressões, as expectativas e as demandas.

O mundo de alegria dos programas de culinária é uma bela dose de alívio para o estresse.

Assistir programas de culinária quando você está muito estressado, mesmo que você odeie cozinhar, não é tão estranho quanto você possa imaginar.

“Esses programas são uma janela para um mundo perfeito”, afirma Manly. “Quando nossas vidas parecem caóticas e estressantes, é reconfortante assistir um programa em que tudo é preciso, controlado e aparentemente factível.”

O uso de programas de culinária como uma espécie de fuga da da realidade pode ter a ver com a evolução desse tipo de programa. Antigamente, eles eram basicamente instrutivos. Hoje em dia, eles oferecem uma experiência de aprendizado que tem mais a ver com entretenimento que com educação.

“Nos últimos dez anos, mais ou menos, a popularidade dos reality shows convergiu com o crescimento das redes sociais”, afirma Nadkarni. “Esses programas têm um elemento de transporte emocional, especialmente porque eles mantêm um pé na realidade. Isso permite que os espectadores se identifiquem e se conectem com os chefs e os participantes.”

Curtir essas experiências culinárias na tela acaba se tornando um substituto satisfatório para quem acha que cozinhar na vida real é caro, frustrante, demorado ou simplesmente um desafio assustador demais.

Ree Drummond, conhecida como ‘The Pioneer Woman’ (a pioneira), apresenta um programa que trata tanto da sua vida num rancho em Oklahoma quanto dos pratos que ela prepara.
Ree Drummond, conhecida como ‘The Pioneer Woman’ (a pioneira), apresenta um programa que trata tanto da sua vida num rancho em Oklahoma quanto dos pratos que ela prepara.

Além disso, quando você teve um longo dia de trabalho e não tem a energia mental necessária para acompanhar uma série cerebral cheia de reviravoltas complicadas, os programas de culinária são a solução perfeita. Eles são leves e alegres e cheios de afeto. É o equivalente emocional de uma refeição caseira ― e sempre sobra espaço para repetir.

Você pode estar em busca inspiração, não habilidades culinárias.

Não há nada de errado em odiar a cozinha (com exceção de eventuais transtornos alimentares desencadeador por assistir a programas de culinária). Aceitar isso pode ser libertador.

“Nem todo mundo gosta do trabalho demandado pela cozinha. Como a vida é curta demais para fazer aquilo que a gente não gosta, temos de parar de pensar em coisas que ‘deveríamos’ fazer e concentrar esforços nas áreas que nos trazem saúde e alegria”, afirma Manly.

Sua compulsão por programas de culinária também pode significar uma busca por inspiração. Cozinhar pode não ser sua atividade predileta, mas talvez seu objetivo pode ser encontrar um hobby criativo. Assistir chefs arriscando tudo para fazer o que amam pode ser algo que te atraia de forma subconsciente.

“Nunca sinto vontade de fazer nenhum dos pratos – mas gosto de ver os outros sofrendo e preparando algo impressionante e delicioso”, afirma Galler. “Sempre fico impressionada com as combinações de sabores e as lindas apresentações.”

Como somos criaturas sociais e sentimos empatia, a alegria alheia pode facilmente se traduzir em nossa própria alegria. “Mesmo que não cozinhemos, curtimos o fato de que [os chefs da TV] estão tendo prazer”, diz Johnson.

Ou então o que você mais admira é o quanto eles adoram cozinhar. Como é possível amar uma coisa assim? É impossível desgrudar os olhos da tela.

“É divertido vê-los fazendo a única coisa que eu realmente queria conseguir fazer, mas sou absolutamente incapaz”, diz Soroush. “É como as vitrines das lojas de luxo. Você sabe que nunca terá dinheiro para aquelas peças, mas nada te impede de sonhar.”

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.